Como o discurso de Melania Trump virou motivo de zombaria

Maggie Haberman e Michael Barbaro*

  • John Locher/AP

Seria o mais importante discurso da vida de Melania Trump, e seu marido Donald queria que ele saísse perfeito. A equipe da campanha de Trump procurou dois competentes redatores de discursos, que ajudaram a escrever falas políticas marcantes como o discurso de George W. Bush à nação em 11 de setembro de 2001, para apresentar ao país Melania Trump, uma ex-modelo eslovena, na noite de abertura da Convenção Nacional Republicana.

Não ocorreu como o planejado, e ele ofuscou boa parte da ação na reunião do partido em Cleveland, onde delegados nomearam formalmente Donald Trump para candidato a presidente. Nesta quarta-feira (20), uma antiga funcionária das Organizações Trump assumiu a responsabilidade por usar dois trechos do discurso feito pela primeira-dama Michele Obama em 2008 para a fala de Melania. Segundo ela, foi um erro inocente.

Meredith McIver, que trabalhou em alguns dos livros de Trump, é a primeira pessoa a assumir publicamente o erro. Ela ficou responsável pelo discurso depois que Melania desprezou a maior parte do texto escrito pelos dois profissionais contratados por Trump.

Os redatores de discurso Matthew Scully e John McConnell haviam enviado um rascunho para Melania Trump no mês passado, ansiosos por sua aprovação. Semanas se passaram, e nada.

Dentro da Trump Tower, revelou-se depois, ela havia decidido que estava desconfortável com o texto e começou a criticá-lo, deixando somente uma pequena fração do original.

Seu plano secreto de se apropriar de um discurso resultou no momento mais constrangedor da convenção: uma cópia palavra por palavra de frases e temas emprestados do discurso de Michelle Obama na convenção democrata oito anos atrás.

A zombaria vinda tanto de democratas quanto de republicanos foi imediata e implacável, perturbando o que era para ter sido o ponto alto da convenção.

Tudo indica que foi uma gafe totalmente evitável, cometida na frente de uma plateia de 23 milhões de telespectadores, que expôs a fragilidade de uma organização que por muito tempo desprezou anteparos de uma campanha presidencial moderna, como o software gratuito que detecta plágio.

"Simplesmente não deveria ter acontecido", disse Matt Latimer, um redator de discursos para a Casa Branca que trabalhou para George W. Bush. "Esse era para ser um discurso fácil e certeiro: uma imigrante atraente e bem-sucedida falando sobre seu marido."

Ninguém parecia mais perplexo do que os Trump, que chegaram à Cidade de Nova York na manhã de terça-feira após um voo vindo de Cleveland, e de repente se viram no centro de uma bizarra polêmica a respeito de autenticidade, plágio e uma questão complicada: por que a mulher do candidato republicano emprestou passagens da mulher do atual presidente democrata?

Melania Trump passou a maior parte de terça-feira sem ser vista, enquanto seu marido expressava sua frustração e raiva ao longo do dia.

Esse relato de como um discurso escrito por profissionais foi transformado na problemática versão proferida na noite de segunda-feira na Quicken Loans Arena se baseou em entrevistas com mais de uma dezena de pessoas envolvidas e próximas da campanha de Trump. Muitas delas falaram sob condição de anonimato para revelar detalhes que deveriam supostamente permanecer confidenciais.

Ele reforça temas dominantes da campanha de Donald Trump que ainda permaneciam das primárias, que sua equipe se esforçou para mudar: uma estrutura de campanha deliberadamente crua, um estilo desleixado e uma confiança nos instintos de um candidato em vez de opiniões de especialistas experientes em política, como Scully e McConnell.

Os dois redatores de discursos originais não estavam a par de quanto o discurso havia sido alterado até que viram Melania Trump pronunciando-o na televisão na noite de segunda-feira, juntamente com o resto do país.

No discurso em horário nobre, ela desdobrou uma série de lições de vida —sobre como "sua palavra é sagrada", sobre "seus sonhos e sua disposição de trabalhar por eles", e a "integridade, a paixão e a inteligência" de seus pais— na mesma sequência e usando boa parte da mesma linguagem que Michelle Obama empregou em 2008. Assim como Obama, Melania Trump explicou como ela queria passar essas lições para seus filhos e para as crianças do mundo. E assim como Obama, ela ofereceu uma diáfana invocação sobre como as aspirações não têm limites quando há determinação.

Em uma série de explicações ainda em andamento, assessores e aliados de Trump minimizaram o episódio como sendo uma distração trivial, alternando entre completa negação de que o discurso tenha usado frases idênticas de Obama e culpando a mídia.

"Noventa e três por cento do discurso é completamente diferente", declarou o governador Chris Christie, de Nova Jersey. Paul Manafort, diretor de campanha de Donald Trump, estabeleceu em 50 o número de palavras suspeitas. "E isso inclui os 'es' e 'os' e coisas do tipo", disse na terça-feira.

Em todo o país, coordenadores de campanha republicanos e redatores de discursos expressaram boquiabertos seu espanto, com impropérios contra o colapso organizacional que permitiu que tal episódio ocorresse.

"É como um cara tentando atravessar um rio a remo, que dá um tiro em seu barco", disse Stuart Stevens, que escreveu discursos para Mitt Romney e sua mulher Ann, durante a campanha de 2012.

Em entrevistas, redatores de discursos republicanos alarmados ressaltaram as fases de uma apuração formal que aparentemente foram ignoradas pela campanha de Trump, tradicionalmente aplicada a quase todo esboço de um grande discurso de convenção. Eles descreveram como é feita a verificação de autenticidade palavra por palavra por parte de uma equipe de especialistas e softwares destinados a detectar plágios. Há vários programas online, como o DupliChecker, disponíveis gratuitamente.

Foi Jared Kushner, genro de Donald Trump e seu principal conselheiro, que encomendou o discurso para Scully e McConnell, tendo elogiado o esboço deles.

Mas Melania Trump decidiu revisá-lo, e em determinado momento ela procurou uma pessoa de confiança: Meredith McIver, uma ex-bailarina da Cidade de Nova York formada em Inglês que trabalhou em alguns dos livros de Donald Trump, incluindo "Think Like a Billionaire" ("Pense como um bilionário").

Aparentemente, ao fazerem pesquisas para o discurso, elas procuraram discursos anteriores de convenções pronunciados por mulheres de candidatos.

A campanha de Trump se negou a dizer quem ou quantos oficiais da campanha haviam lido ou revisado o discurso.

Mas quando Melania Trump e sua equipe terminaram de revisar o discurso, praticamente tudo que havia permanecido do original era uma introdução e uma passagem que incluía a frase "uma campanha nacional única".

Para muitos republicanos, o lapso parecia frustrantemente inevitável vindo de um candidato que não só dispensou os anteparos de uma importante campanha política, como também fez troça deles, chamando-os de desperdício de dinheiro. Seus slogans de campanha, "Estados Unidos em primeiro lugar" e "Torne os EUA incríveis de novo", remetem a Pat Buchanan e Ronald Reagan. Suas imagens nas mídias sociais foram obtidas no Twitter e no Reddit por um assessor que anteriormente gerenciou o clube de golfe de Trump em Westchester.

Os erros foram se acumulando. No último verão, Donald Trump postou no Twitter seu retrato sobreposto a uma foto da Casa Branca e do que depois se revelou como uma imagem de tropas da Waffen-SS, da Segunda Guerra Mundial.

Mas este em especial doeu, em parte porque todos estavam assistindo.

*Yamiche Alcindor, Nicholas Confessore e Ashley Parker contribuíram para esta reportagem.

Assessores de Trump negam plágio de esposa de republicano

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Tradutor: UOL

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