Enquanto Pequim controla a mídia, veículo de notícias chinês se volta para o exterior

Didi Kirsten Tatlow

Em Xangai (China)

  • Eric LeLeu/The New York Times

    Wei Xing, editor do The Paper, supervisionado pelo Partido Comunista chinês

    Wei Xing, editor do The Paper, supervisionado pelo Partido Comunista chinês

"The Paper" (ou "O Jornal") é uma história de sucesso na nova mídia, em um mercado de notícias em rápida mudança. Ele cobre temas contenciosos, como a corrupção oficial e um recente escândalo envolvendo vacinas armazenadas de forma imprópria, com todos os apelos digitais. Seu aplicativo para smartphone, ele diz, já foi baixado cerca de 10 milhões de vezes.

Mas "The Paper" é diferente do "Buzzfeed", "Vice" e outras vozes digitais que surgiram para competir com os veículos de notícias tradicionais: ele é supervisionado pelo Partido Comunista chinês, prosperando em um momento em que os líderes da China estão restringindo cada vez mais o que a população lê e assiste.

Agora o proprietário do "The Paper" está voltando sua atenção para outros lugares. Ele lançará publicamente uma versão em língua inglesa chamada "Sixth Tone" (ou "Sexto Tom"), na esperança de fazer com que sua receita de sucesso na China funcione no exterior.

Parte da pressão do governo é inevitável, disse Wei Xing, seu editor e ex-vice-editor-chefe do "The Paper". "Há dois caminhos para você escolher", ele disse. Um é simplesmente reclamar, mas "queremos fazer parte da conversa, tanto global quanto doméstica".

O lançamento ocorre em um momento complicado para a mídia de notícias chinesa. O apetite doméstico é voraz, com quase 555 milhões de chineses usando portais de notícias online, segundo a agência de internet apoiada pelo governo chinês, o que representa um aumento em mais de 50% desde 2010.

A China também encoraja seus veículos de notícias a irem para o exterior. O presidente Xi Jinping pede à mídia chinesa que "conte bem a história da China".

Mas essas tendências ocorrem em meio a uma crescente repressão aos meios de comunicação na China. As autoridades endureceram os limites sobre quem pode disseminar informação na China, restringiram as reportagens sobre seus problemas ambientais e econômicos, assim como o que as pessoas podem ver online.

"Há essa infraestrutura muito moderna, todos esses aplicativos e pacotes muito modernizados que estão se disseminando, mas é como uma casa muito, muito bonita, mas com a instalação elétrica faltando", disse Kerry Brown, diretor do Instituto Lau China da King's College de Londres.

"Você não pode dizer coisas sobre o partido que são realmente cruciais", ele disse.

Muitos outros veículos de notícias chineses já se limitam a apenas repetir a linguagem afetada do partido. (Um exemplo recente: "O vice-premier chinês espera um crescimento robusto e constante".) E há os exemplos de falta de entendimento, como quando o site em inglês do jornal "Diário do Povo" reproduziu como sendo sério um artigo do "The Onion", um site satírico, que declarava Kim Jong Un, o líder da Coreia do Norte, como sendo o homem mais sexy do mundo.

Wei argumenta que o "Sixth Tone" terá mais facilidade. Enquanto todos os outros veículos de comunicação chineses são em algum grau controlados pelo Estado, ele carece da burocracia saturada de política por ser uma nova empresa de internet, ele disse.

Na mídia tradicional chinesa em língua inglesa, "algumas reportagens podem aparecer por serem uma promoção do governo. Não acho que temos essa chamada tarefa. Apenas contamos histórias com um fator mais humano", disse Wei.

Mesmo assim, Wei reconhece os limites. "Talvez às vezes, quando reportagens são publicadas, possam surgir alguns comentários de certos departamentos do governo", ele disse. Quando lhe foi pedido que desse exemplos no "The Paper", ele respondeu: "Para mim, é difícil especificar um caso".

"The Paper" tem apelo em geral aos chineses com ensino superior e à geração do milênio, conhecida como geração "pós-anos 90" na China.

"É uma das poucas organizações de notícias daqui que ainda possuem conteúdo original, de qualidade", disse Feng Jingya, um analista financeiro de 24 anos de Pequim e leitor do "The Paper". "Eu sinto que muitos jornais e portais de notícias apenas copiam uns aos outros."

Feng apontou a recente cobertura pelo "The Paper" da venda de vacinas armazenadas de forma imprópria, um escândalo que colocou em dúvida a capacidade das autoridades chinesas de regular o atendimento de saúde. "Aposto que não muitas organizações de notícias daqui estão dispostas a dedicar tempo a uma cobertura em primeira mão ou tenham coragem para ser a primeira a dar esse tipo de notícia", disse Feng.

"The Paper" há muito se apresenta como diferente da mídia sufocada da China. Ávidos em abraçar a cultura de "startup" cheia de energia da China, os editores pediram a remoção das paredes internas de uma antiga redação de jornal quando lançaram o site em 2014, para que os jornalistas pudessem se comunicar mais facilmente. "A mídia chinesa tradicional tem pequenas redações com paredes", disse Wei.

O site ganhou nome com as histórias sobre corrupção, incluindo uma série detalhada, com gráficos interativos, sobre Ling Jihua, um ex-alto assessor do presidente Hu Jintao, que foi preso e acusado de corrupção, adultério e reunir de forma imprópria segredos do partido e de Estado.

A história principal na home pré-lançamento do "Sixth Tone", "Despertando para a ameaça da violência doméstica", espelha a ênfase do "The Paper" em notícias legais. Em 1º de março, a China aprovou sua primeira lei contra violência familiar.

Além dos 22 funcionários chineses e oito não chineses, o "Sixth Tone" usará os recursos do "The Paper", que inclui uma rede de cerca de 400 jornalistas de texto e multimídia, além de um drone. "Todos somos digitais. Nascemos para ser digitais. Queremos fazer jornalismo de dados, videojornalismo, gráficos, reportagens multimídia, vídeos panorâmicos, realidade virtual", disse Wei.

Seu proprietário, o Shanghai United Media Group é supervisionado pelo comitê municipal do Partido Comunista e é dono de vários outros veículos de comunicação chineses. O grupo está investindo inicialmente 30 milhões de yuans (cerca de R$ 17 milhões) no "Sixth Tone", que planeja ganhar dinheiro por meio de anúncios, disse Wei.

Wei espera que o nome do site reflita como querem ser vistos: o mandarim chinês tem cinco tons, incluindo o menos conhecido quinto, que é a ausência dos outros quatro tons. "Queremos ser o sexto. Queremos ser algo novo e diferente", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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