Na prisão por 24 anos, homem inocentado ainda se sente preso

Kirk Semple

Em Nova York (EUA)

  • An Rong Xu/The New York Times

    Han Tak Lee, que passou 24 anos na prisão pela morte de sua filha até ser inocentado em 2014, em seu pequeno apartamento em Nova York

    Han Tak Lee, que passou 24 anos na prisão pela morte de sua filha até ser inocentado em 2014, em seu pequeno apartamento em Nova York

Han Tak Lee, 81, passa grande parte de seu tempo sozinho em um pequeno apartamento no Queens. É uma quitinete no andar térreo ao lado dos trilhos do trem usados pela linha Long Island Rail Road. Os trens passam com muita frequência, apesar do vidro duplo de suas janelas reduzir bastante o barulho.

Seu espaço apertado provoca comparação com a forma como passou grande parte do último quarto de século. De 1990 a 2014, Lee passou por uma série de presídios na Pensilvânia, cumprindo pena de prisão perpétua pelo assassinato de sua filha em um incêndio.

Há dois anos, entretanto, um juiz o absolveu e ordenou que fosse libertado, após determinar que sua condenação foi baseada em teorias sobre incêndio criminoso que posteriormente foram refutadas. Um tribunal de apelação manteve a decisão em agosto.

Mas Lee, agora um homem livre, ainda parece preso. A experiência pesa sobre ele, ao avaliar seu passado e considerar o trecho final de sua vida. Ele reconhece sentir amargura.

"Acho que foi totalmente injusto ter passado 24 anos na prisão", ele disse em uma entrevista. "Sou inocente."

Ele está sobrevivendo de pagamentos do Seguro Social e, principalmente, da generosidade de pessoas que se solidarizaram com sua situação. Um grupo de apoio que foi formado enquanto ele ainda estava na prisão levantou dezenas de milhares de dólares para ajudar com suas despesas legais e, após sua soltura, para ajudá-lo a pagar pelo aluguel e despesas pessoais.

Mas esse fundo já está quase esgotado, e Lee contatou recentemente Ron Kim, um deputado estadual democrata, à procura de ajuda para encontrar uma moradia subsidiada.

"Ele quer viver com dignidade pelo resto de sua vida", disse Kim.

Apesar de estar em sua nona década de vida, Lee, um imigrante coreano que se naturalizou americano, não está enfrentando os desafios de suas circunstâncias atuais com algo que lembre resignação.

Ele está furioso com a Justiça por tê-lo mantido preso e tirado tantos anos de sua vida. Ele se ressente de sua ex-esposa, que se separou dele enquanto estava na prisão. Sua outra filha e a família dela ainda se mantêm afastadas dele, ele disse.

Ele acusou a liderança de sua antiga igreja de não ter saído suficientemente em sua defesa quando ele estava sendo investigado, apesar de a igreja ter levantado cerca de US$ 80 mil [cerca de R$ 290 mil] ao longo dos anos para ajudá-lo a pagar pelo advogado. E se distanciou de alguns de seus defensores mais ardorosos.

An Rong Xu/The New York Times


Chris Chang, o porta-voz do grupo de apoio, disse que a experiência na prisão deixou Lee suspeitando de todos e de suas motivações, o deixando propenso a mudanças repentinas de opinião. Essa imprevisibilidade levou alguns de seus apoiadores a se distanciarem, disseram amigos.

"É como um vulcão", disse Chang.

Lee não tem remorso. "Reconheço minha personalidade, mas isso se deve às muitas experiências que vivi", ele disse. "Sou resoluto, sou diferente."

Ele acrescentou: "Fui plenamente absolvido. Isso me dá confiança para ser mais veemente".

Em duas entrevistas com Lee em seu apartamento, ele parecia em grande parte alegre e de boa índole, respondendo pacientemente as perguntas sobre sua vida em coreano e em inglês rudimentar, assim como rindo com frequência. Seu humor azedou um pouco apenas quando a conversa se voltou para o assunto de sua ex-esposa e filha.

"Não quero falar sobre minha família", ele disse de forma incisiva. (Um membro do comitê de apoio forneceu o número do telefone da filha de Lee, mas as chamadas não foram atendidas.)

O incêndio que matou a filha de Lee ocorreu em julho de 1989, em um retiro religioso na região das Montanhas Pocono administrado pela igreja que frequentava na época.

Lee, que tinha uma loja de roupas e vivia com sua então esposa e duas filhas em Sunnyside, Queens, levou sua filha mais velha, Ji Yun, ao retiro a pedido do pastor da igreja.

Ji Yun, que era uma estudante de arte de 20 anos do Instituto Pratt, no Brooklyn, sofria de doença mental severa. Ele esperava que a viagem a ajudasse.

Certa manhã, um incêndio teve início na cabana deles. As autoridades encontraram Lee sentado estoicamente do lado da fora da cabana em chamas com duas malas feitas. A "ABA Journal", uma publicação da Ordem dos Advogados americana, relatou o caso em um artigo.

O comportamento dele, considerado estranhamente passivo pelos investigadores, se tornou parte do argumento da promotoria contra ele. O corpo incinerado de Ji Yun foi encontrado no interior da cabana.

No julgamento, os promotores, citando o testemunho de peritos em incêndios, argumentaram que o padrão de avanço do fogo e da quebra dos vidros indicava um incêndio deliberado, e que o autor iniciou o incêndio em pelo menos oito pontos da cabana usando uma mistura de óleo para aquecimento doméstico e outro acelerador, segundo reportagens.

Um perito que testemunhou no caso disse que uma análise química das roupas de Lee sugeriu uma ligação com uma luva plástica e o galão que teriam sido usados para despejar o combustível.

Na defesa de Lee, seu advogado argumentou que Ji Yun foi a responsável pelo incêndio. Lee disse que estava dormindo quando o incêndio começou e que tentou sem sucesso resgatar sua filha.

O júri ficou do lado dos promotores e ele foi condenado por homicídio e incêndio criminoso, sentenciado a prisão perpétua.

O caso dele teve forte repercussão entre os coreanos nos Estados Unidos e seu julgamento foi acompanhado atentamente na Coreia do Sul. Após sua prisão, membros da população coreana em Nova York formaram o grupo de apoio, chamado Comitê Libertem Han Tak Lee, e nos anos que se seguiram levantou dinheiro para ajudá-lo a pagar por suas despesas legais.

Lee disse que se manteve bastante isolado na prisão, buscando ficar sozinho e vivendo por anos em sua própria cela. Ele nunca encontrou outro coreano durante seu período atrás das grades, ele disse.

Em 2014, um magistrado em Harrisburg, Pensilvânia, descobriu que velhas crenças sobre a ciência da propagação do fogo, que estavam no centro da argumentação da promotoria, foram refutadas.

Um juiz federal acatou a recomendação do juiz para que a condenação e sentença de Lee fossem anuladas e Lee foi solto. Os promotores apelaram sem sucesso da decisão.

A Pensilvânia não fornece indenização para pessoas condenadas injustamente por um crime e Lee não impetrou um processo por sua prisão indevida. Mas seus advogados "estão estudando se há alguma compensação disponível", disse Peter Goldberger, um advogado que o representou por cerca de 15 anos.

O comitê de apoio está pagando seu aluguel (US$ 1.000 por mês [cerca de R$ 3.600]) e lhe dá uma ajuda de custo mensal de US$ 700 [R$ 2.530], disse Chang. Mas com o dinheiro acabando, os membros estão tentando encontrar uma moradia alternativa mais barata para Lee.

Kim, o deputado estadual, disse que as autoridades municipais avaliaram a situação e saúde de Lee e estão considerando seu caso. Além disso, Kim está trabalhando com grupos comunitários para encontrar formas de ajudá-lo.

"Estou me colocando na situação dele para tentar entender como ele conseguiu lidar com ter sido preso por tantos anos e voltar, finalmente conseguindo sua liberdade, mas lutando para viver com alguma integridade", disse Kim. "Há uma sensação de injustiça."

Mas Lee está longe de desistir. "Foco mental", ele declarou. "Resistência."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos