Décadas de independência da China na prática aguçaram o apetite de Taiwan

Nick Frisch

Em Taipei (Taiwan)

  • Pichi Chuang/Reuters

    Tsai Ing-wen, candidata presidencial do Partido Democrático Progressista

    Tsai Ing-wen, candidata presidencial do Partido Democrático Progressista

Numa noite de terça-feira chuviscante, no início deste mês, Chen Li-hung, um célebre âncora de telejornal, subiu no palco em Changhua, no centro de Taiwan, e começou um discurso apaixonado, inflamando os apoiadores do Partido Democrático Progressista reunidos ali.

"Meus pais são da China continental", disse ele à multidão. "No entanto, eu nasci em Taiwan. Eu cresci em Taiwan. Então, por que os professores na escola ainda me dizem que eu sou chinês? Desde a minha juventude, eu sentia que não era chinês, eu sou taiwanês!" Ele atacou o atual presidente, Ma Ying-jeou. "Oito anos atrás, o presidente Ma conquistou uma vitória eleitoral muito boa, mas ele está nos aproximando cada vez mais da China, e por acaso Taiwan melhorou?"

Durante horas, palestrantes como Chen levantaram a multidão, entusiasmada. Em seguida, Tsai Ing-wen, candidata presidencial do partido, chegou para resfriar os ânimos.

Tsai, uma ex-professora de direito e negociadora comercial, deixou que seus delegados entusiasmassem a base eleitoral durante a campanha que terminou em vitória para ela e seu partido em 16 de janeiro. Ela sabia que, se os eleitores detectassem muito populismo, eles a atacariam. E ela percebeu que Pequim e Washington observavam de perto suas palavras.

A diferença nas apresentações de Chen e Tsai ajuda a explicar a vitória esmagadora do Partido Democrático Progressista há duas semanas contra o partido Kuomintang, de Ma, que perdeu a presidência e, pela primeira vez, o Parlamento. A disputa deixou claro porque, com esta eleição, a China perdeu Taiwan para sempre.

Quando o Kuomintang foi derrotado em uma guerra civil pelos comunistas de Mao em 1949, sua liderança se retirou para Taiwan com milhões de refugiados do continente, como os pais de Chen, estabelecendo um governo autoritário independente que deu lugar à democracia na década de 1990. Desde 1949, Pequim reivindica Taiwan como uma província rebelde que deve ser reunificada com o continente, de forma pacífica, se possível, mas pela força, se necessário. Os Estados Unidos garantem a segurança de Taiwan, mas tampouco querem ofender Pequim, e têm se mostrado antipáticos aos líderes taiwaneses que balançam as coisas. Os eleitores de Taiwan punem os candidatos que provocam desnecessariamente a China ou alienam Washington.

Pequim tem adotado uma estratégia de paciência e sedução econômica ao longo de décadas, esperando que Taiwan se reunisse pacificamente ao continente. E os taiwaneses querem ter laços estáveis e funcionais com a China. Pesquisas mostram que a maioria dos taiwaneses é a favor do status quo da independência de fato, sem uma declaração oficial que enfureceria Pequim e, possivelmente, provocaria uma invasão.

Mas à medida que o milagre econômico da China continental naufraga, muitos taiwaneses se perguntam se é sábio se agarrar ao mastro. Os taiwaneses temem que a aproximação de Ma com Pequim tenha sido exagerada, sem benefícios suficientes para os mais simples. Um projeto de lei de livre comércio que teria aberto setores estratégicos, tais como os meios de comunicação, à dominação da China continental está parado no Parlamento desde 2014 em meio a protestos estudantis, que ficaram conhecidos como o Movimento Girassol.

Enquanto isso, os taiwaneses veem um governo cada vez mais repressivo do outro lado do estreito, e não querem participar disso. A repressão do presidente Xi Jinping contra a dissidência e seus apelos nacionalistas à glória da cultura chinesa são lembranças desconfortáveis da própria experiência de Taiwan sob a lei marcial.

Mas foi o sentimento expresso por Chen durante o comício que sugere por que, a menos que Pequim recorra à força, o divórcio entre a China e Taiwan poderia ser permanente. As pesquisas mostram que a geração de moradores da ilha que se identificam como "chineses" está desaparecendo, e mais pessoas estão se identificando como "taiwaneses". Décadas de independência na prática aguçaram o apetite de Taiwan para a independência verdadeira. Pesquisas mostram que a maioria dos taiwaneses não estão dispostos a se unir nem mesmo uma China democrática.

Estes sentimentos vão se aprofundar à medida que a geração mais jovem de Taiwan encontrar sua voz política. A identidade nativa e o apego aos valores cívicos liberais são mais fortes entre a juventude cada vez mais assertiva, cujo Movimento Girassol gerou o Partido do Novo Poder, que em coalizão com o Partido Democrático Progressista de Tsai derrubou vários representantes do Kuomintang na eleição.

Ainda assim, embora os taiwaneses possam se identificar cada vez mais com a cultura local --e com o entusiasmo de alguém como Chen--, por enquanto eles preferem a persona pública mais comedida de Tsai. Uma tecnocrata racional, ela é diferente dos anciãos de seu partido, alguns dos quais iniciaram sua carreira política nas prisões do Kuomintang.

Embora os partidários de Tsai joguem a carta da identidade, sua campanha enfatizou a competência econômica e não prometeu nenhuma independência formal, uma posição destinada a evitar ofender Pequim e Washington. No entanto, a plataforma do partido de Tsai ainda defende a independência, e sua vitória vai lhe dar poder para consolidar a separação de Taiwan com ajustes sutis na política.

A mudança de política no Pacífico pode mudar o cálculo de Washington também. Desde o governo Nixon, os EUA têm priorizado uma relação de realpolitik com Pequim, acima de qualquer ligação com Taiwan. A postura atual dos EUA quanto às reivindicações da China sobre Taiwan é de aquiescência implícita. Mas a assertividade crescente da China em suas imediações gerou alarme entre os aliados norte-americanos em Tóquio, Seul e Manila, que agora estão observando como a China testa o compromisso de defesa dos EUA para com Taiwan.

Tsai não vai perder nenhuma chance de lembrar Washington da importância dessa aliança. Seu partido tem a intenção de utilizar sua maioria parlamentar para conduzir Taiwan à Parceria Transpacífico, um acordo que irá proteger a economia da ilha sem a China e vinculá-lo mais aos EUA e a seus aliados regionais.

Quando Chen terminou seu discurso inflamatório, o final da Quinta Sinfonia de Beethoven explodiu nos alto-falantes. "Protejam nosso estilo de vida, defendam o nosso caráter. Compareçam para votar!", implorou. "Vamos dar ao Partido Democrático Progressista um início poderoso para seu tempo no governo!"

Os eleitores de Taiwan fizeram exatamente isso, empurrando o sonho de reunificação de Pequim ainda mais longe do alcance.

*Nick Frisch é estudante de doutorado em Estudos Asiáticos na Universidade de Yale e membro residente da Escola de Direito de Yale
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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