Opinião: Como os governos muçulmanos impõem a ignorância

Mustafa Akyol*

Em Istambul (Turquia)

  • Emrah Gurel/AP

    Policiais monitoram a sede do jornal Zaman em Istambul, na Turquia, que está sob intervenção do governo turco

    Policiais monitoram a sede do jornal Zaman em Istambul, na Turquia, que está sob intervenção do governo turco

Em todo o mundo islâmico os censores limitam o acesso às ideias em nome da proteção à religião. Quem eles estão realmente protegendo?

Passei recentemente alguns dias na Malásia, onde estive promovendo o lançamento da edição malaia de meu livro, "Islam Without Extremes: A Muslim Case for Liberty" [Islamismo sem extremismos: uma tese muçulmana pela liberdade]. A editora, uma organização muçulmana progressista chamada Frente Renascimento Islâmico, tinha arranjado várias palestras para mim em Kuala Lumpur.

Como qualquer autor estaria, eu estava feliz por saber que a equipe havia se entusiasmado por meu livro e recebera um bom retorno das plateias e de leitores. Mas eu estava incomodado por outra coisa que, suspeito, muitos autores muçulmanos já sentiram: minha editora estava preocupada com a censura.

O risco, disseram-me, era que o Departamento de Desenvolvimento Islâmico, um órgão do governo que "foi formado para proteger a pureza da fé", pudesse proibir o livro se fosse considerado uma violação da doutrina islâmica tradicional.

Até agora o governo malaio não proibiu meu livro. Mas se o fizesse não me surpreenderia. O departamento já havia interditado mais de mil livros traduzidos ao malaio. "Sobre a Origem das Espécies", de Charles Darwin, foi proibido porque, segundo o ministro do Interior, "vai contra os ensinamentos islâmicos" e até "ameaça a harmonia pública" --seja lá o que for isso.

"Islam: A Short History" [Islã, um conto], um estudo bastante simpático da autora campeã de vendas Karen Armstrong, foi igualmente banido por ser "incompatível com a paz e a harmonia social".

A Malásia não é uma anomalia no mundo muçulmano. No caso mais extremo da Arábia Saudita, o Ministério da Informação pode censurar qualquer publicação que deseje, e a polícia religiosa pode confiscar livros se detectar algo que considere blasfêmia. Até a Bíblia, o livro mais vendido do mundo, é proibida na Arábia Saudita --por mais que o Corão a elogie.

No Egito, sob o pulso de ferro do presidente Abdelfattah al-Sisi, uma série de obras literárias pode ser proibida. No mês passado, um romancista foi condenado a dois anos de prisão por "violar a decência pública".

Nada disso é novidade, é claro. A falta de liberdade intelectual sob os autointitulados Estados islâmicos recebeu muitas críticas, desde os conservadores islamofóbicos aos liberais muçulmanos. Em reação a isso, as autoridades que censuram livros ou proíbem blogs geralmente encolhem os ombros. Pensam geralmente que a liberdade de expressão é uma invenção ocidental que elas não precisam respeitar. Na Malásia, o governo condena com veemência o "liberalismo" e o "direitismo humano".

Esses censores gostam de pensar que, ao proteger os fiéis de ideias perigosas, estão prestando um grande favor às sociedades muçulmanas. Mas fazem o contrário. Seu policiamento das ideias apenas ajuda a enfraquecer e empobrecer intelectualmente os muçulmanos: quando as mentes muçulmanas não são desafiadas por ideias "perigosas", elas não podem desenvolver a sofisticação necessária para articular as suas próprias.

Percebi pela primeira vez essa limitação há cerca de duas décadas, quando os livros de Richard Dawkins "O Gene Egoísta" e "O Relojoeiro Cego" foram publicados aqui na Turquia. Os livros apresentavam uma interpretação agressivamente ateísta da evolução. Como um fiel muçulmano e aspirante a escritor, quis escrever uma contestação.

Quando comecei a pesquisa, percebi que todos os arrazoados contra o doutor Dawkins e outros "novos ateus" tinham sido escritos por cristãos ocidentais. Como viviam em sociedades onde a religião pode ser livremente criticada, os cristãos ocidentais desenvolveram uma tradição intelectual de apologética. Na Arábia Saudita, na Malásia e em outros países que sofrem o jugo da censura, porém, os muçulmanos não tinham tentado se opor aos ateus. O governo resolveu esse problema por eles --banindo os livros ateus, ou mesmo punindo os ateístas.

Esse pensamento propositalmente fechado não é uma característica inerente ao islã. Há mil anos as sociedades muçulmanas eram abertas e curiosas, enquanto a Europa cristã era insular e temerosa da "blasfêmia". Os livros de Aristóteles foram traduzidos e estudados em Bagdá e em Córdoba e proibidos em Paris e Roma. Não admira que o mundo muçulmano tenha sido então o lar de descobertas inovadoras na ciência, medicina e matemática.

Na teologia, igualmente, pensadores muçulmanos como Ibn Rushd, também conhecido como Averróis, desenvolveu argumentos sofisticados que inspirariam pensadores cristãos como são Tomás de Aquino --graças ao envolvimento muçulmano com a filosofia grega.

Hoje, muitos muçulmanos, inclusive os que censuram livros ou punem os "hereges", anseiam por aquela "era de ouro do islã" e lamentam que nossa civilização não seja maior. Poucos parecem perceber, porém, que a grandeza do islã foi possível graças à sua abertura às culturas e ideias estrangeiras.

O mundo muçulmano começou a estagnar e então declinar após o século 13, quando esse cosmopolitismo foi substituído pelo dogmatismo autoisolante. Enquanto isso, a Europa floresceu quando os europeus começaram a pensar mais abertamente.

O mundo muçulmano hoje está em uma situação de mal-estar. As sociedades muçulmanas são subdesenvolvidas em ciência, tecnologia, economia e cultura. Isto só será superado com mais liberdade. O progresso depende de mais muçulmanos questionarem se as políticas que promovem a ignorância se destinam realmente a proteger sua fé, ou a proteger o poder dos que governam em seu nome.

*Mustafa Akyol, autor de "Islam Without Extremes: A Muslim Case for Liberty", colabora com artigos de opinião

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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