Autoridades dos EUA poderão sugerir que grávidas não viajem para o Brasil

Donald G. Mcneil Jr.

  • Moacyr Lopes Júnior/Folhapress

    O mosquito Aedes Aegypti é transmissor do zika

    O mosquito Aedes Aegypti é transmissor do zika

Autoridades federais de saúde dos Estados Unidos estão discutindo se devem advertir as mulheres grávidas a não viajar para o Brasil e outros países latino-americanos e do Caribe onde mosquitos estão espalhando o vírus zika, que foi relacionado a danos cerebrais em bebês recém-nascidos.

As autoridades dizem que poderá ser a primeira vez que o CDC (sigla em inglês para Centros de Controle e Prevenção de Doenças) aconselha mulheres grávidas a evitarem uma determinada região durante um surto.

Alguns especialistas em doenças infecciosas dizem que essa advertência é necessária, mesmo que possa ter um efeito devastador sobre as viagens e o turismo. Um porta-voz do CDC disse que o órgão pretendia fazer um anúncio definitivo ainda nesta semana.

"Não podemos tomar essas decisões em um vácuo", disse o porta-voz, Thomas Skinner. "Estamos consultando outros especialistas externos."

O vírus apareceu pela primeira vez no continente sul-americano em maio. Embora ele costume causar apenas coceiras leves e febre, as mulheres que o tiveram, particularmente no primeiro trimestre de gravidez, parecem ter muito maior probabilidade de ter filhos com cabeças pequenas e cérebros danificados, o que é chamado de microcefalia.

O doutor Lyle R. Petersen, diretor de doenças vetoriais no CDC, disse na quarta-feira (13) que a agência encontrou vírus zika no tecido de quatro bebês brasileiros, dos quais dois tinham microcefalia e morreram pouco depois do parto e outros dois morreram no útero.

A microcefalia tem várias outras causas, incluindo defeitos genéticos, rubéola ou citomegalovírus na mãe durante a gravidez. Amostras dos fetos "pareciam o que você veria se a causa fosse uma infecção", disse Petersen.

Cientistas brasileiros já haviam encontrado o vírus em tecido ou líquido amniótico de três fetos malformados. "Isto certamente oferece evidências muito mais fortes da ligação", afirmou Petersen.

O aviso contra viagens obviamente se aplicaria ao Brasil, que está lutando com um surto alarmante de recém-nascidos com microcefalia, mas também poderá em breve afetar grande parte da América Latina e do Caribe.

A transmissão local do vírus zika foi encontrada em 14 países e territórios do hemisfério ocidental: Brasil, Colômbia, El Salvador, Guiana Francesa, Guatemala, Haiti, Honduras, Martinica, México, Panamá, Porto Rico, Paraguai, Suriname e Venezuela.

Alguns casos isolados foram encontrados nos EUA, inclusive um no Texas na semana passada. No entanto, eram todos em pessoas que acabavam de voltar do exterior. Não foi encontrada transmissão entre os 50 Estados. Só um caso foi confirmado em Porto Rico, mas como os testes são raros e muitos casos envolvem sintomas brandos ou nenhum, os médicos supõem que haja muitos mais lá.

Alguns importantes virologistas dos EUA já estão advertindo as mulheres que estão grávidas ou tentando engravidar para que evitem essas áreas.

"Se minha filha estivesse planejando engravidar, eu a aconselharia a não ir ao Caribe", disse o doutor Peter J. Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical no Baylor College of Medicine.

"Isto vai dizimar o turismo no Caribe", acrescentou ele. "Mas não podemos esperar para agir daqui a nove meses, quando defeitos congênitos aparecerem nas salas de parto."

Relações públicas de três companhias de cruzeiros --Royal Caribbean, Carnival e Princess-- disseram esta semana que nunca ouviram falar no vírus zika e encaminharam um repórter ao seu grupo setorial, a Associação Internacional de Linhas de Cruzeiro.

Uma porta-voz da associação, Elinore Boeke, disse que as viajantes devem verificar com as autoridades de saúde pública os destinos que pretendem visitar, e citou as atuais advertências do CDC, que apenas sugere que todos os visitantes evitem picadas de mosquitos usando repelentes e roupas compridas.

Os navios de cruzeiro publicam diariamente folhetos sobre saúde e segurança e instruem os passageiros sobre como evitar picadas de insetos, disse Boeke.

Os relatos do aumento de casos de microcefalia já deixaram algumas viajantes nervosas. Na terça-feira (12), a advogada Ashley D'Amato Staller, 33, de Haddonfield, Nova Jersey, que está grávida do quarto filho, desistiu de uma viagem planejada a Porto Rico com 17 membros de sua família, depois que leu reportagens sobre a zika.

"Uma parte de mim diz que você tem de viver sua vida, então relaxe", disse ela. "Eu poderia não viajar e ser atropelada por um carro ou pegar a doença do Nilo, ou alguém poderia espirrar sobre mim. Por outro lado, é o meu bebê, e nada é mais importante."

As autoridades brasileiras disseram na terça-feira que estão investigando mais de 3.500 casos de microcefalia em recém-nascidos. Até o ano passado, o país tinha normalmente cerca de 150 casos da doença por ano.

Não há vacina contra zika, mas o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA tem trabalhado em um deles no último mês, segundo o doutor Anthony S. Fauci, diretor do instituto.

O doutor Stanley Plotkin, um importante inventor de vacinas, disse que uma vacina contra o zika "não deve ser muito difícil de fazer", porque a doença está estreitamente relacionada à febre amarela e à encefalite japonesa, para as quais existem vacinas eficazes.

Epidemiologistas estimam que mais de 1,5 milhão de brasileiros foram infectados. O alarme sobre microcefalia foi disparado em outubro, quando médicos do Estado de Pernambuco (nordeste do Brasil) notaram números incomuns de bebês com cabeças menores que o padrão.

Apesar de o Brasil ter aconselhado fortemente as mulheres grávidas a evitarem picadas de mosquito, uma importante autoridade de saúde foi além duas semanas atrás, sugerindo que as mulheres na região mais atingida adiem a gravidez.

"Se ela puder, deve esperar", disse Cláudio Maierovitch, o chefe de vigilância de doenças infecciosas do ministério.

Na terça-feira, o ministro da Saúde da República Dominicana teria avisado as mulheres de lá para não terem filhos. Mais tarde, outra autoridade do ministério esclareceu a declaração: se a transmissão local do zika fosse detectada no país, disse ele, o ministério daria esse conselho.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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