Shopping center vira atração em cidade nigeriana e negócio começa a decolar

Norimitsu Onishi

Em Warri (Nigéria)

  • Glenna Gordon/The New York Times

    O Delta Mall, em Warri, na Nigéria, o primeiro nesta região do país africano

    O Delta Mall, em Warri, na Nigéria, o primeiro nesta região do país africano

Grupos de crianças passeavam lá dentro, de olhos arregalados com a abundância. Adolescentes e adultos tiravam selfies e fotografias de grupo, elogiando a conveniência, a segurança, o lazer e, não menos importante, o ar-condicionado tão silencioso, onipresente e refrescante.

Alguns tinham entrado em lugares como este durante viagens aos Estados Unidos, à Europa ou até mesmo à maior cidade da Nigéria, Lagos, que teve o seu primeiro apenas alguns anos atrás.

Outros eram "Johnny-Just-Come" [gíria nigeriana para recém-chegados ingênuos], visitantes de primeira viagem, que paravam confusos na frente das portas ativadas por sensores. Eles provocavam risos nos veteranos que já tinham estado uma ou duas vezes na maior e mais nova atração desta cidade nigeriana nos últimos tempos: um shopping center reluzente.

"Estou muito, muito, muito animado", disse John Monday, que tinha viajado cerca de 320 quilômetros para visitar o shopping numa tarde de sábado, enquanto um amigo tirava uma foto dele posando na frente de um supermercado. "Uma pessoa de classe média pode entrar neste shopping e sentir que pertence a esse lugar."

O Delta Mall abriu na primavera passada, aumentando para cerca de uma dúzia o número de shoppings ao estilo ocidental que atendem a 180 milhões de pessoas na Nigéria, país mais populoso da África. Muitos shoppings, ancorados por supermercados e grandes lojas de departamento, com outros inquilinos ao longo dos corredores, podem estar com dificuldades nos Estados Unidos. Mas na Nigéria, que tem a maior economia da África e deve ultrapassar os Estados Unidos como a terceira nação mais populosa do mundo até 2050, os shoppings estão começando a decolar.

A ascensão dos shoppings --e da cultura dos shoppings-- na Nigéria reflete as tendências do continente como um todo, entre elas uma classe média crescente com poder aquisitivo e a rápida expansão de cidades como Warri, que são pouco conhecidas fora da região.

Como nos Estados Unidos, os shoppings da Nigéria logo se tornaram pontos de encontro para os jovens e destinos para a família inteira. Sua raridade também confere uma sensação de exclusividade.

Empurrando um carrinho de compras cheio de comida e o modelo mais recente de um smartphone chinês, Wealth Mark, 22, passeava pelo Delta Mall com sua irmã mais nova, Confidence, e sua amiga, Franca, todas com sorrisos largos. Mark parou para tirar fotos das duas jovens com o smartphone, e depois uma selfie das três.

"Quando encontro minhas amigas aqui ou em Lagos, sempre vamos ao shopping", disse Mark, que faz o marketing de uma empresa de código de barras de propriedade de uma irmã mais velha. "Nós podemos passar algumas horas no shopping e relaxar."

Até os nigerianos mais velhos que eram céticos quanto a pagar preços mais caros em relação aos mercados tradicionais veem o shopping como um lugar para passear com a família.

"Os meus filhos gostam", disse Victor Omunu, 53, acrescentando que nunca compraria nada para si mesmo no shopping. "Eu comprei sorvete para eles. Não é ruim, o shopping. Fiquei feliz porque estava com minha família. Até encontrei alguns velhos amigos."

Os shoppings, assim como os carros novos que substituíram os velhos tokunbos (carros usados) nas estradas nigerianas, fornecem uma confirmação visível de que, apesar dos muitos problemas do país, a vida ficou melhor para muitos nos últimos anos, em termos materiais. Além das lojas, os shoppings têm trazido atividades de lazer, como ir ao cinema e jantar nas praças de alimentação.

"Essas são coisas que estamos acostumados a ver fora da Nigéria", disse Monday, 28, operador de turbina de gás, que experimentou pela primeira vez a cultura do shopping quando visitou uma tia que mora na Escócia, quando tinha 20 e poucos anos. Agora, um shopping deve abrir em sua cidade natal, Uyo, no fim deste ano. "Vou frequentar bastante", disse ele.

Uma das principais cidades da região produtora de petróleo da Nigéria, Warri cresceu rapidamente nos últimos anos, assim como muitas outras cidades de médio porte do país. A periferia está cheia de novos conjuntos habitacionais.

A população da Nigéria, que está crescendo e se urbanizando a uma das taxas mais rápidas do mundo, deve aumentar de 180 milhões para 400 milhões em 2050, de acordo com projeções da  ONU (Organização das Nações Unidas). Isso deixaria a Nigéria atrás apenas da Índia e da China.

O tamanho da classe média da Nigéria, bem como a da África, varia de acordo com as definições utilizadas. Mas muitos especialistas concordam que o tamanho da Nigéria e o crescimento populacional levarão a uma expansão da classe média na África.

O Standard Bank, banco sul-africano com filiais em todo o continente, estima que a classe média da Nigéria cresceu 600% entre 2000 e 2014. Enquanto hoje 4,1 milhões de famílias nigerianas são consideradas de classe média, ou 11% da população total, outras 7,6 milhões de famílias entrarão nessa categoria em 2030, de acordo com projeções do banco.

A Resilient Africa, um empreendimento que inclui a Shoprite, maior varejista de alimentos do continente, construiu o shopping em Warri. Ela está trabalhando em outros cinco shoppings em outras cidades e buscando outros quatro locais, disse Eddie McDonald, que dirige as operações nigerianas da Resilient.

"O comércio varejista na Nigéria ainda está na infância, mas crescendo", disse ele.

As lojas informais, administradas individualmente, ainda estão prosperando. Ambulantes vendem alimentos, roupas e eletrodomésticos nas calçadas, ou onde quer que possam encontrar um público fiel, como nos engarrafamentos épicos da Nigéria, conhecidos como "go-slows" ["vai-devagar"]. Os vendedores ambulantes costumam concorrer diretamente com os shoppings, vendendo seus produtos na frente dos estacionamentos próximos de varejistas como a Game, uma loja de descontos de propriedade do Wal-Mart.

"O setor informal da economia nigeriana é muito forte", diz Chimaraoke Izugbara, que pesquisa a Nigéria no Centro de Pesquisa da População Africana e Saúde em Nairóbi, no Quênia. "Mesmo com esses grandes centros comerciais e a complicada economia do Wal-Mart que chegou à Nigéria, você vê que algumas pessoas da classe alta ainda vão ao mercado e compram peixe da senhora que vende na rua."

Aqui em Warri, as pessoas costumam comprar roupas nas centenas de lojas pequenas do Mercado Igbo, batizado em homenagem ao grupo étnico que domina o negócio. Uma vez por ano, os donos das lojas viajam para o sul da China, onde, com a ajuda de intermediárias nigerianas que moram lá, compram produtos e os enviam para seu país.

Ebere Chukwu, 38, dono de uma loja desde 1999, disse que tinha ido ao Delta Mall com a família só "para alimentar os olhos".

"Aquele lugar parece o exterior, parece os Estados Unidos", disse ele.

Mas Chukwu está confiante de que os clientes de longa data não trocarão o Mercado Igbo pelo shopping. Os preços do mercado são mais baratos.

Esther Ogbolu, que estava comprando sapatos no Mercado Igbo, disse que tinha achado os preços do shopping inacessíveis, embora tenha elogiado o ar condicionado, sorrindo ao se lembrar.

Mas para outros empresários, como Matthew Asegiemhe, o futuro está no shopping. Desde que abriu a loja de roupas Button Up na cidade, há cinco anos, ele viu as vendas subirem de 15% a 20% a cada ano, e decidiu abrir uma filial no shopping.

"Os clientes da classe média estão aumentando --esse é o motivo", disse Asegiemhe.

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Tradutor: Eloise De Vylder

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