Máscaras contra a poluição na Índia: quanto mais chamativas, melhor

Geeta Anand*

Em Nova Déli (Índia)

  • Kuni Takahashi/The New York Times

    A partir da esquerda: Hannah e Alex Dawes usam máscaras para se proteger da poluição em Nova Déli. A mãe deles, Aurelia Driver, acompanha as crianças até a escola

    A partir da esquerda: Hannah e Alex Dawes usam máscaras para se proteger da poluição em Nova Déli. A mãe deles, Aurelia Driver, acompanha as crianças até a escola

Não são apenas blusas que os alunos do jardim de infância vestem ao saírem das salas de aula para os gramados da escola da embaixada americana, na capital da Índia. Elas também vestem máscaras protetoras.

A escola não obriga que os alunos usem máscaras protetoras contra o ar poluído daqui, o pior do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mas criou o que seu diretor chama de "uma cultura de aceitação" sobre usá-las.

Ajuda o fato de virem em estampas diversas, feitas por uma empresa de San Francisco (EUA), muitas em tecidos das coleções de primavera e verão deste ano de um importante estilista indiano, Manish Arora. A Tiger's Den, a loja da escola, já vendeu 800 apenas neste ano letivo.

Com estrangeiros e indianos preocupados com a saúde abrindo o caminho, os moradores da área metropolitana de Déli (25 milhões de habitantes) estão finalmente buscando se proteger da atmosfera ameaçadora à saúde, como as pessoas em Pequim e em algumas outras cidades asiáticas altamente poluídas já fazem.

Nova Déli há muito é coberta de "smog" (mistura de neblina com fumaça), mas as preocupações aumentaram no início de 2014, quando um estudo da OMS classificou a situação de Nova Déli como a pior. Então, a embaixada americana daqui começou a disponibilizar publicamente seus dados de poluição do ar. Uma junta do governo para poluição intensificou seus esforços para medir consistentemente e informar os resultados.

"O catalisador foi a disponibilização dos dados", disse Paul Chmelik, diretor da escola americana.

A Shri Ram, uma escola particular de elite, cancelou as atividades esportivas neste inverno porque esforço físico era considerado inseguro com um ar tão poluído. A Suprema Corte de Déli pediu ao governo que agisse para melhorar a qualidade do ar, dizendo que viver em Nova Déli era como "viver em uma câmara de gás".

Em janeiro, o governo restringiu o trânsito de carros particulares em Nova Déli para dias alternados, durante um teste de duas semanas. Para surpresa geral, os motoristas famosamente desobedientes da cidade seguiram o plano. O governo agora planeja repetir a medida em abril.

Purificadores de ar, de US$ 50 a US$ 1.000, estão desaparecendo das prateleiras. E um empreendedor indiano está vendendo máscaras de ar de luxo no mercado Khan, uma das áreas de varejo mais caras do mundo.

Quando o proprietário da loja, Jai Dhar Gupta, começou a vender máscaras em janeiro de 2015, estimou que venderia cerca de 10 mil por ano. Esse foi o número vendido em nove dias.

Um morador de Nova Déli que antes era dono de uma empresa de call center em San Francisco, Gupta desenvolveu um problema respiratório sério enquanto treinava para uma maratona em 2014, recuperando-se apenas depois que começou a usar uma máscara de filtragem de ar produzida pela Vogmask. Ele passou a ser o distribuidor indiano da empresa há um ano.

Neste inverno, ele diz, está vendendo de 500 a 700 máscaras por dia em duas lojas em Nova Déli, além da loja na escola e de uma loja online.

As máscaras, quando bem colocadas, filtram 99% das partículas em suspensão e são certificadas como equipamento protetor pessoal por órgãos dos governos chinês e sul-coreano, segundo a empresa.

A Vogmask fabrica máscaras na Coreia do Sul desde 2012 e planeja começar a produzi-las na Índia neste ano. Reutilizáveis e feitas de material patenteado, elas custam cerca de US$ 35, preço inacessível para a maioria dos indianos.

Empresas estrangeiras e sem fins lucrativos foram algumas das primeiras a adotá-las. O escritório da Cruz Vermelha em Nova Déli comprou máscaras para todos os seus funcionários neste inverno. Abid Malik, que trabalha ali, usa a máscara enquanto pratica corrida.

"Antes de usá-la, eu tossia o tempo todo", ele disse. "Agora me sinto melhor".

Surendra Singh, 49, adquiriu uma máscara de filtragem de ar quando sua organização sem fins lucrativos as distribuiu para todos os 30 funcionários neste inverno. "Todos estamos realmente em pânico a respeito do ar", ele disse. Ele pediu pela máscara preta com dois filtros de ar, que era anunciada como a mais adequada para pessoas ativas, e a utiliza enquanto toma os três ônibus para o trabalho.

Em uma manhã chuvosa no mês passado, ele era o único no ônibus com nariz e boca cobertos. Isso o tornava alvo de intensa curiosidade e preocupação entre os outros passageiros, a maioria dos quais ainda vê as máscaras com suspeita.

Ao serem perguntadas por que estavam olhando para ele, a maioria das pessoas disse temer que ele estivesse doente, talvez com tuberculose. Outras disseram suspeitar que ele tinha problemas mentais.

"Ele está louco para usar aquela máscara?", perguntou um cabeleireiro de 24 anos, Sonu Kumar.

Enquanto Singh descia do ônibus e começava a caminhar sob a garoa matinal por uma passarela de pedestres na direção de seu escritório, um estudante de 21 anos chamado Liaqat Ali, aglomerado com dezenas de passageiros sob a cobertura do ponto de ônibus, continuou olhando. "Talvez ele esteja tão doente que morrerá se não usar aquela máscara", disse Ali.

Essa postura restringe as vendas na Índia, disse a cofundadora da Vogmask, Wendover Brown. Na China, as máscaras vendem quatro vezes mais.

Na escola americana, a administração realizou fóruns para discutir a poluição, criou um comitê para o desenvolvimento de um plano de ação e pediu à loja da escola para estocar as máscaras. Há um ano, os usuários de máscaras eram minoria na escola, mas agora a maioria dos alunos as utiliza, disse uma mãe, Aurelia Driver.

Ela manda seus filhos para a escola com máscaras no rosto, presas com elásticos, para que as máscaras fiquem penduradas no pescoço quando estão em recinto fechado. O que começou como uma necessidade desagradável para muitas crianças se transformou em uma espécie de acessório de moda, ela disse. "Ter algo divertido e bacana a torna algo que as crianças querem usar", ela afirma.

Outra mãe disse que as comprou para suas filhas depois que elas imploraram por elas, argumentando que todas as outras crianças usavam.

A escola instruiu que os alunos não devem praticar atividades aeróbicas sem uso de máscaras protetoras quando o nível de poluição se torna perigoso. Isso obrigou a equipe feminina de futebol a encomendar neste mês máscaras para todas as jogadoras.

(*Suhasini Raj contribuiu com a reportagem.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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