Para os palestinos, criar cavalos árabes é "hobby de pobre"

James Glanz e Rami Nazzal

  • Daniel Berehulak/NYT

    Tradição une arábes e israelenses na Palestina

    Tradição une arábes e israelenses na Palestina

Na violenta favela de Issawiya, em Jerusalém Oriental, o lixo queima perto de uma lata aberta, enchendo o ar de um fedor pungente. Grafites em árabe cobrem um muro de pedras em um lado de uma rua íngreme repleta de pedras que sobraram de conflitos entre residentes palestinos e soldados israelenses. Uma aglomeração de crianças para, olhando os dois estranhos com desconfiança.

Então um portão de metal cinza abre ruidosamente no alto da rua. Surge um par de cavalos árabes com o pelo cuidadosamente cortado, com seus cascos estalando sobre a calçada empoeirada. Os cavalos avançam para o centro da cidade com seus cavaleiros, Alaa Mustafa, 24, e seu primo, Oday Muheisan, 19. Atrás deles, o portão aberto revela um terreno pequeno de cinco lados para exercitar cavalos e um estábulo com uma dúzia de baias entre um amontoado de prédios residenciais.

Os dois cavalos pretos e brilhantes, puros-sangues certificados chamados Rawnaq e Furys, dão uma amostra dessa paixão palestina — alguns chamam de obsessão — pela criação de cavalos de exposição, cavalos de corrida e corcéis mais modestos em condições aparentemente impossíveis. Os cavalos são criados e até certo ponto treinados em bairros meio abandonados de Jerusalém Oriental como Issawiya, Tur e Jabal al-Mukaber, muitas vezes por famílias que dividem com dificuldades casas minúsculas e apertadas.

"Nos Estados Unidos, dizem que criar cavalos é hobby de rico", diz Muhamed Hamdan, 25, um treinador palestino que estudou nos Estados Unidos. "Aqui é hobby de pobre."

Embora os estábulos em geral sejam pequenos e em mau estado, seu entorno é impressionante. Em uma noite dessas, a escuridão baixou sobre um estábulo decrépito escondido entre oliveiras, em uma colina acima do Jardim de Getsêmani. Fares Salim, 22, tirou uma égua branca de sua baia e ergueu as rédeas. Atrás deles estavam os minaretes e torres da Cidade Antiga de Jerusalém e o dourado Domo da Rocha.

Estábulos recobrem vilarejos e cidades de todos os tamanhos na Cisjordânia ocupada, e muitas famílias criam seus próprios cavalos. Treinadores como Hamdan, que administra um estábulo com duas dúzias de cavalos em Turmusaya, cerca de 90 minutos de estrada ao norte de Jerusalém, também são pagos para preparar cavalos para competições em exposições e corridas, ou simplesmente para deixá-los bonitos enquanto galopam pelas ruas, vales, oliveiras e colinas pedregosas da região.

Alguns palestinos ricos têm essa mesma paixão, e operam ranchos cercados por pouco mais que favelas de beduínos e vegetações rasteiras que lembram o Velho Oeste americano, e treinadores correm pelos campos com a desinibição de um extra em um filme de faroeste.

"Se você não ama cavalos, não está vivendo", diz Shadi Abu Obeid, um empresário dono de um rancho com 28 cavalos.

Muitos palestinos dizem que o afeto os ajuda a suportar a vida sob ocupação israelense. Palestinos e israelenses do setor, bem como treinadores e jurados estrangeiros que conhecem a região, dizem que os cavalos árabes têm outro efeito que é quase mágico: eles atraem israelenses e palestinos para as mesmas arenas, onde o conflito se desfaz brevemente e todos admiram os cavalos que se empinam, dançam, galopam e competem por troféus.

"Os cavalos árabes tornam o mundo pequeno e unem as pessoas", diz Renata Schibler, uma oficial suíça da Conferência Europeia das Organizações de Cavalos Árabes, que atua como jurada voluntariamente em exposições de cavalos -- que são basicamente concursos de beleza -- em Israel, onde tanto cavalos israelenses quanto palestinos competem. "Israelenses e palestinos sentados juntos, apreciando os cavalos. É indescritível."

Tareq al-Sheikh, o gerente geral de um clube esportivo para jovens em Jericó que possui uma pista de corrida tamanho oficial, campos de treinamento e estábulos para 97 cavalos, diz que a moda estourou nos últimos 15 anos. Ele calcula que quase 1.000 famílias agora têm cavalos em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia. Outros entusiastas e treinadores dizem que este número está na casa das dezenas de milhares, mas ninguém parece ter números oficiais.

Difícil não notar uma referência à cultura urbana americana. Amir Kartom, 38, que nasceu e cresceu em Chicago mas se mudou recentemente para a Cisjordânia para se juntar à sua família, diz estar criando seu primeiro cavalo com Hamdan, em Turmusaya. "Cara, adoro cavalos, desde o dia em que nasci", diz Kartom em inglês.

Quando menino, Hamdan estudou com Michael Byatt, um conhecido treinador e criador baseado em Houston. Em uma entrevista por telefone, Byatt diz que Hamdan era "um garoto brilhante", lembrando que ele encurralou um cavalo fugitivo em uma apresentação em Kentucky antes que a equipe de Byatt pudesse reagir.

Os cavalos palestinos começaram a chamar a atenção em shows em Israel, diz Eli Kahaloon, que juntamente com sua mulher, Chen Kedar, possui um conhecido estábulo israelense chamado Ariela Arabians.

Kahaloon calcula que dos 165 e poucos cavalos em um show do qual participou no norte de Israel em maio, 60% a 70% eram de propriedade de cidadãos palestinos de Israel. Ele diz que de 10 a 20 cavalos chegaram da Cisjordânia, apesar da complexidade para se obter licenças e passar com eles por postos de controle militar.

Kahaloon diz que na última década ou mais, os palestinos melhoraram muito a qualidade de seus animais ao comprarem cavalos melhores para criação. Na seção VIP das arquibancadas, grupos de criadores israelenses e palestinos se misturam amigavelmente e torcem por seus respectivos cavalos.

A competição "não tem nada a ver com política", diz Mohammad al-Mahdi, um criador de Jenin, no norte da Cisjordânia. "Qualquer um que venha a shows como este adora os cavalos."

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Tradutor: UOL

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