"Vou matá-lo": Comandante afegão à caça de seu filho, um combatente do Taleban

Mujib Mashal

Em Cabul (Afeganistão)

  • Abdul Malik/Reuters

Desde que pegou pela primeira vez em uma arma, aos 15 anos de idade, Abdul Basir já matou muita gente. Só que a operação daquela sexta-feira à noite era diferente: ele iria matar seu filho.

Por volta da meia-noite de sexta, Basir, hoje em seus quarenta anos e comandante de uma milícia do governo na província de Faryab, no norte afegão, chegou a um complexo em uma área chamada Zyaratgah, parte do inquieto Distrito de Qaisar. Ele tinha informações de que seu filho de 22 anos, Said Muhammad, um membro calejado do Taleban, estava ali com vários de seus combatentes.

Na longa guerra do Afeganistão, a determinação de Basir em matar um de seus filhos não era algo raro, mas sim mais um sinal de como a violência vinha se arrastando há tanto tempo, e de como ela permeara os mais profundos níveis da sociedade e envenenara as mais próximas das relações.

Estruturado por grandiosas ideologias e elaboradas estratégias, o eterno conflito dividiu famílias por uma geração. Guerrilhas que se armaram contra a ocupação soviética se tornaram inimigas declaradas de seus parentes comunistas. Agora, um comandante do governo caçava um filho que o havia denunciado como infiel e o tirou à força do vilarejo ancestral de sua família.

"Fui com total confiança. Eu queria matá-lo primeiro", disse Basir em uma entrevista por telefone no domingo. "Cabe a Deus, mas acho que seu sangue é legítimo para mim."

Os homens de Basir invadiram o complexo, entrando pelo segundo andar, que eles encontraram vazio. No primeiro andar, eles viram Muhammad tentando escapar. Basir apontou seu rifle Kalashnikov e disparou.

"Ele caiu da janela, e pensei que eu o havia matado", disse Basir.

Três combatentes do Taleban foram mortos na operação, mas não Muhammad. Ele foi ferido na cabeça, disse Basir, mas de alguma forma conseguiu voltar para o vilarejo da família, que agora está sob seu controle.

"Não me surpreende nem um pouco ver membros de uma mesma família lutando em duas frentes diferentes", diz Faizullah Jalal, um professor de ciência política na Universidade de Cabul.

O caso em Faryab, diz Jalal, é a continuação de um fenômeno que alcançou seu ápice durante os anos 1980, com conflitos entre o governo comunista em Cabul e guerrilhas que receberam apoio da CIA.

"Houve muitos casos em que um filho esteve de um lado e o pai do outro, e as diferenças eram tão profundas que eles estavam dispostos a matar uns aos outros se pudessem", ele disse. "Não foram só um ou dois ou até cem casos; foram milhares."

Mesmo quando a liderança em ambos os lados do conflito se erodiu, com o Taleban fundamentalista agindo cada vez mais como um cartel de drogas e o governo se afundando em corrupção, a motivação ideológica nos níveis mais baixos permaneceu forte. À medida que os líderes prosperam, os soldados de infantaria de ambos os lados continuam a morrer em grande número, às vezes nas mãos de parentes seus.

Basir é fruto de uma guerra com vários capítulos, mas sem um fim aparente. Ele tinha a idade de um colegial quando se juntou às fileiras de um comandante militar. Os soviéticos, com seu império à beira do colapso, estavam se retirando do Afeganistão, e o conflito que estavam deixando para trás em breve viraria uma implacável guerra civil.

Basir não largou mais as armas desde então, nem mesmo quando homens de milícias como ele supostamente se desarmaram durante uma custosa campanha financiada por doadores internacionais após a invasão dos Estados Unidos.

"Eu matei pelo menos 150 membros do Taleban com minhas próprias mãos, com minhas próprias balas", se gaba Basir.

Mas a luta se tornou pessoal quando seu filho virou um inimigo.

Cerca de cinco anos atrás, disse Basir, ele percebeu que Said estava sendo influenciado por um clérigo local que tinha ligações com o Taleban. Um dia, quando a milícia de Basir estava operando em uma parte diferente de Faryab, seu filho se juntou formalmente aos militantes. Pior, ele levou a provisão de seu pai, com 50 mil balas de Kalashnikov, 42 pentes e uma Kalashnikov.

Basir ficou bravo, mas o perdoou. Afinal, era sangue de seu sangue. Anciãos locais fizeram a mediação, e com muito esforço Muhammad voltou para sua família. Para provar que ele havia desistido da insurgência, ele entrou para o Exército afegão, servindo por dois anos e meio na província de Paktia, no leste.

Mas Basir, que tem outros sete filhos, tinha dúvidas se as crenças de Muhammad haviam mudado, e temia que ele pudesse trair seus camaradas, talvez entregando postos militares aos militantes.

Ano passado, Muhammad confirmou as suspeitas de Basir ao voltar para o Taleban, e acabou fazendo de seu pai um pária.

"Eu disse a ele: 'Venha, meu filho, quero arrumar uma mulher para você, quero casá-lo", disse Basir. Um segundo filho, Abdul Rahman, 20, também entrou para o Taleban, mas Basir disse que Abdul Rahman não era tão "brutal" quando Said. (Assim como muitos afegãos, a família não usa um sobrenome em comum).

Basir disse que Muhammad o ameaçara de morte: "ele vai arrancar minha pele."

Foi como ultimo recurso que ele decidiu matar seu filho, disse Basir, depois que percebeu que não havia esperanças de volta.

Na sexta-feira, o chefe de polícia do Distrito de Qaisar, tenente Nizamuddin, recebeu um telefonema de Basir pedindo por reforços.

"Ele me disse que havia pedido várias vezes para que seu filho deixasse o Taleban, mas ele se recusou", disse o tenente. "Ele queria pegá-lo."

E Basir não tinha planos de prendê-lo. Ele foi até Zyaratgah para matar. Muhammad sobreviveu, e o plano não vai mudar.

"Vou matá-lo", disse Basir. "Ele é um membro do Taleban. Não posso ter piedade."

Tradutor: UOL

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