Software de espionagem é usado por alguns países para intimidar opositores

Nicole Pelroth

Em San Francisco (EUA)

  • The New York Times

    Ahmed Mansoor, ativista de direitos humanos nos Emirados Árabes, descobriu que foi espionado pelo governo por meio de um software adquirido de uma empresa estrangeira

    Ahmed Mansoor, ativista de direitos humanos nos Emirados Árabes, descobriu que foi espionado pelo governo por meio de um software adquirido de uma empresa estrangeira

Nos últimos cinco anos, Ahmed Mansoor, um ativista de direitos humanos dos Emirados Árabes Unidos, foi preso e demitido de seu emprego, além de ter tido seu passaporte confiscado, seu carro roubado, seu e-mail hackeado, sua localização rastreada e US$ 140 mil roubados de sua conta bancária. Ele também foi espancado duas vezes na mesma semana.

A experiência de Mansoor se transformou em uma história de alerta para dissidentes, jornalistas e ativistas de direitos humanos. Antes apenas um punhado de países tinha acesso a ferramentas sofisticadas de hackeamento e espionagem. Agora, quase todos os países, sejam pequenos e ricos em petróleo como os Emirados, ou pobres, porém populosos, como a Etiópia, estão comprando spyware [programa que permite acessar dados secretos de outro computador] comercial ou contratando e treinando programadores para desenvolvimento de suas próprias ferramentas de hackeamento e vigilância.

As barreiras para ingressar no aparato de vigilância global nunca foram tão baixas. Dezenas de empresas, que variam do NSO Group e Cellebrite, em Israel, até a Finfisher, na Alemanha, e Hacking Team, na Itália, vendem ferramentas de espionagem digital para governos.

Várias empresas nos Estados Unidos treinam agentes da lei e funcionários de inteligência estrangeiros para desenvolverem suas próprias ferramentas de vigilância. Em muitos casos, essas ferramentas são capazes de contornar medidas de segurança, como encriptação. Alguns países as utilizam para vigiar dissidentes. Outras as usam agressivamente para silenciar e punir seus críticos, dentro e fora de suas fronteiras.

"Não há regulação substancial", disse Bill Marczak, um membro sênior do Laboratório do Cidadão, da Escola Munk de Assuntos Globais da Universidade de Toronto, que monitora a disseminação de spyware pelo mundo. "Qualquer governo interessado em spyware pode comprá-lo ou contratar alguém para desenvolvê-lo. E quando vemos até mesmo os países mais pobres utilizando spyware, fica claro que dinheiro não é mais uma barreira."

Marczak examinou os e-mails de Mansoor e descobriu que, antes de sua prisão, ele foi alvo de um spyware vendido pela Finfisher e Hacking Team, que vendem ferramentas de vigilância para governos por somas relativamente baixas de seis e sete dígitos. Ambas as empresas vendem ferramentas que transformam computadores e telefones em dispositivos de escuta capazes de monitorar mensagens de texto, chamadas e paradeiro do alvo.

Em 2011, no meio da Primavera Árabe, Mansoor foi preso juntamente com quatro outros sob a acusação de insultar os governantes dos Emirados. Ele e outros pediam por sufrágio universal. Eles foram soltos rapidamente e perdoados após pressão internacional.

Mas os verdadeiros problemas de Mansoor começaram logo após sua soltura. Ele foi espancado e teve seu carro roubado, assim como US$ 140 mil de sua conta bancária. Ele só soube que estava sendo monitorado um ano depois, quando Marczak encontrou o spyware em seus aparelhos.

"É tão ruim como se alguém invadisse sua sala de estar, uma invasão total de privacidade, e você começa a aprender que talvez não deva mais confiar em ninguém", lembrou Mansoor.

Marczak conseguiu rastrear o spyware até o Royal Group, um conglomerado administrado por um membro da família Al Nahyan, uma das seis famílias governantes dos Emirados. Representantes da embaixada dos Emirados em Washington disseram que o assunto ainda está sendo investigado e não responderam aos pedidos de comentários adicionais.

Faturas da Hacking Team mostram que, ao longo de 2015, os Emirados foram o segundo maior cliente da empresa, atrás apenas do Marrocos, e pagaram à empresa mais de US$ 634.500 para uso de spyware contra 1.100 pessoas. As faturas vieram à tona no ano passado, depois que a própria Hacking Team foi hackeada e milhares de e-mails internos e contratos vazaram online.

Eric Rabe, um porta-voz da Hacking Team, disse que sua empresa não tem mais contrato com os Emirados. Mas isso se deve em grande parte à licença global da Hacking Team ter sido revogada neste ano pelo Ministério do Desenvolvimento Econômico da Itália.

Por ora, a Hacking Team não pode mais vender suas ferramentas fora da Europa, e seu presidente-executivo, David Vincenzetti, está sob investigação por alguns desses contratos.

Novas evidências sugerem a Marczak que os Emirados podem agora estar desenvolvendo seu próprio spyware para monitorar seus críticos em casa e no exterior.

"Os Emirados Árabes Unidos se tornaram muito mais sofisticados desde que os pegamos pela primeira vez usando software da Hacking Team em 2012", disse Marczak. "Eles claramente elevaram seu nível. Não estão à altura dos Estados Unidos ou da Rússia, mas claramente subiram no ranking."

No final do ano passado, Marczak foi contatado por Rori Donaghy, um jornalista baseado em Londres que escreve para o "Middle East Eye", um site de notícias online, e um fundador do Centro de Direitos Humanos dos Emirados, uma organização independente que monitora as violações de direitos humanos nos Emirados. Donaghy pediu a Marczak para examinar e-mails suspeitos que recebeu de uma organização fictícia chamada Right to Fight (Direito de Lutar). Os e-mails pediam que ele clicasse em links sobre um painel sobre direitos humanos.

Marczak descobriu que os e-mails estavam repletos de spyware altamente personalizado, diferente das variedades prontas que ele costuma encontrar nos computadores de jornalistas e dissidentes. Ao examinar mais a fundo o spyware, Marczak descobriu que ele estava partindo de 67 servidores e que os e-mails fizeram com que mais de 400 pessoas clicassem em seus links e baixassem inadvertidamente seu malware (software malicioso) para seus aparelhos.

Ele também descobriu que 24 cidadãos dos Emirados foram alvo do mesmo spyware pelo Twitter. Pelo menos três desses alvos foram presos logo depois que a vigilância teve início; outro foi posteriormente condenado à revelia por insultar os governantes dos Emirados.

Marczak e o Laboratório do Cidadão planejam divulgar online detalhes do spyware personalizado dos Emirados na segunda-feira. Ele desenvolveu uma ferramenta chamada Himaya, uma palavra árabe que significa mais ou menos "proteção", que permitirá que outros vejam se também são alvos.

Donaghy disse ter ficado assustado com as descobertas de Marczak, mas não surpreso.

"Assim que você cava sob a superfície, você encontra um Estado autocrático, com poder centralizado entre um punhado de pessoas que utilizam cada vez mais sua riqueza para vigilância de formas sofisticadas", disse Donaghy.

Os Emirados cultivam uma imagem de aliados progressistas dos Estados Unidos no Oriente Médio. Seus governantes acentuam com frequência seu orçamento considerável de ajuda estrangeira e seus esforços a favor dos direitos das mulheres. Mas monitores de direitos humanos dizem que os Emirados têm sido agressivos na tentativa de neutralizar seus críticos.

"Os Emirados Árabes Unidos têm adotado algumas das medidas mais drásticas para calar ativistas individuais de direitos humanos e vozes contrárias", disse James Lynch, vice-diretor do programa para o Oriente Médio e Norte da África da Anistia Internacional. "Eles são altamente sensíveis em relação à sua imagem e plenamente cientes de quem critica o país no exterior."

Em meados do ano passado, Lynch foi convidado a falar sobre direitos trabalhistas em uma conferência de construção civil em Dubai e foi barrado no aeroporto. As autoridades não deram um motivo, mas ele posteriormente viu que seu certificado de deportação listava razões de segurança.

Mansoor, que ainda reside nos Emirados, tem se manifestado abertamente sobre o uso de spyware, mas está cada vez mais limitado em relação ao que pode fazer. Ele teme que qualquer pessoa que fale também venha a se tornar um alvo.

Mais recentemente, o Estado também tem começado a visar as famílias daqueles que se manifestam. Em março, os Emirados revogaram os passaportes de três irmãos cujo pai foi acusado de tentar derrubar o Estado.

"Você acorda um dia e descobre que foi rotulado de terrorista", disse Mansoor. "Apesar de nem mesmo saber como colocar uma bala em uma arma".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos