Bollywood vira refém de fundamentalistas hindus

Stéphane Picard

  • Samuel de Roman/AP

    O cineasta de Bollywood Karan Johar precisou defender seu filme devido à presença de um galã paquistanês no elenco

    O cineasta de Bollywood Karan Johar precisou defender seu filme devido à presença de um galã paquistanês no elenco

Com as tensões em Caxemira, os paquistaneses se tornaram indesejáveis nas produções de Mumbai

Já anoiteceu faz tempo no bairro comercial de Nariman Point, e os cinéfilos se apressam para pegar a sessão das 21h no multiplex Inox, vizinho do Parlamento do Estado de Maharashtra, ao sul de Mumbai. O último sucesso de bilheteria de Karan Johar, "Ae Dil Hai Mushkil", está em cartaz desde o final de outubro e Shashi, de 50 e poucos anos, veio acompanhado de sua família se regalar com três horas de melodrama em uma sala de última geração equipada com poltronas reclináveis.

"Não podíamos perder, adoramos Johar e os atores que estão nesse filme", ele explica enquanto aguarda na fila.

Ao seu lado, sua mulher de sári verde-água concorda balançando a cabeça. Deve-se dizer que nos papeis principais estão três estrelas de Bollywood: Ranbir Kapoor, Anushka Sharma e Aishwarya Rai (Miss Mundo 1994). O que o cartaz do filme não diz é que o paquistanês Fawad Khan também está no elenco.

"Os paquistaneses não têm de estar na Índia, e essa é a última vez que vamos deixar isso passar", resmunga Shashi.

"Ae Dil Hai Mushkil" por pouco não passou nos cinemas. No final de setembro, insurgentes paquistaneses mataram cerca de 20 soldados indianos no quartel de Uri, em Caxemira, e o Exército do Renascimento de Maharashtra (MNS, Maharashtra Navnirman Sena), um partido regionalista de extrema-direita de Mumbai, ameaçou atacar todos os cinemas que se aventurassem a exibi-lo.

Uma tragédia anunciada, para uma produção cujo orçamento ultrapassou 1 bilhão de rúpias (R$49 milhões). O diretor, considerados um dos porta-vozes da profissão em Bollywood, aceitou humildemente pagar o equivalente a 690 mil euros (R$ 2,47 milhões) para uma fundação de apoio ao Exército indiano, para salvar seu filme.

Shashi diz, agressivo: "Não estou nem aí para o MNS, não é essa a questão. O que quero é que parem de ser amigáveis com aqueles que estão atacando meu país."

Mas, psiu! O filme vai começar. A plateia se levanta em um único movimento para cantar o hino nacional. Enquanto passam os créditos, aparece uma mensagem sobre um fundo preto, saudando "nossos soldados e tudo aquilo que eles estão fazendo para nos proteger."

Em três semanas, "Ae Dil Hai Mushkil" arrecadou mais de 1,5 bilhão de rúpias em bilheteria, um dos melhores desempenhos do ano na Índia.

"O filme está sendo um sucesso porque é uma bela produção", afirma Madhavi, uma jovem atriz originária de Caxemira, que prefere não revelar sua identidade. "Mesmo sem essa polêmica, teria ido bem."

"Se você citar meu nome, eles vão me investigar, vão me acusar de ser antinacionalista e terei de sair de Mumbai", ela afirma em um café discreto de Bandra, o bairro mais badalado da megalópole.

"Eles", no caso, são os fundamentalistas hindus do MNS.

AFP
O ator paquistanês Fawad Afzal Khan atua em filmes de Bollywood

"Com Narendra Modi como primeiro-ministro, a Caxemira se tornou uma questão religiosa, e o cinema é um alvo fácil", se enerva Madhavi, que retém informações sobre colegas que participaram da montagem de "Ae Dil Hai Mushkil".

"No roteiro, a cidade paquistanesa de Lahore foi substituída de última hora pela cidade indiana de Lucknow, e o filme sofreu cortes", ela afirma.

Já o MNS assume com orgulho a controvérsia. "É inaceitável que paquistaneses atuem em filmes indianos, estamos dizendo isso há anos", explica Tushar Aphale, presidente do partido no distrito de Bandra-Oeste. Ele não aceitou o fato de que atores paquistaneses tenham condenado pelo Twitter os atentados de 2015 em Paris e não tenham dito nada após o ataque de Uri, em setembro.

"Nossa cidade foi alvo de várias bombas nos anos 1990, em 2008 ela foi sitiada durante três dias por terroristas paquistaneses, e não devemos fazer nada?"

Tushar Aphale comemora que o diretor de "Ae Dil Hai Mushkil" tenha pago dinheiro. Mas ele não está "particularmente orgulhoso" do fato de que a Guilda de Produtores de Cinema e de Televisão da Índia tenha jurado nunca mais trabalhar com atores paquistaneses.

No entanto, ele reconhece ter intenções políticas. Em fevereiro de 2017, serão realizadas as eleições municipais em Mumbai e seu partido quer a qualquer preço obter mais do que as 28 cadeiras que eles detêm atualmente, de um total de 227.

"O MNS está fazendo barulho para chamar atenção, mas ele também é muito popular, pois controla os serviços de água e de estradas", ressalta a cineasta Shona Urvashi, que vê nesse caso a versão local do movimento mundial de xenofobia que se manifestou na Europa através do Brexit e nos Estados Unidos com a eleição de Donald Trump.

"É o mesmo temor, expresso de uma forma diferente", ela diz. Originária de Sindh, uma província situada hoje no Paquistão, essa indiana não se ofende com o "resgate" pago por Karan Johar: "A Índia sempre vai funcionar assim."

No futuro imediato, as perspectivas se encolheram para o recrutamento de atores. "Essa história é digna do macarthismo, ela reduz as fronteiras da criação sendo que para nós, apesar da divisão de 1947, os paquistaneses não são estrangeiros", explica Nandini Shrikent, diretora de elenco em Bollywood.

"O 'Ae Dil Hai Mushkil' é o bode expiatório de um debate político que está além de nossa compreensão."

Dois outros filmes estão hoje na mira do MNS: "Dear Zindagi", do cineasta Gauri Shinde, coproduzido por Karan Johar e com o ator paquistanês Ali Zafar, nos cinemas a partir de 25 de novembro. E "Raees", um thriller de Rahul Dholakia anunciado para 2017, com a atriz paquistanesa Mahira Khan.

Entre uma filmagem e o lançamento de sua coleção de roupas, a figurinista Smriti Sinha nos encontra em um parque de Bandra, discretamente.

"Boicotar os filmes não leva a nada, isso serve sobretudo para desviar a atenção do público dos verdadeiros assuntos importantes", ela observa.

"Os mesmos que condenam os artistas paquistaneses não perderiam por nada as séries da Zee TV, onde o belo Fawad Khan, ator e cantor paquistanês, é o astro. Enquanto isso, não se fala no problema da aposentadoria de nossos militares, nem dos atentados que também atingem o Paquistão."

"Não é a primeira vez que algo do tipo acontece, outros artistas já foram proibidos de ficar na Índia, mas as pessoas esquecem rápido", acredita a produtora Deepika Gandhi, que se pergunta como vão fazer as produções paquistanesas, acostumadas a filmar na Malásia ou na Tailândia recorrendo a diretores indianos, que têm fama de serem mais criativos do que seus colegas de profissão da "terra dos puros".

Ela também deseja "boa sorte" àqueles que, assim como o escritor Harsh Narayan, pretendem fazer um filme sobre os laços culturais muito fortes que unem a Índia e o Paquistão. Desde a determinação do MNS, este duvida que seu projeto seja realizado.

Tradutor: UOL

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