Massacre pré-histórico sugere existência de guerra entre caçadores-coletores

James Gorman

  • Marta Mirazon Lahr/Cambridge University/Reuters

O local era uma lagoa à margem do Lago Turkana, no Quênia. A época, cerca de 10 mil anos atrás. Um grupo de caçadores-coletores atacou e matou outro grupo, deixando os mortos com crânios esmagados, incrustados de pontas de flechas e lanças, e outros ferimentos devastadores.

Os mortos, disseram os cientistas que relataram a descoberta na quarta-feira (20) na revista "Nature", parecem ter sido espalhados sem uma ordem aparente, e mais tarde foram cobertos e preservados pelo sedimento do lago. Dos 12 esqueletos relativamente completos, dez mostraram sinais inequívocos de morte violenta, disseram os cientistas. Os restos parciais de pelo menos 15 outras pessoas foram encontrados no local, e acredita-se que elas morreram no mesmo ataque.

Os ossos do lago, no norte do Quênia, contam uma história de ferocidade. Um homem foi atingido duas vezes na cabeça por flechas ou lanças pequenas, e no joelho por uma clava. Uma mulher grávida, com um feto de seis a nove meses, foi morta por um golpe na cabeça e o esqueleto fetal ficou preservado em seu abdômen. A posição de suas mãos e pés sugerem que ela foi amarrada antes de ser morta.

A violência sempre fez parte do comportamento humano, mas as origens da guerra são muito debatidas. Alguns especialistas acreditam que ela está profundamente enraizada na evolução, citando confrontos violentos entre grupos de chimpanzés como pistas de nossa tendência ancestral. Outros enfatizam a influência das sociedades humanas hierárquicas e complexas, e de excedentes agrícolas que podiam ser saqueados.

Ninguém está sugerindo que uma única descoberta, num lugar chamado Nataruk, tenha colocado um ponto final nesta discussão, mas ela pode ser a primeira evidência de um massacre numa sociedade coletora. Uma descoberta anterior no Sudão revelou corpos enterrados de vítimas de violência entre grupos, mas talvez aquela sociedade fosse mais sedentária.

Marta Mirazon Lahr e Robert A. Foley, da Universidade de Cambridge e do Instituto Turkana Basin em Nairobi, Quênia, e uma equipe de outros cientistas, concluíram na "Nature" que a descoberta representa a existência de guerra entre os caçadores-coletores pré-históricos.

Luke A. Glowacki, pesquisador de pós-doutorado em biologia evolutiva humana na Universidade de Harvard, que não esteve envolvido na descoberta, concordou. "Não há nenhum outro achado como este", disse ele.

Com Richard Wrangham, professor de antropologia biológica em Harvard, Glowacki rastreou as raízes evolutivas da guerra humana ao comportamento dos chimpanzés. E, segundo ele, essa descoberta "mostra que a guerra ocorreu antes da invenção da agricultura".

Douglas P. Fry, professor de antropologia na Universidade do Alabama, que não esteve envolvido na pesquisa, concordou que as evidências parecem apontar para um massacre de um grupo por outro, mas disse que "com base nas evidências dos esqueletos de um local em uma área, pode ser precipitado chamar isso de 'guerra'."

Fry disse num e-mail que os era improvável que os caçadores-coletores nômades praticassem a guerra, que tende a surgir em sociedades mais complexas, e que esses coletores talvez já estivessem na transição para uma vida mais sedentária.

Ele disse que gostaria de ver "fortificações, vilarejos construídos em lugares protegidos, armas especializadas de guerra, representações artísticas ou simbólicas de guerra", e mais de um sítio arqueológico antes de chamar isso de guerra.

A primeira pessoa a localizar os ossos, alguns dos quais estavam na superfície, disse Lahr, foi Pedro Ebeya, um dos caçadores de fósseis que trabalham para o Instituto Turkana Basin.

Desde 2009, pesquisadores vêm explorando uma área extensa da região, que é rica em fósseis, restos de ferramentas como arpões, e algumas evidências de utensílios de barro. Ebeya estava andando numa área a 30 quilômetros da atual margem do Lago Turkana, onde teria sido a margem há dez mil anos quando o lago era maior. Quando retornou de sua caminhada, disse Lahr, falou para ela: "tenho ossos para você".

No local, ela viu ossos humanos quebrados na superfície, misturados ao cascalho. "Então vi a parte de trás de um crânio", que apresentava ferimentos graves. Escavações posteriores revelaram uma morte violenta após a outra. Os ferimentos não mostravam sinais de terem sido curados, o que significa que eles ocorreram no momento da morte. E a posição dos corpos mostrou que não houve uma tentativa de enterrá-los.

Os ferimentos, segundo ela, mostram que dois tamanhos de clavas foram usados, além de flechas. Cortes profundos na testa, maxilares e mãos significam que um terceiro tipo de arma, com lâmina de pedra, deve ter sido usado, disse ela.

Os restos de rochas eram de obsidiana, que é rara na região, e, segundo ela, "sugerem que os agressores estavam vindo de outro lugar".

Os autores do artigo da "Nature" dizem que o ataque pode ter sido uma pilhagem de recursos, ou pode ter sido um exemplo de violência organizada que era comum entre os antigos caçadores-coletores, mas raramente preservada.  

Tradutor: Eloise De Vylder

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