Filme biográfico instiga discussão sobre racismo na França

Rachel Donadio

Em Paris (França)

  • Wikipedia/Reprodução

    Obra de Toulouse-Lautrec, "Chocolat dansant dans un bar" (Chocolate dança em um bar)

    Obra de Toulouse-Lautrec, "Chocolat dansant dans un bar" (Chocolate dança em um bar)

Primeiro artista negro a se tornar um grande sucesso popular na França e uma figura chave em seu despertar como nação multicultural, Chocolat morreu na pobreza em 1917 e sua memória se dissipou.

Um novo filme francês ajuda a restaurar seu legado. Intitulado "Chocolat", é estrelado por Omar Sy, o mais destacado ator negro francês, como o personagem do título, que foi chamado de Rafael Padilla após sua morte, mas cujo nome de nascimento é ignorado.

O filme tem como coadjuvante o artista experimental de circo James Thierrée, que é neto de Charlie Chaplin, no papel de George Foottit, um palhaço inglês e a outra metade de uma dupla que tornou os dois famosos.

Um sucesso de bilheteria, o filme funciona em muitos níveis: como um tema de conversa adequado a famílias sobre o racismo na França, como uma exploração da história do gosto e da apropriação cultural, como um veículo para Sy flexionar seu músculo cômico e como uma história sobre os riscos do sucesso. Padilla escapou da escravidão em Cuba, veio à Europa e encontrou a fama fazendo os brancos rirem, mas perdeu sua fortuna em bebida e jogo.

"É um filme que fala sobre um tema que o cinema francês quase nunca abordou: o racismo", disse Thomas Sotinel, que escreve sobre cinema para o jornal "Le Monde". "Por causa de Omar Sy, os jovens o assistem", disse ele. "O filme aborda um tema que raramente é tratado na escola ou na mídia."

Com impressionantes 1,9 milhão de ingressos vendidos na França desde sua estreia em fevereiro, o filme não foi escolhido para exibição nos EUA, mas será projetado no Festival de Cinema Francês Colcoa em Los Angeles nesta segunda-feira (18).

Antes de sua estreia na França, a prefeita de Paris inaugurou uma placa de comemoração ao clown em um prédio onde ele costumava se apresentar.

O filme deu um raro foco aos franceses de origem africana, em um país onde atores de minorias raramente são estrelas de cinema e onde a maioria dos debates sobre identidade se concentra nos muçulmanos do norte da África. Mas "Chocolat" também tem um roteiro forte.

"É a história de um astro do rock", disse o cineasta Roschdy Zem, diretor e ator de origem marroquina cujas obras muitas vezes abordam questões da identidade francesa.

"Ele vem de um meio muito pobre, encontra a glória e a grandeza, e depois a decadência e a queda no inferno", acrescentou. Zem disse ainda que "ele tinha sido completamente esquecido, e eu estava interessado em reabilitá-lo".

Padilla, que escapou da escravidão em Cuba, chegou à França via Espanha. No filme, ele e Foottit se encontram em um circo mambembe no interior da França, onde seu número era interpretar um canibal, usando uma tanga e mostrando os dentes enquanto a plateia se espanta. O ato evolui, mas uma ideia central, o medo dos negros, permanece.

Alguns anos depois, em um palco elegante de Paris, Chocolat circula ao redor de Foottit, que finge estar aterrorizado. O público se contorce de rir. Mas eles estão rindo com, ou do, palhaço negro?

Essas são as ambiguidades mostradas no filme. Eventualmente, Chocolat fica frustrado com seu número e por ganhar menos que seu colega de cena branco. Ele muda de tom e apresenta "Otelo".

Os gostos mudam. Josephine Baker e outros bailarinos afro-americanos vêm à França, e o número do palhaço fica defasado.

Reprodução
Omar Sy no papel de Bishop, em "X-Men: Dias de um Futuro Esquecido"

"Nós falamos do passado, que é real e, é claro, há ecos com o presente", disse Sy, por telefone de Los Angeles, para onde ele se mudou em 2013 para seguir a carreira de ator em Hollywood.

"Espero que as pessoas que o vejam tenham consciência dessa história e perguntem a si mesmas: como podemos melhorar as coisas hoje?"

Sy disse que tenta transcender as discussões sobre raça.

"Nos EUA ou na França, sempre trabalhei como um ator, e não um ator negro", disse. Nas garras da polêmica #OscarsSoWhite [Oscars tão brancos], Sy apareceu na capa de "Télérama", um importante semanário francês, sob o título "Em Hollywood, eles me veem como francês, e não como negro".

Sy é mais conhecido por coestrelar "Os Intocáveis", uma comédia francesa sobre um paraplégico branco resmungão e seu cuidador negro. O filme estreou na França em 2011, estourando nas bilheterias e valendo para Sy um prêmio César, o equivalente francês ao Oscar. Mas provocou controvérsia sobre sua forma de apresentar a questão racial. Alguns críticos americanos o consideram racista; Sy disse que no contexto francês ele tem outra repercussão.

"Chocolat" poderá enfrentar alguns dos mesmos desafios. Para o público americano, o título do filme --e o cartaz de Sy sorridente, vestido como o palhaço Chocolat-- pode parecer insosso.
Mas Gérard Noiriel, um historiador francês que ajudou a escrever o roteiro do filme e é o autor do livro "Chocolat: A verdadeira história de um homem sem nome", disse que o título do filme é autoexplicativo.

"As pessoas devem entender que é o apelido que foi dado a ele pelos franceses, e isso revela os preconceitos da época", disse Noiriel.

Depois da morte do clown, o filho de Foottit o batizou de Rafael Padilla, o sobrenome da mulher do espanhol que o comprou em Cuba.

Na França, o filme foi mais um sucesso de público que de crítica. Alguns críticos exigentes o viram como mais uma resposta da corrente dominante a "Vênus Negra" (2010), de Abdellatif Kechiche, um filme mais complexo sobre uma mulher sul-africana que foi exibida na Europa no final do século 19 como a "Vênus Hotentote".

"Chocolat" foi ideia do produtor de cinema francês Nicolas Altmayer, que leu uma reportagem de jornal sobre uma apresentação de teatro itinerante sobre Chocolat que Noiriel havia organizado.

Ele levou anos para conseguir o financiamento. E precisava de Sy para ter manchetes. Na França, "há poucos atores negros e nenhum bancável", disse Altmayer. "Este é um filme de 19 milhões de euros [cerca de R$ 76 milhões]. Não há opção. Se Omar dissesse não, eu teria interrompido o projeto."

Thierrée passou um mês inteiro com Sy desenvolvendo seu número de clown. Enquanto Padilla era pequeno e enérgico, Sy é alto, com gestos sinuosos. Eles inverteram a dinâmica, com Foottit tornando-se o mais enérgico.

"Tentamos ter esse tipo de corda bamba entre a fidelidade histórica e fazer algo original", disse Thierrée. Os críticos franceses elogiaram seu desempenho e notaram a forte semelhança com seu avô.

Com toques cômicos, o filme chega em um momento sério. "Hoje, com o clima político na França e a ascensão da extrema-direita, temos uma responsabilidade de atingir públicos diferentes", disse Noiriel. "Vivemos em uma França que é uma sociedade diversa e multicultural, mas a memória coletiva ainda é muito francocêntrica."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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