Análise: Desigualdades políticas e econômicas dos EUA se retroalimentam

Nicholas Kristof

  • Eduardo Munoz/ Reuters

Donald Trump e Bernie Sanders não concordam em muitos assuntos. Nem tampouco o movimento Black Lives Matter, o Ocuppy Wall Street e os fazendeiros armados que tomaram terras públicas no Oregon. Mas nas campanhas presidenciais e no ativismo social em todo seu espectro, há um traço comum: o das pessoas revoltadas com o fato deste país não estar mais funcionando para muitos cidadãos comuns. 

E eles têm razão: o sistema muitas vezes é fundamentalmente injusto, e as vozes do povo frequentemente não são ouvidas. 

É fácil (e apropriado!) revirar os olhos para Trump, pois um magnata demagógico não é o líder natural de uma revolução dos desprivilegiados. Mas a frustração populista é compreensível. Um dos mais notáveis ​​estudos de ciência política dos últimos anos inverteu tudo que havia de cor de rosa nas aulas de educação cívica. 

Martin Gilens da Universidade de Princeton e Benjamin I. Page, da Universidade Northwestern, descobriram que, na formulação de políticas, a opinião dos cidadãos comuns essencialmente não importa. Eles examinaram 1.779 questões políticas e descobriram que as atitudes de pessoas ricas e de grupos empresariais importavam muito para o resultado final --mas que as preferências dos cidadãos médios eram quase irrelevantes. 

"Segundo os nossos resultados, a maioria não governa nos Estados Unidos. A maioria do público americano realmente tem pouca influência sobre as políticas que nosso governo adota", concluíram. 

Uma razão é que nosso sistema político cada vez mais é impulsionado pelo dinheiro: os magnatas não conseguem de fato comprar os políticos, mas conseguem alugá-los. As autoridades eleitas são hamsters em uma roda, sempre levantando dinheiro desesperadamente para a próxima eleição. E os doadores que mais importam são um pequeno grupo; apenas 158 famílias e as empresas que controlam doaram quase metade do dinheiro para as fases iniciais da campanha presidencial. 

E é por isso que as leis tributárias estão cheias de lacunas que beneficiam os ricos. É por isso que você recebe depreciação acelerada pela compra de um avião particular. É por isso que os 400 contribuintes norte-americanos mais ricos (todos com renda anual de mais de US$ 100 milhões, ou cerca de R$ 400 milhões) acabaram pagando uma taxa de imposto federal média menor que 23% em 2013, e menor que 17% no ano anterior. 

Por outro lado, é por isso que as crianças de maioria negra em Flint, Michigan, foram envenenadas pelo chumbo que sai da torneira: como observou Hillary Clinton no debate democrático de domingo, isso não teria acontecido em um subúrbio afluente branco.

A intoxicação por chumbo prejudica permanentemente o desenvolvimento do cérebro, mas não está confinada a Flint. Cerca de 535.000 crianças em todo o país sofrem de envenenamento por chumbo, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças. 

Essas crianças nunca terão uma chance -não apenas por causa do chumbo, mas também porque não importam para o sistema político dos EUA. Os políticos americanos estão muito ocupados caçando doadores de campanha para ajudá-las. 

Existem soluções e falarei mais sobre isso em um momento. Contudo, um ponto de partida é reconhecer que esse estado de espírito público de impotência e injustiça está enraizado em algo real.

Os salários médios estagnaram ou caíram. As taxas de mortalidade de adultos jovens brancos estão subindo, em parte porque muitos estão se medicando com analgésicos ou heroína. Os negros foram protegidos deste fenômeno por outra injustiça: estudos indicam que os médicos discriminam pacientes negros e são menos propensos a receitar analgésicos. 

As desigualdades políticas e econômicas dos EUA se retroalimentam. O 1% mais rico dos EUA hoje possui substancialmente mais riquezas do que os 90% da base. 

As soluções são complexas, imperfeitas e incertas, entretanto, o maior problema não é a falta de ferramentas e sim a falta de vontade. Um passo fundamental para equalizar as oportunidades seria investir na educação para crianças carentes como a principal questão de direitos civis do século 21. 

"Eu acho que qualquer candidato sério visando reduzir a desigualdade teria que adotar um ligeiro aumento no imposto sobre os ricos para financiar maiores gastos com escolas", diz Nicholas Bloom, especialista em desigualdade de Stanford. Eu também acrescentaria que os investimentos em educação devem começar cedo, com creches de alta qualidade para crianças em risco. 

Também precisamos de soluções políticas para reparar a nossa democracia, para que os cidadãos comuns também contem, juntamente com os ricos. "Não há nenhuma mágica para consertar as coisas, mas uma reforma significativa do financiamento de campanha deve estar no centro da agenda", diz Gilens. "Estados e municípios estão liderando o caminho. Há algum tempo que o Arizona, Maine e Connecticut têm 'eleições limpas', com sistemas estaduais de financiamento público e variados graus de sucesso." 

Em um passo em direção à transparência, o presidente Barack Obama poderia exigir que as empreiteiras divulgassem suas contribuições políticas. 

Neste momento, a revolta nas bases norte-americanas muitas vezes está sendo canalizada de forma a separar e destruir: contra os imigrantes, por exemplo, ou contra muçulmanos. O desafio será o de usar a frustração populista em uma política pós-eleitoral construtiva. Isso já foi feito antes. 

"Na primeira Era Dourada, que também foi afligida por disfunções do governo, corrupção política e enorme desigualdade econômica, foram feitas reformas", nota Gilens. "Talvez ocorram novamente." Para o bem do nosso país, vamos trabalhar pelo bis. 

Tradutor: Deborah Weinberg

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