Exposição na Holanda questiona as reações viscerais ao cabelo humano separado do corpo

Nina Siegal

Em Utrecht (Holanda)

  • Zhu Tian

Um par de sapatos de salto alto cor-de-rosa brotando cabelo. Gravatas borboleta de lã decoradas com cachos de cabelo humano. Casacos elegantes feitos totalmente de cabelo humano.

Vá em frente, pode dizer: macabro, arrepiante, bizarro.

Os organizadores da exposição "HAIR!" (CABELO!), no Centraal Museum (Museu Central) de Utrecht, estavam cientes desde o início de que há algo visceralmente repulsivo no uso de cabelo humano como material para arte ou design, especialmente quando fica próximo de nossa pele. Mas queriam explorar essa resposta e perguntar: por quê?

"Algo acontece quando o cabelo é separado do corpo", disse Harm Rensink, um dos autores da exposição, que vai até 29 de maio. "No momento em que você não o vê mais como parte do corpo, vem a sensação de repulsa. Ela faz você querer olhar, mas também não querer olhar."

Vários anos atrás, Ninke Bloemberg, uma curadora de moda do Centraal Museum, ficou fascinada pela prática comum do século 19 de guardar cachos de cabelo de um ente querido e pedir a um joalheiro para adicioná-lo a uma joia decorativa, usada em contato com a pele. O museu tem uma coleção dessas peças.

"Quando você fala com pessoas que não estão familiarizadas com a tradição, elas sempre dizem: 'Que nojo'", disse Bloemberg. "Sou muito intrigada pela ideia de usar o cabelo de outra pessoa próximo de sua pele." E ficou intrigada em descobrir se essa tradição continuou de alguma forma: "Qual é o status do cabelo a esta altura?"

Bloemberg (que tem cabelos castanhos compridos e franja) começou a pesquisar o assunto do cabelo como material artístico vários anos atrás, e quando reuniu uma quantidade razoável de evidência de que cabelo era de fato um material ainda explorado por artistas contemporâneos, ela planejou uma exposição. Ela alistou a ajuda de dois planejadores de exposições, Niek Pulles (que tem cabelo comprido e barba) e Harm Rensink (que tem cabelo loiro platinado curto), para criar um fluxo dinâmico de cabelo pelos 1.000 metros quadrados do espaço de exposição.

"No início, queríamos nos concentrar nos aspectos repelentes do cabelo", disse Bloemberg, "mas achamos que as pessoas já trarão isso à exposição com elas. Assim, no final, as coisas que escolhemos são bastante atraentes."

A atração visual de algumas das peças, como a elegante folha de treliça feita totalmente com cabelos humanos ou a escova de cabelo de madeira cujas cerdas foram substituídas por exuberantes cabelos loiros, podem fazer os visitantes questionarem sua aversão natural. Obras de outros artistas parecem propor o cabelo como uma fonte renovável inesgotável, explorando como pode ser empregado para criar algo tanto bonito quanto funcional.

Para seu projeto "Estrada de Cabelo" (2014), o Studio Swine de Londres combinou cabelo humano com uma biorresina natural para inventar um novo material composto, a partir do qual fizeram objetos como móveis, como uma penteadeira em estilo art déco de Xangai dos anos 20 presente aqui.

Os artistas, que colaboraram com a Galeria Pearl Lam de Hong Kong, usam cabelo da China, notando na descrição do projeto que "o cabelo asiático cresce particularmente rápido, até 16 vezes mais rápido do que a madeira de mogno. Também é muito forte, já que toda uma cabeça de cabelo é capaz de suportar o peso de dois elefantes africanos."

A estilista de moda e de tecidos holandesa Anouk van Klaveren criou uma peça de performance interativa, originalmente encenada no Salone del Mobile de Milão, na qual ela cortava o cabelo dos visitantes e o adicionava a uma gravata borboleta feita de lã, para criar uma "gravata borboleta pessoal". O processo de produção foi projetado para imitar uma linha de montagem de fábrica.

"Ao combinar lã e cabelo humano em um produto, tento conscientizar as pessoas do fato de que a lã também é apenas um pelo, mas as pessoas a veem de uma forma completamente diferente", ela explicou enquanto instalava a obra na galeria. "Há algo engraçado para as pessoas em usar cabelo humano, mas a lã é apenas um produto para nós." Ela acrescentou: "Produção em massa é normal para nós, mas se você usar produtos humanos, as pessoas pensam a respeito de modo muito diferente".

Apesar de haver um elemento de moda na exposição, já que um dos sete espaços de galeria é dedicado ao cabelo na moda, não se trata de uma exposição sobre cortes e penteados. Onde lida com cabelo ainda preso à cabeça de alguém, ela tende a focar na elaboração do cabelo como elemento de design, ou o papel do cabelo na exploração das identidades.

Quase metade do espaço de moda se concentra na tremenda amplitude do trabalho do cabeleireiro holandês que trabalha em Nova York, Christiaan Houtenbos, que criou muitos "looks" famosos, incluindo o característico corte de topo chato da cantora Grace Jones. Os curadores também colocaram em exposição o kit que Houtenbos levou à China para fazer o cabelo de Nancy Kissinger, quando ela acompanhou seu marido, o ex-secretário de Estado, Henry Kissinger, em 1979.

Na mesma sala de exposição estão três retratos de família do artista holandês Levi van Veluw, de sua série "Natural Transfers", na qual ele e sua mãe e irmã são fotografados do ombro para cima, com seus rostos encobertos pelo cabelo preso a todos os contornos da face. "Se você olhar como espectador, verá três retratos e pensará que todos são da mesma pessoa", disse Rensink. "Mas no final engana você, já que todas são pessoas diferentes."

Alguns artistas usam fios de cabelo como linha ou fio para fazer bordados íntimos. Por exemplo, a artista nipo-americana Masako Takahashi, de San Francisco, passou fios de seu próprio cabelo longo em um agulha para costurar um diário em um pergaminho de seda japonês. O rolo completo, com cerca de 12 metros, será exposto em um corredor estreito da exposição. Mas não será possível ler as palavras, porque está escrito em uma linguagem inventada que só ela conhece.

Uma coisa não tratada diretamente na exposição é a coleta e reutilização de cabelo humano pelos nazistas, recolhido antes das vítimas serem mortas nas câmaras de gás, por exemplo, no campo de concentração de Auschwitz, e vendido para empresas alemãs fazerem produtos domésticos.

"Todo mundo pensa nisso a certa altura, quando veem todo este cabelo coletado", disse Pulles, um dos curadores da exposição. "É por isso também que fizemos a exposição ter também um elemento mais sombrio. Mas também queríamos manter a frivolidade e leveza na exposição, de modo que é bastante dinâmica."

O artista sérvio Zoran Todorovic parece fazer uma referência indireta à Segunda Guerra Mundial em sua peça "Calor", que foi criada originalmente para a Bienal de Arte de Veneza de 2009. Ele reuniu cabelo de 288 mil indivíduos em salões, quartéis e presídios por toda a Sérvia e fez o cabelo ser feltrado em cobertores que parecem de lã cinza. O artista também gravou em vídeo o processo de coleta do cabelo.

Uma pilha de cobertores está em exposição aqui e ele os oferece à venda por 100 euros (cerca de R$ 410) cada. "Provavelmente ninguém os comprará", disse Bloemberg. "Mas é interessante o fato de poderem."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos