Retorno de jihadistas desertores do EI vira mais um desafio para a França

Soren Seelow

  • BBC

Pelo menos 700 franceses ainda se encontram na Síria e 200 já deixaram a organização Estado Islâmico; por rejeitarem a sociedade na qual nasceram, surge a questão sobre como será seu futuro

Ele é um dos pioneiros da jihad "made in France": Kevin Guiavarch, um francês de 23 anos, foi para a Síria no final de 2012, um ano e meio antes da proclamação do califado pela organização Estado Islâmico (EI) em junho de 2014.

Após anos de guerra civil, ele por fim decidiu voltar para a França, acompanhado de suas quatro mulheres e seis filhos, preocupado em proteger das bombas sua numerosa família, e também por medo de morrer.

Após mais de um ano de negociações, ele obteve, em junho, autorização do consulado da França em Istambul para atravessar a fronteira e se render à polícia turca. Encarcerados durante quatro meses na Turquia, mulheres e filhos foram deportados recentemente para a França: três de suas mulheres foram colocadas sob detenção provisória no país e uma sob controle judicial. Os seis filhos —quatro deles nascidos na Síria— foram entregues à assistência social. Já o jihadista aguarda na prisão turca enquanto a Justiça do país decide sobre seu caso.

Eles estão entre os que tomaram o caminho de volta. Assim como Kevin Guiavarch, há quase 200 franceses que desertaram as fileiras do EI desde o início do conflito sírio, decepcionados com a experiência jihadista, angustiados com a ideia de cair em desgraça perante a administração cada vez mais paranoica do califado ou simplesmente por quererem fugir da guerra.

A vontade do retorno

Com a intensificação dos bombardeios da coalizão internacional e o avanço do Exército iraquiano e das tropas curdas, o EI foi perdendo a cada semana um pouco de seu território e de sua atratividade junto aos cerca de 12 mil combatentes estrangeiros —sendo 5 mil vindos da Europa— que engrossaram suas fileiras. A batalha de Mossul, no Iraque, iniciada no dia 17 de outubro, poderá derrubar um dos bastiões mais simbólicos da organização.

Segundo os serviços de inteligência, quase 700 jihadistas franceses continuam na região —cerca de 400 homens e 300 mulheres— e mais de 400 menores, sendo que metade deles, com menos de 5 anos, nunca conheceram outra realidade além da guerra. No final de novembro, o balanço dos franceses mortos desde o início do conflito foi de 221, contra 195 em setembro, ou seja, um aumento de quase 13% (26 mortos) em somente dois meses. Alguns deles teriam morrido na batalha de Mossul.

A deterioração da situação militar do EI —e a perspectiva de seu fim como proto-Estado— tem levado um número crescente de jihadistas a considerar a deserção. "O EI está perdendo sua base territorial e sua atratividade. Estão voltando para a França jihadistas que tinham responsabilidades dentro da organização, é um fenômeno significativo", ressalta um membro dos serviços de inteligência.

Mas deixar as fileiras do EI não é algo fácil. A organização vem proibindo as partidas de seus combatentes estrangeiros há um ano e meio, e enviou para seu território uma grande rede de espiões encarregados de interceptar os desertores. As tentativas de partida nos últimos meses vêm se deparando sobretudo com o controle cada vez mais hermético da fronteira turco-síria por parte de Ancara.

Os retornos clandestinos se tornaram arriscados, o que explica o fato de que o fluxo de jihadistas em processo de retorno paradoxalmente tende a diminuir: no primeiro semestre de 2016 foi registrado o retorno de somente 12 franceses, ante 25 no semestre anterior. Para esperar atravessar a fronteira, os mais motivados agora não hesitam mais em contatar o consulado da França para obter uma autorização das autoridades turcas, cientes de que a prisão os aguarda na volta.

O número não-oficial

Ninguém sabe quantos jihadistas voltarão ao país. Primeiramente porque existe um número não-oficial de franceses que entraram para o EI, e mais ainda daqueles que podem voltar.

"Alguns deles passam pela Itália, pelo Magrebe ou por Chipre," explica um membro dos serviços de inteligência. "É aquilo que se chama de 'voo interrompido', como quando uma família passou vários meses no Egito antes de seguir para a Turquia. É impossível de detectar."

O segundo fator que torna delicada essa contagem se deve ao fato de que a mortalidade nas fileiras do EI aumentou consideravelmente nos últimos meses. A palavra de ordem do califa autoproclamado Abu Bakr el-Baghdadi, chamando seus homens a combaterem até o fim, poderia contribuir em muito para diminuir o número de retornos. O último elemento de incerteza é de ordem estratégica: o que farão os jihadistas mais convictos caso o projeto territorial do EI venha a ser posto em xeque? Será que eles se refugiarão na Síria, se espalharão pelos países mais frágeis da região ou se infiltrarão na Europa para ali cometer atentados?

Em uma entrevista concedida ao pesquisador do Washington Institute, Aaron Y. Zelin, o jihadista Rachid Kassim, da comuna de Roanne, acusado de ter comandado à distância diversos atentados na França, explica: "É simples: ainda que eles tomem Mossul e Raqqa, nunca deixaremos de lutar. Ainda que tenhamos de viver dentro de grutas nas montanhas, a luta continuará. A jihad existia antes do EI, e continuará depois dele."

Um outro combatente ocidental entrevistado pelo pesquisador é mais preciso: "A terra de Alá não se reduz ao Iraque e à Síria. O califado se estende ao Afeganistão, à Líbia, à África Ocidental, à Argélia, ao Iêmen e a muitos de seus soldados que vivem na terra dos infiéis". As vias que tomarão os 700 franceses do EI até agora são desconhecidas. Mas as autoridades são obrigadas a antecipar: "Estamos diante de um grande estoque de retornos em potencial", resume um membro dos serviços de inteligência.

Uma resposta penal

E o que fazer com os jihadistas que voltam à França, sejam eles combatentes experientes, "desiludidos" com o EI ou mulheres? No dia 7 de novembro, o primeiro-ministro Manuel Valls declarou que esse era o "principal tema de preocupação" em matéria de segurança para os "cinco ou seis próximos anos."

A resposta das autoridades hoje é essencialmente penal: aqueles que têm o retorno detectado são sistematicamente indiciados, e a maior parte deles, presos. Os raros que não são indiciados, por falta de elementos materiais que atestem sua presença na Síria, são alvo de um acompanhamento administrativo.

As mulheres durante muito tempo se beneficiaram do "subterfúgio do gênero", visto que elas teriam sido recrutadas por homens, mas os investigadores acabaram entendendo que o grau de radicalização delas muitas vezes não perdia em nada para o dos homens. Agora todas elas são indiciadas, e cada vez mais frequentemente colocadas em detenção.

Antecipando um fluxo de jihadistas em processo de retorno, o ministro da Justiça, Jean-Jacques Urvoas, anunciou no dia 25 de outubro a criação de 13 alas para mulheres nas penitenciárias até o final de 2017, ou seja, cerca de cem vagas. Quanto aos homens, o ministro previu que os 300 detentos radicais "mais perigosos" seriam submetidos a um regime de detenção semelhante à solitária.

Em abril, a procuradoria de Paris havia antecipado o fenômeno das voltas endurecendo sua política penal: até então considerado como um delito passível de dez anos de prisão, o fato de ter entrado para as fileiras do EI passou a ser crime, passível de 20 a 30 anos de reclusão. "A ideia é proteger a sociedade deixando esses indivíduos por mais tempo na prisão", explicou François Molins em uma entrevista ao "Le Monde".

Deveria a mesma severidade se aplicar aos que voltam e se apresentam como arrependidos? Um magistrado resume a posição da instituição judiciária: "Podíamos ouvir os argumentos de alguns dos que se desiludiram com a jihad há alguns meses. Aqueles que estão voltando hoje o fazem por razões claramente oportunistas diante da degradação da situação militar. Então partimos do princípio de que eles não estão sendo sinceros."

Quais são as alternativas além da prisão?

Para além da resposta que se deve dar no sentido da segurança, imediata e necessária, permanece em aberto uma questão fundamental: como desconstruir a ideologia que tomou conta da mente deles? Os depoimentos coletados no livro do jornalista David Thomson, "Les Revenants" (Ed. Seuil-Les Jours), com trechos publicados pelo "Le Monde", mostram isso claramente: embora muitos ex-jihadistas se digam decepcionados com sua experiência na Síria, são poucos os que abandonaram a ideologia que motivou sua ida. E nem todos passarão sua vida atrás das grades.

Em uma tentativa experimental de mudar o radicalismo dos franceses atraídos pela jihad, o governo abriu em setembro um "centro de prevenção, de inserção e de cidadania" em Beaumont-en-Véron (Indre-et-Loire). Esse estabelecimento-piloto acolhe, de forma voluntária, somente a parte mais baixa do espectro: jovens meio perdidos que planejaram ir para a Síria e que não estão sob tutela da Justiça.

Essa experiência deve servir de modelo para a criação de 13 centros semiabertos que possam acolher perfis mais perigosos. Os dois primeiros deverão abrir as portas nos próximos meses: um poderá receber homens fortemente radicalizados sob controle judicial ou em redução de pena, e o segundo será reservado às mulheres e aos menores de idade.

Um sinal da dificuldade que as autoridades têm em mensurar a periculosidade desse público heterogêneo é o fato de que os critérios de admissão dos futuros residentes continuam sendo objeto de duas discussões. Será que certos jihadistas deveriam ficar lá? As mulheres que retornarem serão acolhidas no local junto com os filhos? Esses locais servirão, com o tempo, de pontos de pré-reinserção para os jihadistas que tenham cumprido sua pena?

Ódio da França

A resposta que as instituições darão ao fenômeno dos jihadistas que estão voltando será crucial. Mas o ódio que esses franceses têm pelo próprio país é um desafio lançado à toda a sociedade. A relegação social de uma parte da juventude descendente de imigrantes e a política externa do Ocidente são seus principais combustíveis, atiçados por métodos de doutrinação sectários. Os depoimentos de jovens radicalizados, ao qual o "Le Monde" teve acesso, e que ecoam aqueles coletados por David Thomson, nos levam a ampliar a reflexão sobre a origem dessa radicalização. Muitos desses franceses em ruptura com a sociedade expressam um sentimento profundo de tédio diante do materialismo ocidental: a propaganda islâmica responde a isso através da rejeição à dunya, a vida material e terrestre, em prol de uma transcendência perversa.

Contra a mercantilização do corpo, tema recorrente de sua rejeição ao Ocidente, o fundamentalismo islâmico oferece o pudor do véu. Diante do fim das grandes ideologias, ele propõe uma leitura radical para mudar o mundo. Ao sentimento de humilhação das minorias, ele apresenta uma revanche retumbante e sangrenta. Por trás do aparente niilismo da atração jihadista se esconde um desejo. Um desejo culpado, que questiona todo o corpo social.

Tradutor: UOL

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