Forças de paz da ONU se tornaram "vítimas" no Sudão do Sul, defende ONG

Somini Sengupta

  • Justin Lynch/AFP

    Um ataque a uma base das forças de paz da ONU que abriga civis no Sudão do Sul deixou pelo menos sete mortos e 40 feridos, em março

    Um ataque a uma base das forças de paz da ONU que abriga civis no Sudão do Sul deixou pelo menos sete mortos e 40 feridos, em março

Os milhares de soldados da força de paz da ONU que tentam impedir um desastre no Sudão do Sul já têm um mandato claro e difícil: proteger os civis por quaisquer meios necessários.

Mas o retrospecto deles mostra que nem sempre têm conseguido ou estão dispostos a fazê-lo.

Quando a guerra civil estourou no Sudão do Sul há mais de dois anos, a Organização das Nações Unidas não mediu esforços para dizer ao mundo que suas forças de paz no país abriram as portas de suas instalações e deram refúgio para dezenas de milhares de civis.

De lá para cá, entretanto, as tropas têm enfrentado duras críticas por não terem tomado medidas na ocasião para impedir o massacre étnico em um campo para os deslocados; por serem incapazes de proteger as mulheres que eram estupradas quando se aventuravam para fora do campo para buscar lenha; e por permanecerem confinadas em suas bases enquanto novos surtos de violência ao longo do fim de semana levavam às mortes de ainda mais civis.

Com a nação ainda cambaleando dos choques mortais entre facções rivais do Sudão do Sul ao longo do fim de semana, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu na quarta-feira para discutir o envio ou não de mais tropas e lhes dar novas ordens.

Ainda não se sabe se o conselho imporá um embargo de armas às partes em conflito, como muitos defensores de direitos humanos estão pressionando, ou se os diplomatas do conselho oferecerão uma estratégia política para facilitar o trabalho das forças de paz. Há 13 mil  tropas e policiais em solo, quase metade deles encarregada de proteger as pessoas deslocadas abrigadas em suas bases, função conhecida como proteção dos sítios civis.

Ao longo do fim de semana, as tropas da ONU ficaram trancadas em suas bases em Juba, a capital, enquanto as forças do governo montavam postos de controle e milhares de civis seguiam para elas. Ajuda humanitária não pôde ser entregue. Atiradores abriram fogo contra os civis que tentavam entrar nas bases da ONU, que foram atacadas. Dois soldados da força de paz foram mortos dentro da base, juntamente com pelo menos oito civis, e os trabalhadores de ajuda humanitária não puderam ser levados para local seguro. Mesmo na terça-feira, quando o novo cessar-fogo entrou em vigor, muito poucas tropas da força de paz foram vistas patrulhando as ruas.

"Algo está fundamentalmente errado com o mandato da missão da ONU aqui", disse Zlatko Gegic, o diretor da organização não governamental britânica Oxfam para o país, pelo Skype, neste fim de semana em Juba. "Ela própria se tornou uma vítima, completamente incapaz de se mover."

Alguns dos vizinhos do Sudão do Sul estão pedindo para que a missão seja reforçada com uma unidade especial capaz de intervir militarmente, como as forças de paz foram autorizadas a fazer contra uma milícia na República Democrática do Congo. Mas essa é uma proposta muito mais complicada no Sudão do Sul, já que uma intervenção envolveria as tropas da ONU em um conflito étnico incendiário.

O desafio no Sudão do Sul faz parte de uma crise de identidade mais ampla para as forças de paz da ONU. Globalmente, o programa nunca foi tão grande e nem tão caro, com os Estados Unidos bancando mais de um quarto do orçamento de US$ 8,3 bilhões. Mas as limitações da força de paz também estão expostas, especialmente quando no que se refere à sua capacidade de proteger os civis. E ainda persiste a sombra dos fracassos da ONU em Ruanda em 1994, e em Srebrenica em 1995, durante a guerra da Bósnia.

No Sudão do Sul, o mais novo país do mundo, não apenas as forças de paz têm sido incapazes de impedir o que os investigadores da ONU chamam de crimes contra a humanidade, cometidos principalmente, mas não totalmente, pelas forças do governo, como também seus próprios chamados sítios de proteção de civis nem sempre são refúgios confiáveis. A missão de força de paz tem recebido suas críticas mais duras pelo fracasso em prevenir um massacre étnico em um campo na cidade estratégica de Malakal, em meados de fevereiro.

Duas investigações separadas de eventos em Malakal, por painéis nomeados pela ONU, sugeriram que algumas tropas da força de paz se retiraram de seus postos e que outras ficaram aguardando por instruções por escrito do quartel-general. Ambos os atos contrariam o mandato estabelecido pelo Conselho de Segurança: proteger os civis, por força mortal se necessário.

Enquanto as tropas se mostravam indecisas, segundo uma das investigações, homens armados lançavam granadas no campo, atacavam civis com base em sua etnia e realizavam saques e incêndios. Quando as forças de paz finalmente avançaram disparando para o ar, 16 horas após o início do ataque, os homens armados recuaram.

Àquela altura, pelo menos 30 pessoas tinham morrido e pelo menos 123 ficaram feridas.

O Sudão do Sul é um vasto país, em grande parte sem estradas e cheio de rios, pântanos e divisões étnicas mortíferas. Uma guerra civil plena estourou em dezembro de 2013, quando soldados leais ao presidente, Salva Kiir, tomaram em armas contra os seguidores do vice-presidente na época, Riek Machar. Os seguidores leais de Kiir pertencem principalmente ao seu grupo étnico dinka, enquanto Machar é um nuer. Os dois homens assinaram um acordo de paz em agosto, mas, por ora, ele permanece limitado a palavras em um papel.

Cerca de 2 milhões de pessoas foram forçadas a deixar seus lares, com quase 200 mil vivendo dentro de bases da ONU que não visavam ser campos para tantas pessoas por tanto tempo.

Como sempre, a parte complicada para a ONU é confrontar os países que contribuem com forças armadas para sua missão, especialmente os países que enviam muitas tropas, sem os quais as operações de força de paz não existiriam. Os países que possuem contingentes em Malakal (Etiópia, Índia e Ruanda) estão entre os maiores contribuidores de tropas.

Em uma medida das dificuldades políticas, o subsecretário-geral para forças de paz, Herve Ladsous, disse aos repórteres em meados de junho que alguns dos soldados seriam enviados de volta para casa. Ele se recusou a revelar suas nacionalidades. Um mês depois, nenhuma das tropas foi repatriada, e dado o mais recente aumento da violência, é improvável que alguma será em breve.

Agora, enquanto o Conselho de Segurança tenta fortalecer a missão da ONU, a questão permanece: o que se pode esperar das forças de paz no Sudão do Sul?

"O argumento para manutenção da missão é que, ao proteger os civis em seus locais de proteção, ela reduz a violência geral", disse Richard Gowan, um analista do Conselho Europeu de Relações Exteriores. "Mas muitos dos locais parecem ser inseguros, e o risco de um massacre em grande escala em uma base da ONU é sério."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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