Sanders interrompe os grandes comícios e põe o pé na estrada em Iowa

Jason Horowitz

Em Fort Dodge (Iowa)

  • Jim Young/Reuters

Depois de encher estádios nas duas costas dos EUA, falar com eleitores através das mídias sociais e enfrentar Hillary Clinton em debates televisivos nacionais, o senador Bernie Sanders, de Vermont começou à moda antiga uma etapa fundamental de sua campanha para a nomeação presidencial democrata, viajando pelas planícies brancas e geladas de Iowa em um ônibus de campanha.

"Temos um novo ônibus", disse Sanders, referindo-se ao veículo que traz o slogan "Um Futuro Para Acreditar", lembrando o de Obama, escrito na lateral. Dizendo que usaria o ônibus para encontrar eleitores por todo o Estado nas duas semanas antes da convenção, Sanders acrescentou: "é muito diferente dos outros ônibus nos quais já viajei, posso dizer isso. Dá para andar lá dentro, tem poltronas confortáveis."

O ônibus de luxo que o levou para Carroll, Underswood e Sioux City não é a única coisa diferente na campanha de Sanders. Depois de encurtar a distância entre ele e Hillary nas pesquisas de Iowa e assumir a liderança em New Hampshire, o político anti-establishment, que se autodenomina social-democrata e que por meses se recusou a contratar um especialista em pesquisas de opinião para sua equipe de campanha, falou sobre os números positivos com o mesmo prazer que Donald Trump.

E apesar de prometer não fazer campanha negativa contra seus colegas democratas, ele respondeu aos ataques de Hillary contra o seu passado saboreando a aparente queda da candidata ("a candidata inevitável", disse ele, "agora não é tão inevitável assim") e questionando explicitamente a visão dela sobre a política externa ("experiência não significa exatamente ter um bom julgamento"). Ele também citou a ligação de Hillary com o Goldman Sachs, que segundo ele representa o efeito corrosivo que o dinheiro tem sobre a política dos EUA.

Ao defender o argumento de que ele está em melhor posição para derrotar Trump se este for nomeado pelos republicanos, Sanders, 74, não soou muito diferente de Trump, o magnata do setor imobiliário e astro de reality shows obcecado com as pesquisas.

"Se você olhar para algumas pesquisas que estão saindo, acho que foi numa pesquisa de ontem ou de anteontem, nós estamos derrotando Donald Trump numa pesquisa nacional por 15 pontos", disse Sanders no Opera House do Fort Museum em Fort Dodge. Hillary, por outro lado, derrota Trump por dez pontos, disse ele.

"Então estou feliz que ela o derrote por dez pontos, isso é bom", disse ele. "É melhor ainda eu derrotá-lo por 15. Outra pesquisa me coloca na frente dele por 13 pontos; ela por sete. E em Iowa e New Hampshire, esses Estados mais disputados, nós estamos bem melhor contra os republicanos do que ela."

No restaurante e vinhedo Santa Maria, em Carroll, na parte oeste do Estado, Sanders acrescentou, sem concluir: "não sou muito chegado às pesquisas e essas coisas, mas as últimas duas pesquisas nacionais que saíram..." No evento, onde recebeu uma resposta calorosa num salão cheio de gente, ele provocou risos quando ridicularizou Hillary de forma velada.

"E, a propósito, sem citar nenhum nome, o Goldman Sachs também oferece pagamentos muito, muito generosos para palestras de certos candidatos; muito generosos", disse ele, provocando risos. "Sei que alguns de meus oponentes são muito bons palestrantes, oradores muito bons, pessoas muito inteligentes --mas você precisa ser muito, muito bom para receber US$ 225 mil por palestra. É tudo o que tenho a dizer."

"Achei que era US$ 600 mil", disse um homem na plateia.

"Isso é para três palestras", disse Sanders com um sorriso.

Mas, acima de tudo, Sanders, que fez uma referência amargurada ao fato de a mídia tê-lo retratado como um candidato de protesto, nanico e ranzinza, parecia satisfeito com o atual estado das coisas.

"Estou contente", disse ele à plateia em Carroll. "O que mais posso dizer?"

Sanders começou o dia em Fort Dodge numa sala fria, lotada de gente. Embora a plateia tivesse gente de todas as idades, no palco atrás de Sanders, a maioria das 18 pessoas sentadas sob o cartaz que dizia "Um Futuro Para Acreditar" parecia ter 20 e poucos anos ou até menos.

Depois de fazer o primeiro de quatro discursos do dia, ressaltando os males da sociedade e defendendo a universidade gratuita, a saúde universal gratuita e um sistema justo de financiamento de campanhas, uma mulher perguntou como ele faria suas propostas serem aprovadas por um Congresso tomado pelos republicanos.

Sanders deu sua resposta padrão, de que uma revolução política levaria a maior parte dos progressistas para o governo junto com ele.

"Eu gostaria que fosse assim", disse Jane Nettleton, 72, eleitora de Hillary que fez a pergunta. "O que ele está fazendo é muito idealista e não muito realista." (O marido dela, Don, era aparentemente mais idealista. "Vou fazer campanha para Bernie", disse ele.)

Na vinícola em Carroll, enquanto os netos de sua mulher cochilavam no ônibus parado do lado de fora, Sanders era apresentado por uma organizadora voluntária que recitou "The Road Not Taken" ("A Estrada Menos Percorrida", de Robert Frost). "A estrada menos percorrida leva até a Casa Branca", ela acrescentou). Quando Sanders falou, enfatizou a seguridade social e remédios a preços baixos, numa sala com uma grande porcentagem de idosos.

Rick Pawletzki, 58, proprietário de imóveis de Carroll que disse que vem fazendo campanha para os democratas desde John Kerry, falou que ainda precisava ver uma multidão como aquela em sua cidade natal. Antes do evento, ele disse que talvez Hillary tivesse mais chance contra o nomeado republicano, e que preferia a abordagem mais gradual dela em relação à saúde, melhorando a Lei da Saúde Acessível. Mas depois do discurso de Sanders, durante o qual este elogiou o presidente Barack Obama, Pawletzi anunciou que estava tendendo a votar em Sanders.

"Tenho convicção de que alguma coisa pode ser feita se ele for eleito", disse ele.

Sanders já está com vistas à eleição geral. Em uma coletiva de imprensa depois de um evento em Underwood, ele respondeu a uma pergunta sobre o apoio de Sarah Palin a Trump, dizendo: "devo dizer que, num nível bem pessoal, eu ficaria muito satisfeito de concorrer com Donald Trump."

Expressando sua aversão pelos comentários de Trump sobre latinos, muçulmanos e sobre a cidadania de Obama, ele acrescentou: "acho que nós o derrotaríamos, e acho que o derrotaríamos com uma boa margem."
 

 

Tradutor: Eloise De Vylder

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