Moradores da Flórida (EUA) querem manter o direito de dirigir na praia

Lizette Alvarez

Daytona Beach (Flórida, EUA)

  • Jacob Langston/The New York Times

    Ray Gramlich, defensor de que os moradores da Flórida (EUA) possam dirigir nas areias de Daytona Beach, toma sol perto de sua caminhonete na popular praia norte-americana

    Ray Gramlich, defensor de que os moradores da Flórida (EUA) possam dirigir nas areias de Daytona Beach, toma sol perto de sua caminhonete na popular praia norte-americana

Nos fins de semana ensolarados, quando as agendas lotadas cedem espaço para noções antigas de lazer, Greg Gimbert e seu filho de 9 anos entram num utilitário esportivo prateado com capota, um isopor, cadeiras e pranchas de bodycoard e dirigem até a praia ali perto, onde Gimbert estaciona na areia e monta acampamento.

É uma conveniência extraordinária, que os banhistas que trazem sua parafernália de outras partes do Estado mal podem imaginar, e uma parte da cultura da Flórida, uma espécie de farofa à beira-mar com carros.

"Temos o privilégio de um milionário, e o preço para entrar é um carro e o custo da gasolina local", disse Gimbert, 46, sobre a tradição de um século que convida os banhistas a dirigir e estacionar (e, de vez em quando, disputar uma corrida) na areia de Daytona Beach. "Mas agora sentimos que eles estão tirando a única coisa que nos traz aqui: o acesso a nossas praias."

Em um Estado onde as disputas por acesso público às praias não são incomuns, Daytona Beach, um lugar com um longo histórico de estacionamento na praia, está envolvida novamente numa batalha polarizada e polêmica sobre a possibilidade de restringir os carros em mais trechos da areia.

Desde os anos 1980, as leis locais reduziram gradativamente a área em que é permitido dirigir na praia: se antes os frequentadores podiam dirigir por qualquer trecho dos 75 quilômetros de areias duras das praias do condado de Volusia, hoje eles estão restritos a 27 quilômetros.

Com mais 3,2 quilômetros em risco agora, os moradores de classe média, irritados, querem estabelecer um limite. Eles levaram sua indignação ao tribunal, onde até agora não tiveram sucesso. Na visão deles, o condado está se vendendo para as empreiteiras endinheiradas, infringindo os direitos dos cidadãos de desfrutarem das terras públicas.

"É uma tradição", dise Jim Hoak, 78, um dono de restaurante aposentado, "e deveria caber ao público decidir".

Gimbert lidera um grupo chamado Let Volusia Vote PAC (Deixem Volusia Votar). No ano passado, ele recolheu assinaturas suficientes para apresentar uma proposta na votação que alteraria a lei do condado para exigir que os eleitores aprovem eventuais reduções das áreas abertas aos carros nas praias. Mas o condado de Volusia jogou duro e processou, argumentando que a petição era inconstitucional. O conselho prevaleceu, e um recurso foi apresentado.

Já considerada a praia mais famosa do mundo, Daytona ganhou o título em grande parte por causa da permissão de dirigir na praia, uma tradição que começou na era das charretes, passou pela corrida de carros na areia e mais tarde consagrou a praia como um lugar apenas para dirigir e estacionar. As corridas de stock car Nascar, que são realizadas no Autódromo Internacional de Daytona a poucos quilômetros dali, têm suas raízes nas corridas locais na praia.

"É uma das coisas que definem Daytona Beach", disse Paul Zimmerman, conselheiro escolar e surfista que sempre viveu em Daytona. Ele também é o presidente do Sons of the Beach (Filhos da Praia), um grupo que defende dirigir na praia e está processando o condado por causa de ordens novas e mais restritivas.

"É por isso que as pessoas vêm", disse Zimmerman.

Jacob Langston/The New York Times
Caminhonete trafega na praia de Daytona Beach, na Flórida (EUA)

A disputa mais recente começou no ano passado, quando o Conselho do Condado de Volusia buscou atrair empreendimentos hoteleiros para ajudar a revitalizar parte da orla antes celebrada e agora deteriorada de Daytona Beach. O conselho aprovou três portarias, muito esperadas pelos construtores, que tirariam os carros de trechos da praia. Duas delas tirariam os veículos de trás de terrenos específicos, onde planeja-se construir um Hard Rock Resort e onde um hotel Westin deve ser inaugurado em breve.

Uma terceira portaria pode vir a livrar a praia dos carros ao longo de um trecho de 3,2 quilômetros se as construtoras cumprirem com alguns requisitos. Em troca, as construtoras devem criar estacionamentos no terreno à beira-mar, numa tentativa de compensar a perda do estacionamento na praia.

Apontando para lojas vazias, hotéis velhos e para a Rua Principal, que serve principalmente para os motoqueiros que visitam as praias em massa duas vezes por ano, os que apoiam as portarias dizem que Daytona Beach está clamando por investimento. O último hotel foi construído há 20 anos, dizem eles, e um dos motivos é que as construtoras desistem por causa de todos os carros na praia.

Outras tentativas recentes de incentivar o desenvolvimento não conseguiram renovar Daytona, que ainda tem uma atmosfera vintage da Flórida surfista. Cidades de praia ao norte e ao sul estão indo bem, muito embora também permitam dirigir na praia. (Só um punhado de praias da Flórida agora permitem carros, muitas delas no condado de Volusia.)

"É difícil conseguir grandes investidores quando a área está se deteriorando", disse Peggy Farmer, que ajudou a criar as portarias. "A praia é linda. Mas do outro lado da rua, as lojas estão fechadas ou velhas, e as casas são alugadas. As pessoas não têm orgulho da propriedade."

Os hotéis, disse ela, podem contribuir para um "renascimento".

Dirigir na praia, embora seja popular entre os moradores locais e visitantes de Orlando, há muito vem sendo um tema de disputa. Os ambientalistas não gostam, dizendo que isso prejudica a vida vegetal e animal. Eles ameaçaram processar em prol das tartarugas marinhas, que fazem ninhos na areia, e o condado negociou um acordo. Os carros devem agora ficar longe das áreas de nidificação.

Outros veem a prática como um perigo desnecessário. A praia tem ficado mais cheia em alguns pontos, porque está mais estreita do que antes, e apenas 27 quilômetros estão abertos para os carros. Desde 2005, três pessoas foram mortas nas praias, entre elas duas crianças, e 67 ficaram feridas, de acordo com registros do condado de Volusia.

"É um grande empecilho para o turismo", disse um membro do conselho, Doug Daniels, advogado do setor imobiliário que quer proibir totalmente os carros na praia.

Daniels disse que a nostalgia local está alimentando a campanha para dirigir na praia. Mas as praias de Daytona mudaram, ele disse: elas são urbanas e lotadas, não são mais o paraíso deserto de antigamente.

"Dirigir em Daytona Beach é como dirigir num estacionamento lotado no shopping, não tem mais aquela sensação de liberdade", disse Daniels.

Ele acrescentou que ninguém no condado quer o acesso tão restrito pelos hotéis, ao estilo de Miami Beach, a ponto de os moradores locais terem dificuldades para chegar até a areia.

Muitos moradores culpam o condado por deixar a praia tão lotada por ter fechado o acesso a 50 quilômetros de praia. Para eles, dirigir na praia é quase um direito de nascença, e o condado vem lentamente restringindo o acesso.

Eles também não acreditam que o incentivo ajudará a reavivar o desenvolvimento. As construtoras locais têm preferido negociar suas terras para ter lucro a construir numa área que não parece um bairro quatro estrelas.

"Eles estão arriscando os direitos dos cidadãos num esquema de solução rápida", disse Zimmerman, cujo grupo entrou mais uma vez com um processo recentemente. "O objetivo final é privatizar esta praia. Eles vão dificultar o acesso à praia. Quanto mais difícil for chegar à praia, menos as pessoas vão se importar se tirarem esse direito delas."

Tradutor: Eloise De Vylder

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