Na Líbia, EUA buscam aliados pouco confiáveis para combater o Estado Islâmico

Maggie Haberman e Thomas Kaplan

Em Trípoli (Líbia)

As forças de Operações Especiais dos EUA esperavam ser bem recebidas quando aterrissaram na base aérea líbia ocupada por uma milícia aliada. Em vez disso, homens armados de outra milícia presente na base ameaçaram prender os soldados, obrigando os norte-americanos a se retirarem.

O episódio de 14 de dezembro evidenciou as dificuldades enfrentadas pelo governo Obama em sua busca por grupos armados líbios que possam atuar como força terrestre contra o braço cada vez mais forte do Estado Islâmico no país.

Autoridades norte-americanas e líbias disseram que a retirada repentina do grupo de 20 soldados norte-americanos da base aérea de Al Watiya no mês passado foi resultado da falta de comunicação entre as milícias no local. Mas o episódio deixou clara a falta de uma autoridade central na Líbia, país que não tem um governo único no poder e cujo Exército mal consegue controlar os grupos que teoricamente estão sob seu comando.

Oficiais de contraterrorismo veem a facção líbia como o braço mais perigoso do Estado Islâmico, uma facção que está expandindo seu território e aumentando o número de ataques fatais, vários este mês. Mas para impedir seu avanço, os Estados Unidos e seus aliados europeus foram obrigados a buscar aliados pouco confiáveis na colcha de retalhos de milícias da Líbia, divididas por regiões e tribos, mal organizadas e irresponsáveis.

A busca de aliados traz alguns riscos específicos para o governo Obama, que já dependeu das milícias locais para ajudar a proteger o complexo diplomático dos EUA na cidade de Benghazi, ao norte. Elas fracassaram em oferecer proteção quando o complexo foi tomado por militantes em setembro de 2012, num ataque que levou à morte do embaixador dos EUA J. Christopher Stevens e de três outros norte-americanos.

Os analistas também alertam que qualquer iniciativa estrangeira para fortalecer as forças locais alimenta novas rivalidades, enquanto a ONU está tentando reunir as facções em conflito na Líbia depois dos anos de guerra civil que se seguiram à derrubada de Muammar Gaddafi em 2011.

A confusão na base, a cerca de 110 km de Trípoli, aconteceu num momento de alerta crescente em Washington e nas capitais europeias quanto à ascensão do braço do Estado Islâmico na Líbia. Agências de espionagem norte-americanas dizem que, nos últimos meses, o Estado Islâmico redirecionou para a Líbia centenas de combatentes estrangeiros originalmente destinados à Síria.

Em novembro, um ataque aéreo norte-americano matou o líder sênior do Estado Islâmico na Líbia, Abu Nabil, um iraquiano que liderou as operações da Al Qaeda no oeste do Iraque de 2004 a 2010, dizem autoridades dos EUA.

"O braço do EI na Líbia está se aproveitando da deterioração das condições de segurança na Líbia e se colocando na posição de coordenar os esforços do EI no norte da África", disse Nicholas J. Rasmussen, diretor do Centro Nacional Contraterrorismo, em uma entrevista à rede C-SPAN no mês passado.

Os Estados Unidos estão sob pressão depois de uma série de iniciativas frustradas para treinar e equipar os rebeldes na região, especialmente na Síria. O Pentágono abandonou no ano passado um plano para fornecer armas e treinar grupos recém-formados de combatentes de oposição, e preferiu oferecer armas e ajudar rebeldes que já lutavam contra o Estado Islâmico.

Ao longo do ano passado, equipes das forças de Operações Especiais do Comando Africano do Exército dos EUA viajaram para a Líbia com vários objetivos: reunir informações sobre a situação no local; avaliar a capacidade de combate de cada facção e suas necessidades específicas; determinar a capacidade de trabalho com os EUA e outras tropas aliadas, de acordo com um militar de alto escalão que falou sob condição de anonimato para discutir detalhes das missões.

O tenente-comandante Anthony Falvo, porta-voz do Comando Africano, disse que a missão dos soldados dos EUA em Watiya era "estreitar relações e melhorar a comunicação com seus colegas do Exército Nacional da Líbia".

Em resposta a perguntas sobre o episódio de dezembro, John Kirby, porta-voz do Departamento de Estado, enfatizou as preocupações crescentes do governo Obama com o braço líbio do Estado Islâmico e disse que o envio de tropas norte-americanas em Watiya "não era um endosso a nenhum grupo específico". Ele acrescentou que no ano passado os soldados norte-americanos "se engajaram ativamente com um grupo amplo de líbios" para ajudar a fomentar um acordo político no país.

Frederic Wehrey, especialista em Líbia no Carnegie Endowment for International Peace, que frequentemente visita o país, disse que o impasse na base aérea de Watiya evidencia as dificuldades específicas de encontrar aliados na Líbia --não só de conseguir "parceiros confiáveis no local, mas mais importante, de lidar com as rivalidades entre facções."

Há várias facções armadas na Líbia além do Estado Islâmico, mas todas elas são parceiras estranhas para o Ocidente, na melhor das hipóteses. O "Exército Nacional Líbio" citado por autoridades norte-americanas é apenas um dos grupos que disputam o poder. Um líder militar, o general Khalifa Hifter, deu esse nome às suas forças e só depois recebeu a autorização numa reunião do parlamento eleito em sua região.

Hifter às vezes parece querer governar a Líbia e ser seu novo ditador, embora seja incapaz de controlar totalmente até mesmo Benghazi, a poucos quilômetros de seu quartel-general.

Suas forças incluem unidades regulares do Exército, mas ele vem dependendo cada vez mais de milícias armadas fora de seu controle. Autoridades do Exército dos EUA já expressaram profunda desconfiança em relação a Hifter e seus aliados.

Outra aliança fraca de Hifter é um grupo localizado na cidade de Zintan, a oeste, que controla a base aérea de Watiya. As forças de Zintan já tomaram o controle do Aeroporto Internacional de Trípoli no passado e tentaram intimidar o parlamento.

Um terceiro grupo --contrário tanto a Hifter quanto aos zintanis-- localiza-se na cidade litorânea de Misurata, a poucas horas de carro da fortaleza do Estado Islâmico em Sirte. Este grupo buscou repetidamente dominar as frágeis instituições democráticas da Líbia antes do colapso total do processo político em 2014, e mais recentemente, algumas das forças de Misurata forneceram dinheiro e armas para uma coalizão anti-Hifter em Benghazi, que inclui combatentes do Estado Islâmico.

Autoridades líbias dizem que os Estados Unidos têm laços antigos com uma das milícias em Watiya, chamada de Batalhão 22 das Forças Especiais. Uma declaração divulgada pelo batalhão em 18 de dezembro disse que os Estados Unidos vêm treinando a unidade desde 2012.

O treinamento do batalhão acontecia antes em outra base, chamada de Campo 27, a oeste de Trípoli, mas foi interrompido em 2013 quando outra milícia invadiu o campo, de acordo com o coronel Idris Mohamed Madi, comandante da sala de operações em Al Watiya. O treinamento foi retomado em Watiya há cerca de três meses, disse ele.

Quando os norte-americanos chegaram no mês passado, outra milícia que estava em Watiya, aparentemente sem saber da visita, "hostilizou" e tentou prender os norte-americanos, de acordo com o Batalhão 22.

Madi disse que combatentes na base não tinham recebido "correspondência oficial" sobre a visita de uma delegação estrangeira.

Tradutor: Eloise De Vylder

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