Opinião: Precisamos travar uma guerra cultural melhor

David Brooks

A recente luta em torno dos banheiros transgênero representa uma "reductio ad absurdum" da guerra cultural.

Nós argumentamos sobre assuntos culturais e morais, em primeiro lugar porque nos importamos com nosso caráter e o caráter de nossos filhos. Entendemos que uma sociedade livre exige indivíduos que sejam capazes de lidar com essa liberdade, pessoas das quais se pode esperar que exerçam seus papéis sociais como pais zelosos, trabalhadores responsáveis e vizinhos confiáveis.

Além disso, sabemos que esse tipo de formação de caráter não pode ocorrer apenas individualmente. Isso é realizado nas famílias, escolas e comunidades. Ela depende de algumas suposições comuns sobre o que é certo e errado, admirado e não admirado, um ecossistema moral comum.

Assim, nos importamos intensamente com a saúde desse ecossistema e discutimos sobre como melhorá-lo.

As leis que regem que tipo de banheiro as pessoas transgênero podem usar, por outro lado, mostram como a guerra cultural degenerou-se em um conjunto de gestos excessivamente politizados visando provocar as pessoas.

Essas leis são resposta a um problema que parece não existir. São resposta a uma ameaça de predadores sexuais sem nenhuma relação à existência de pessoas transgênero. Tratam-se de legislar um grupo, não sobre o que constitui bom comportamento. São uma tentativa de erguer barreiras rudimentares, quando um pouco de acomodação e consideração local resolveriam o problema.

Por algum motivo, alguns defensores dos valores tradicionais são viciados em espetáculos paralelos que acabam cheirando à intolerância. Ao mesmo tempo, a guerra cultural maior em si se tornou moralmente vazia, portanto marcada por fragmentação, desconfiança e emprego do poder de forma tirânica.

A cultura maior em si precisa ser renovada de quatro formas distintas: precisamos ser mais comunais em uma era excessivamente individualista; precisamos ter maior atenção moral em uma era excessivamente utilitária; precisamos ser mais espiritualizados em uma era excessivamente materialista; e precisamos ser mais inteligentes emocionalmente em uma era excessivamente cognitiva.

Em vez de travarmos batalhas perdidas intermináveis em torno da identidade sexual, precisamos de uma guerra cultural melhor. Precisamos de um novo tradicionalismo.

Uma tradição, seja um jantar de Ação de Graças, uma reunião familiar anual ou uma cerimônia fúnebre, pega uma atividade física e a injeta com encanto. Há um calor em nossas tradições e rituais que é alimentado pelo amor e pelo contato com o transcendente.

Essa precisa ser a afirmação inicial de um novo tradicionalismo, a de que não somos primeiramente criaturas físicas. Há um fantasma na máquina. Temos almas ou consciências ou qualquer que seja o nome que se queira dar. O primeiro passo de um novo tradicionalismo seria colocar as implicações espirituais e morais da vida cotidiana no centro e à frente.

Se a vida pública for realmente infundida com o senso de que as pessoas têm alma, educaríamos os jovens a terem vocações, não apenas carreiras. Diríamos a eles confortavelmente que sexo é uma fusão de almas que se amam, não apenas um ato físico. Celebraríamos o casamento como um pacto solene. Entenderíamos que a cidadania também é um pacto solene e que temos o dever de nos sentirmos conectados àqueles que discordam de nós.

Veríamos a clonagem e a pena de morte como atos temerários de se intrometer em algo misterioso. Quando falássemos sobre política externa, falaríamos não apenas sobre interesses materiais, mas também sobre que propósitos somos chamados a exercer na história.

Ao falarmos sobre se pessoas têm alma, teríamos uma visão do que está em jogo nas atividades cotidianas. A alma pode ser elevada e degradada a cada segundo, mesmo quando está sozinha, sem prejudicar ninguém. Cada pensamento ou ato grava uma nova linha no âmago de alguém.

A conscientização desse processo constante de elevação e degradação adiciona urgência a muitas questões. Por exemplo, o que estamos fazendo à alma de um preso quando o jogamos na solitária? Realmente podemos tolerar tantas pessoas sendo excluídas da força de trabalho e incapazes de entender a dignidade que vem com a estabilidade de trabalho? De que formas nossos telefones levam a um maior contato ou isolamento? Quando fazer compras é divertido e quando é degradante?

Também precisamos de uma nova ciência política. A velha era baseada no modelo de que somos indivíduos maximizando a utilidade, buscando poder. Isso é verdade, mas o amor é o desejo básico do espírito. As pessoas são desesperadamente motivadas a amar algo e serem amadas. Uma tarefa básica das comunidades é estimular e educar os amores, para ampliar e aprofundar as oportunidades para o amor e avaliar as pessoas pelo quão bem e o que elas amam.

Nossa cultura é excessivamente politizada e desmoralizada. Esse novo tradicionalismo mudaria o debate e envolveria uma forma mais consistente de ver e falar sobre a vida pública. Os debates que se seguiriam não se dividiriam segundo as linhas convencionais.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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