Entre esperança e desconfiança, cubano-americanos aprovam ida de Obama a Havana

Lizette Alvarez

Em Hialeah (Flórida)

  • Lynne Sladky/AP

    Salão de cabelereiro em Little Havana, em Miami

    Salão de cabelereiro em Little Havana, em Miami

Enquanto dava a última mordida em um croquete de presunto na lanchonete Morro Castle, na Flórida, Carlos Sánchez destilava o significado da visita do presidente Barack Obama a Cuba em uma palavra: esperança.

"Qualquer mudança é boa, porque não poderia ficar pior do que estava", disse Sánchez, 50 anos, que chegou aqui quando tinha 15, vindo de Havana. "Tentar é melhor que nada. Mas leva tempo para que as pessoas mudem. Elas não querem mudar. Têm de ser forçadas a mudar."

Em Miami, a cidade mais cubana dos EUA, onde muitos moradores têm parentes em Cuba, a maioria dos cubano-americanos aprovou a viagem de Obama à ilha como o último avanço no impasse entre os dois países. É uma posição que pouco tempo atrás teria parecido tão inimaginável quanto o histórico encontro na segunda-feira entre os presidentes dos antes inimigos declarados na Guerra Fria.

Em nenhum lugar a política cubano-americana é mais pessoal que neste subúrbio de Miami, que abriga antigos exilados cubanos e imigrantes recém-chegados da ilha, ex-prisioneiros políticos que nunca voltaram a seu país e trabalhadores em lanchonetes e supermercados, apolíticos, que retornam sempre que podem. Enquanto alguns cubano-americanos desta área ainda abrigam amargura e raiva contra o governo repressor dos Castro e contra a mão estendida de Obama, muitos outros veem a mudança e a visita como um passo lógico que deverá beneficiar a população cubana em longo prazo.

Uma reforma ampla na ilha ainda é ilusão. Mas mesmo mudanças pequenas em Cuba, um país que parece congelado no tempo, repercutem de maneiras que talvez não ocorram em outros lugares. Há fissuras hoje no poder comunista da ilha, que se podem ver no novo acesso à internet, no crescente número de pequenas empresas privadas e na possibilidade de viagens para gerações de americanos que nada sabiam sobre Cuba e vice-versa.

Tudo isso também foi sentido aqui. As famílias estão mais conectadas. Os parentes daqui sentem que têm mais poder para ajudar os de lá.

Barbara González, 54, disse que sua vida há muito tempo era dividida: metade da família está aqui e a outra metade em Cuba. Para ela, o que importa depois de 50 anos de hostilidade entre os dois países não é o jogo político, mas a oportunidade de ajudar seus parentes e os cubanos comuns que se esforçam para pôr comida na mesa e encontrar um trabalho que pague mais que uns trocados.

"Pelo menos houve uma mudança no modo como as pessoas pensam em Cuba", disse González, uma assistente de enfermagem que chegou a Hialeah em 2000, colocando um pacote de manteiga em seu carro de compras no Publix Sabor, um supermercado popular na Flórida que oferece grande seleção de produtos cubanos.

"Os cubanos aqui podem ver esse outro mundo, essa outra maneira de ser", disse ela. "É muito importante. E é bom para os americanos porque eles podem ver a realidade de Cuba. Podem perceber que o povo cubano não tem nada a ver com o governo."

O entusiasmo em Cuba sobre a visita de Obama é palpável, disse ela. "O pai dos meus filhos, que ainda vive lá, foi até o aeroporto para receber Obama", acrescentou González.

Aqui, onde a vida é agitada demais para se fazer uma pausa, até para momentos históricos, a expectativa é menos óbvia, mas não menos importante para muitos. "Obama é o melhor homem do mundo para ir lá", disse ela.

Mas as preocupações sobre a vida em Cuba são muitas. O caminho para a democracia é no mínimo cansativo. E os contínuos atos de repressão do governo, que se desenrolaram no domingo quando dissidentes foram cercados e detidos antes da visita de Obama, são denunciados por adversários e defensores da reaproximação com Cuba. A afirmação do presidente cubano, Raúl Castro, durante a entrevista coletiva na segunda-feira, de que Cuba não tem prisioneiros políticos só inflamou sua raiva.

Mirell Díaz, 28, com um uniforme bordô, esperava por seu turno no Palacio de Los Jugos, que serve sucos de frutas tropicais e comida cubana, falou sobre sua própria transformação. Seis meses atrás ela estava em Cuba, matando tempo até que pudesse deixar a ilha e dar início ao seu futuro. Agora tem um emprego e a esperança de trazer parentes para cá.

Apesar da visita de Obama e da cobertura incansável da mídia que a cerca, Díaz disse que as mudanças em Cuba são superficiais: muitas liberdades, como a de protestar, continuam sendo tabu e muitas pessoas ainda veem os EUA, e não Cuba, como sua única esperança de uma vida melhor, afirmou ela. Isto ganhou destaque no último fim de semana, quando nove cubanos de um grupo de 27 morreram tentando chegar à Flórida em uma viagem de 22 dias a bordo de um barco de 9 m.

"Não muita coisa mudou na verdade", disse Díaz. "Não estou realmente otimista. Tenho muitas dúvidas."

E outros ainda sentem a velha fúria e consideram a visita de Obama uma traição.

A alguns quarteirões de distância do Publix Sabor, a furiosa Margarita Quintero, uma cubana que chegou aqui há 37 anos na onda que partiu do porto de Mariel, engoliu seu "cafecito" e ralhou contra Obama, sua visita a Cuba e as atrocidades de Raúl Castro e seu irmão Fidel.

"É uma vergonha", disse ela. "Todas as mortes, o modo como eles nos expulsaram, a fome, a falta de liberdade. O fidelismo é imoral. Se ele tivesse passado um minuto no nosso lugar, nunca teria negociado com o governo dos Castro."

A visita, segundo ela, a fez jurar que nunca votará em um democrata --não que algum dia tivesse grande inclinação para isso.

"Se Hillary Clinton ganhar, Castro virá aqui tomar café", disse Quintero, com um gesto na direção do balcão. "Nunca imaginei que o governo americano fosse fazer negócios com o governo comunista."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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