Trump e Hillary têm os votos, mas ainda não conquistaram os corações

Michael Barbaro

  • Scott Audette (L)/Javier Galeano (R)/Reuters

    Donald Trump, pré-candidato republicano, e Hillary Clinton, pré-candidata democrata

    Donald Trump, pré-candidato republicano, e Hillary Clinton, pré-candidata democrata

As vitórias foram desiguais. As celebrações foram efusivas. Os delegados se acumulavam às centenas.

Mas os triunfos retumbantes de Donald J. Trump e Hillary Clinton na terça-feira (15) mascaram uma realidade profunda, histórica e incomum: a maioria dos norte-americanos não gosta dele. Nem dela.

Os dois grandes partidos agora precisam enfrentar a seriedade do ceticismo, resistência ou aversão aos seus principais candidatos, um sentimento que moldaria profundamente um confronto potencial na eleição geral entre Trump e Clinton.

Enquanto observavam os dois candidatos acumularem grandes margens na terça-feira, historiadores e estrategistas tinham dificuldade para lembrar de alguma vez em que mais da metade do país tinha uma opinião tão baixa pelos principais candidatos dos partidos Democrata e Republicano.

"Não há uma eleição semelhante na era moderna em que os dois principais candidatos à indicação sejam tão divisores e fracos", disse Steve Schmidt, alto consultor de campanha de George W. Bush em 2004 e de John McCain em 2008. "Não há precedente para isso."

As vitórias convincentes de Hillary nos Estados de inclinação indefinida de Ohio, Carolina do Norte e Flórida pareceram minar o desafio antes robusto do senador Bernie Sanders. E o domínio de Trump na Flórida, Carolina do Norte e Illinois nocauteou o senador Marco Rubio, deixando o magnata ainda mais próximo da indicação republicana.

Este seria o momento, sob circunstâncias normais, em que os indicados de fato, ao saírem vitoriosos das disputas internas de seus partidos, convidariam um eleitorado nacional ansioso a os considerarem. E em seus discursos de vitória, ambos se empenharam, fazendo amplos apelos aos norte-americanos para se unirem no apoio a eles.

Mas Trump enervou muitos norte-americanos com sua oratória inflamada e propostas que soam radicais. E Hillary, apesar de vista como uma figura política mais experiente e séria, tem tido dificuldade em conquistar a confiança do eleitorado.

E também é praticamente impossível para o país ver cada um deles com novos olhos.

O país convive com Trump e Hillary, de forma notavelmente íntima, há décadas, processando suas controvérsias, feitos e reveses, do processo de impeachment a separações matrimoniais, vitórias no Senado a inaugurações de arranha-céus chamativos. As impressões que os eleitores têm deles, com poucas exceções, já estão em grande parte formadas.

Segundo uma pesquisa Gallup, 53% dos norte-americanos têm uma opinião desfavorável a respeito de Hillary e 63% têm uma opinião desfavorável a respeito de Trump.

"Estamos falando de duas figuras universalmente conhecidas", disse David Axelrod, o estrategista democrata e ex-conselheiro da Casa Branca de Obama. "O sentimento forte que cada um deles gera é incomum."

As percepções negativas dificilmente serão superadas.

Menos da metade dos eleitores republicanos em cinco Estados na terça-feira considera Trump honesto e confiável. Mesmo nos Estados em que ele venceu, a maioria dos eleitores não o considera confiável.

E apesar da maioria dos eleitores democratas considerar Hillary honesta e confiável, ela ficou atrás de Sanders entre aqueles que disseram que honestidade é o que mais pesa em sua decisão.

Essa realidade está forçando as campanhas de Trump e Hillary a se prepararem para uma guerra total entre eles, uma improvável dinâmica brutal para dois nova-iorquinos cujos caminhos já se cruzaram repetidas vezes ao longo dos anos, até mesmo em uma cerimônia de casamento. (Hillary e seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, estiveram presentes no terceiro casamento de Trump, em 2005.)

Eles estão elaborando apelos que são tanto argumentos de que seu oponente praticamente certo seria um desastre para o país, quanto mensagens de suas próprias virtudes e caráter.

Assessores de ambos preveem que uma disputa Hillary-Trump seria uma briga feia e impiedosa, com ela batendo nas práticas de negócios dele e integridade pessoal, o retratando como "barão ladrão" (termo pejorativo aplicado aos empresários norte-americanos ricos e poderosos do século 19) inescrupuloso, e ele atacando os lapsos éticos e enriquecimento repentino dela, a pintando como uma pessoa que abusa do poder e que certamente será indiciada em uma investigação federal.

Ambos os lados reconhecem que há abundância de material para explorar, que remonta até Arkansas nos anos 1980 (no caso dela) e Nova York nos anos 1970 (no caso dele).

Entrevistas mostram que os eleitores estão bem familiarizados com as vulnerabilidades biográficas e políticas de ambos e expressam sua desaprovação em termos claros e abrangentes.

Kent Moore, 51 anos, um democrata de Charlotte, Carolina do Norte, não apenas não gosta de Hillary, ele duvida dos valores básicos dela.

"Ela não possui um centro moral", disse Moore.

A forma como os republicanos veem Trump é igualmente firme e não caridosa.

"Rude e cru demais", é a forma como colocou Nikki Heath, uma artista gráfica de 59 anos de Columbus, Ohio. Ela apoia o discreto e genial governador de seu Estado, John Kasich. Ela considera Trump e suas excentricidades "um embaraço".

Essas avaliações negativas não são isoladas, o motivo para os votos obtidos por Trump e Hillary colocarem ambos os partidos em águas não mapeadas. Caso consigam a indicação, seria a primeira vez em pelo menos um quarto de século que a maioria dos norte-americanos vê de modo negativo os dois principais candidatos ao mesmo tempo.

A mais alta avaliação desfavorável de um candidato indicado ou líder de pesquisa foi de 57% para George H.W. Bush, em outubro de 1992, ao sair de um primeiro mandato difícil na Casa Branca. Mas seu rival democrata, Bill Clinton, era amplamente apreciado: apenas 38% o viam de modo desfavorável, segundo uma pesquisa Gallup.

A impopularidade de Trump e Hillary está levando republicanos e democratas a se verem diante de considerações incomuns nas urnas.

Lowell P. Weicker Jr., que disputou para ser o candidato republicano à presidência em 1980 e serviu como governador independente de Connecticut nos anos 1990, disse ter baixa consideração por Hillary. Mas tem ainda menos por Trump.

"Eu não gosto dela", disse Weicker, "mas com certeza votarei nela, e não em Trump".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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