EUA podem eleger primeira mulher presidente com um Congresso só 20% feminino

Declan Walsh

Na Filadélfia (EUA)

  • Aaron P. Bernstein/Getty Images/AFP

Primeiro um presidente negro e agora, talvez, uma mulher. Karen Willis, uma delegada afro-americana na convenção democrata realizada na semana passada, estava empolgada com as possibilidades históricas da eleição de Hillary Clinton, vendo-a como uma sucessão natural aos oito anos de Barack Obama no poder. Mas quando se trata de persuadir os eleitores, ela notou, o feito de gênero de Hillary provavelmente será uma coisa que seu partido minimizará.

"Não queremos ofender alguns dos homens brancos por aí que podem não aceitar muito bem uma mulher presidente", disse Willis, que é de San Diego, citando discussões internas do partido. "Não queremos esfregar na cara deles que ela é uma mulher, assim como não esfregamos na cara deles que Barack Obama é negro. Faz sentido."

À medida que os Estados Unidos dão início a uma campanha presidencial sem precedentes nesta semana, colocando Hillary contra seu adversário republicano, Donald Trump, as sensibilidades das políticas de gênero do país estão fervilhando. Os americanos se veem confrontados com uma pergunta desconfortável: eles estão realmente prontos para aceitar uma mulher presidente?

O otimismo elevado do discurso de Hillary para seu partido na Filadélfia, com promessas de quebrar o mais alto teto de vidro do mundo, tem como pano de fundo uma disputa notável por seu discurso misógino.

Preconceitos casuais antes reservados para vestiários ou balcões de bar foram projetados em voz alta para um palco nacional, principalmente no palanque de Trump, que descreveu de forma variada as mulheres como porcas gordas, cadelas e desajeitadas, além de culpar seus ciclos menstruais pelas críticas contra ele. Em particular, ele acusou Hillary de explorar a "carta da mulher".

Além das imprecações imaturas de Trump, o ambiente bilioso chama atenção para a questão mais séria do histórico dos Estados Unidos de colocar mulheres em posições de poder.

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Poder e sucesso

A cultura popular americana celebra mulheres que combinam poder e sucesso, como Sheryl Sandberg, a executiva do Facebook cujas prescrições para equilibrar uma carreira de alto poder com a vida familiar são recebidas com grande solenidade. No governo, os diplomatas americanos monitoram os direitos humanos em outros países e se manifestam abertamente contra abusos escandalosos envolvendo mulheres, como ataques com ácido e assassinatos em nome da honra, em países pobres.

Mas, apesar do progresso em relação à igualdade de gênero nas últimas décadas, as mulheres lutam para obter remuneração ou senioridade igual a dos homens com qualificação equivalente no meio corporativo, até mesmo em bastiões liberais como Hollywood.

A desigualdade é mais notável na política. Após um aumento de mulheres eleitas ao Congresso no início dos anos 90, os índices estagnaram ou retrocederam. No momento, 20% dos deputados e senadores são mulheres, abaixo da meta de 30% estabelecida por uma conferência das Nações Unidas sobre mulheres.

O Fórum Econômico Mundial, em seu mais recente relatório de Desigualdade de Gênero Global, classificou os Estados Unidos em 72º lugar dentre 145 países em empoderamento político feminino, atrás de países como Cuba, Cabo Verde e Quênia.

Em parte, dizem os especialistas, o sistema americano é culpado. O processo de indicação dos candidatos presidenciais, com suas campanhas longas e ruinosamente caras, é mais difícil para candidatos não convencionais do que no sistema parlamentar de muitos países. E os políticos americanos são contrários a quotas, que ajudaram a aumentar a participação feminina em outros países.

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Bem-sucedidas em Washington 

Broches e camisetas ridicularizando Hillary em termos obscenos ou usando ofensas sexuais são comuns nos comícios de Trump. Mas as mulheres que foram bem-sucedidas em Washington também apontam para um chauvinismo masculino profundamente enraizado como um obstáculo poderoso para o sucesso. Madeleine Albright, a primeira mulher secretária de Estado dos Estados Unidos, lembrou em uma entrevista como costumava encontrar mais resistência por parte dos colegas americanos do que dos chefes de Estado árabes sobre os quais foi alertada.

"Era nas coisas pequenas", ela disse. Quando ela erguia sua voz nas reuniões, "os homens diziam: 'Não seja tão emotiva', ou ficavam batendo seus dedos na mesa e diziam que eu estava falando por tempo demais, quando na verdade os homens falavam muito mais". Posturas semelhantes persistem até hoje, dizem mulheres poderosas. 

Shamila N. Chaudhary, uma ex-funcionária do governo Obama atualmente no New America, um centro de estudos em Washington, disse que tinha atritos todo dia no trabalho com subordinados do sexo masculino. "As pessoas não gostam de ter mulheres como líderes", ela disse. "Elas ficam furiosas. Sempre era meu comportamento ou meu tom. Eu lhes dizia que estava apenas tentando fazer com que o trabalho fosse feito."

Políticos do sexo feminino de outros países esperam que um governo Hillary Clinton também estabeleça um exemplo para eles. Joyce Laboso, a vice-presidente do Parlamento do Quênia, que esteve na Filadélfia nesta semana, disse que acompanhou a campanha de Hillary com uma mistura de inveja e empatia.

Em casa, ela também tem que suportar as provocações de homens que questionam sua adequação para concorrer à cadeira, ou que diziam que ela tinha o marido errado para o cargo (apesar de, no caso dela, ser porque seu marido é de outro grupo étnico). "Os homens dizem que posições de autoridade estão fora de nossa esfera", ela disse. "Mas se Hillary se tornar presidente, esse mito será despedaçado."

Os conselheiros de Hillary debatem o quanto devem se concentrar na questão do gênero nos próximos meses. Muitos veem paralelos com o equilíbrio delicado de 2008, quando o partido buscou tranquilizar alguns eleitores a respeito de Obama. Willis, a delegada, conta que lhe disseram, na época, que "não podemos tornar raça uma questão, porque há algumas pessoas lá fora que não aceitariam isso muito bem".

Mas na Filadélfia, ao menos, Hillary fez por merecer seu feito histórico. Sua primeira aparição, em um telão, a mostrou cercada por cacos de um teto de vidro quebrado. Durante os discursos, alguns delegados, tanto homens quanto mulheres, choravam abertamente.

"É o final de uma longa luta", disse o deputado John Lewis, um defensor dos direitos civis da Geórgia, para a "MSNBC" pouco antes de Hillary ser oficialmente confirmada como candidata do partido. "Eu chorei quando Barack Obama foi nomeado, chorei quando ele foi eleito, chorei quando ele tomou posse. E acho que vou chorar de novo esta noite."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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