Segundo líder chinês, jornalistas devem servir ao partido

Edward Wong

Em Pequim

  • Peter Nichols/Reuters

A mídia de notícias chinesa cobriu as mais recentes aparições públicas do presidente Xi Jinping com a adulação digna de um semideus.

Manchetes de primeira página por todo o país alardeavam as visitas de Xi às sedes das três principais organizações da mídia estatal e do Partido Comunista na última sexta-feira (19). Fotos mostravam jornalistas bajuladores aglomerados em torno de Xi, que se sentou à mesa do âncora na rede de televisão estatal. Um dos diretores escreveu ao presidente um poema de admiração.

A ampla cobertura refletia a política de mídia descarada e abrangente anunciada por Xi em sua turnê coreografada: a mídia de notícias chinesa existe para servir como ferramenta de propaganda para o Partido Comunista e deve jurar sua lealdade a Xi.

Apesar de o partido ter endurecido seu controle sobre a mídia desde que Xi se tornou seu líder no final de 2012, a nova política afasta qualquer dúvida de que na visão do presidente e chefe do partido, a mídia deve ser primeiro e acima de tudo a porta-voz do partido.

Xi deseja transmitir a mensagem do país doméstica e internacionalmente por todas as plataformas da mídia, incluindo a publicidade e o entretenimento, dizem estudiosos. Trata-se de uma mudança em comparação a seu antecessor, Hu Jintao, que destacava a necessidade da mídia estatal reagir mais rapidamente ao ambiente digital moderno e moldar ou canalizar a opinião pública.

"Toda mídia de notícias dirigida pelo partido deve trabalhar para falar em nome da vontade do partido e suas proposições, e proteger a autoridade e unidade do partido", Xi disse às autoridades e representantes da mídia reunidos, segundo a "Xinhua", a agência de notícias estatal.

Xi também deseja coibir a presença de empresas estrangeiras de mídia. Na semana passada, as agências de governo anunciaram uma regulamentação que impediria empresas estrangeiras de publicarem e distribuírem conteúdo online na China. Isso poderia afetar a Microsoft, Apple e Amazon, entre outros.

As aparições de Xi representaram outro grande esforço em sua campanha para construir um culto à personalidade que o associa ao bem-estar do partido e da nação. O ato de "biao tai", ou jurar lealdade, por parte dos chefes de redação foi exigido por Xi de líderes militares e outras figuras importantes no ano passado.

Esse endurecimento do controle ocorre enquanto Xi enfrenta pressão a respeito da economia da China, corrupção no partido e ampla frustração popular com a poluição e degradação ambiental.

Um ensaio no "China Daily", o jornal oficial em língua inglesa, ofereceu na segunda-feira (22) uma explicação sobre o motivo para Xi estar revelando sua política agora.

"É necessário que a mídia restaure a confiança da população no partido, especialmente enquanto a economia entra em uma nova normalidade e surgem sugestões de que está em declínio e arrastando para baixo a economia mundial", disse o ensaio.

"Os meios de comunicação da nação são essenciais para a estabilidade política e a liderança não pode se dar ao luxo de esperar até que eles se ajustem aos tempos", ele disse.

As diretrizes de Xi também dificultariam para os governos estrangeiros determinarem que jornalistas chineses atuando em seus países são legítimos e quais são agentes servindo interesses oficiais de propaganda, inteligência ou outros. As mais importantes organizações de notícias estatais e do partido estão expandindo enormemente suas operações no exterior, inclusive nos Estados Unidos.

A nova política de Xi surgiu porque "apesar do contínuo endurecimento do controle da mídia ao longo dos últimos três anos, Xi não está plenamente convencido de que a mídia estatal, mesmo as mais centrais, como a 'Xinhua' e a 'CCTV', estão plenamente sob seu controle", disse Xiao Qiang, um acadêmico em Berkeley, Califórnia, que pesquisa o controle da informação pelo partido.

David Bandurski, o editor do Projeto Mídia da China da Universidade de Hong Kong, disse que "sob Xi Jinping, a centralidade do partido é explícita para todo meio individual".

"Acho que a ideia é, 'nós somos seus donos, nós dirigimos vocês, nós diremos como as coisas funcionam'", ele disse. "'O partido é o centro e vocês servem à nossa agenda.' Isso é muito mais central agora e está sendo definido para todas as plataformas de mídia, das redes sociais à mídia comercial."

Na segunda-feira, em um sinal de como as autoridades estão abraçando a nova política de Xi, um site de internet administrado pela unidade de propaganda do comitê municipal do partido de Pequim atacou um popular magnata de imóveis, Ren Zhiqiang, que criticou o discurso de Xi na sexta-feira. O site acusou Ren, um membro do partido, de ter perdido seu espírito partidário e se opor ao partido, depois de ter escrito em seu microblog que a mídia deveria servir ao povo, não ao partido. As postagens de Ren foram apagadas.

Sob Xi, há uma constante emissão de políticas visando endurecer o controle de cada aspecto da mídia, incluindo redes sociais, filmes e livros.

A mais recente dessas regulamentações, anunciada na semana passada por duas agências, disse que a partir de 10 de março, empresas estrangeiras –mesmo aquelas que formam joint ventures com parceiros chineses– não seriam autorizadas a publicar e distribuir conteúdo online. Muitos editores e produtores de conteúdo online voltado ao público chinês são baseados no exterior, mas um punhado conta com operações ou joint ventures significativos na China que agora podem estar em risco, incluindo a Microsoft e a Apple, que tem uma App Store chinesa. A Amazon vende livros eletrônicos na China e opera a Amazon.cn.

Os artigos sobre o discurso de Xi a respeito das políticas, que não foi divulgado imediatamente na íntegra, disseram que o presidente também exigiu que os jornalistas e organizações de notícias "sigam rigidamente o ponto de vista do marxismo nas notícias" e "ergam a bandeira" –frases que significam a promoção dos interesses do partido.

A política de Xi vem sendo implantada aos poucos. Em 2013, o governo passou a exigir que todos os jornalistas chineses realizassem um teste para que seus cartões de imprensa fossem renovados, visando, entre outras coisas, fazer com que os especialistas na apuração de notícias "mantenham de modo mais consciente os ideais jornalísticos marxistas".

Em vários casos proeminentes, as autoridades processaram jornalistas por tudo, de compartilhar informação com estrangeiros a "disseminar rumores" relacionados ao mercado de ações e à economia.

As organizações de notícias chinesas, incluindo as comerciais e antes aventureiras como a "Southern Weekly", estão obedecendo as normas. O "Diário do Povo" se tornou uma máquina de publicidade para Xi. Em um dia em dezembro, seu nome apareceu em 11 das 12 manchetes na primeira página.

Alguns analistas políticos notam que as tentativas de Xi de impor controle total sobre a mídia falam mais de suas inseguranças pessoais do que de qualquer visão ideológica marxista-leninista que ele nutra.

"A coisa mais importante para ele é anunciar sua autoridade absoluta", disse Zhang Lifan, um historiador. "Ele não se sente eficaz e confiante para lidar com os problemas, e carece de um senso de segurança."

Zhang acrescentou: "Ele teme que o Partido Comunista chinês perca poder político e também teme que seus pares o afastarão de sua posição". (Zhang Tiantian contribuiu com pesquisa)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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