Para soldados muçulmanos nos EUA, serviço militar virou campo minado cultural

Dave Philipps

  • Zach Gibson/The New York Times

    Nazim Abdul Karreim e integrantes da Associação de Veteranos Muçulmanos Americanos

    Nazim Abdul Karreim e integrantes da Associação de Veteranos Muçulmanos Americanos

Quando Donald Trump disse que pensaria em obrigar os muçulmanos nos EUA a portar carteiras de identidade especiais, Tayyib Rashid pegou sua carteira e tirou sua identidade militar, então publicou na rede uma foto dela, acrescentando:

"Ei, @realDonaldTrump, sou um muçulmano americano e já tenho uma identidade especial. Onde está a sua?"

Agora, Rashid, que serviu durante cinco anos na infantaria do Corpo de Fuzileiros Navais, sendo mobilizado três vezes, ficou novamente indignado com Donald Trump.

Desta vez é por causa dos comentários insultantes do candidato presidencial republicano sobre Khizr e Ghazala Khan, pais de um capitão do Exército que foi morto por um carro-bomba no Iraque em 2004, que criticaram as políticas propostas por Trump para os muçulmanos na Convenção Nacional Democrata.

O episódio "trouxe lágrimas aos meus olhos", disse Rashid. "Estas pessoas sacrificaram seu próprio filho, seu próprio sangue."

Mas, segundo ele, sua raiva é temperada por sua própria experiência com os militares, onde as pessoas eram de modo geral simpáticas e colaborativas.

"Eu só experimentei amor e camaradagem de todos os fuzileiros com quem servi", disse Rashid, que entrou para o corpo em 1997. "Com frequência eu era o primeiro muçulmano que muitos deles conheciam, mas não havia racismo, nem preconceito. Realmente não importa sua fé: éramos todos fuzileiros em primeiro lugar."

Mas, como Rashid reconhece, os muçulmanos entre os militares enfrentam vários desafios. Por exemplo, 15 anos de guerra em países muçulmanos fizeram que o serviço militar se tornasse um campo minado cultural. Entre alguns soldados não muçulmanos, o próprio islamismo, e não o extremismo, é muitas vezes considerado o problema.

Em entrevistas, soldados muçulmanos disseram que encontraram em algum momento o que um deles chamou de comentários "idiotas", comparando-os a terroristas. As coisas pioraram depois que 13 pessoas foram mortas em Fort Hood em 2009 por um psiquiatra muçulmano do Exército que disse que as guerras americanas no Iraque e no Afeganistão foram guerras contra todos os muçulmanos.

Outros problemas vêm das barreiras culturais, como a proibição da barba e a alimentação militar, que com frequência é cheia de carne de porco, proibida pelo islã. Poucas bases têm serviços de orações muçulmanos, e só cinco dos cerca de 2.900 capelães do Exército são muçulmanos.

"Pode ser desafiador", disse Rashid, cuja família emigrou do Paquistão quando ele tinha 10 anos. "A natureza do serviço militar não é muito fácil para praticar sua fé, mas o islã é flexível."
"Estou aqui como um americano", acrescentou ele. "Eu me beneficio da liberdade e da oportunidade deste país, e é minha obrigação servir a esta nação de alguma forma."

Milhares de muçulmanos serviram às Forças Armadas desde pelo menos a Guerra Civil, mas eles são uma porcentagem muito pequena da força. Apenas 3.939 soldados atualmente citam o islã como sua religião, segundo dados do Pentágono. Eles formam somente 0,3% dos militares. Os muçulmanos seriam cerca de 1% da população civil. Seus números são tão pequenos que alguns fizeram toda a sua carreira sem encontrar outro muçulmano de uniforme.

Na Europa, alguns países tomaram medidas para incentivar os muçulmanos a se alistarem. O Exército britânico, que tem uma participação igualmente baixa de muçulmanos, lançou dois anos atrás uma iniciativa de recrutamento, o Fórum Muçulmano das Forças Armadas. As forças permitem o jejum durante o Ramadã e fazem acomodações para as orações diárias, montando salas especiais nas bases e recentemente acrescentando uma em um navio de guerra.

O Pentágono não registra quantos muçulmanos morreram em combate desde 2001, mas eles serviram em todas as forças --como oficiais, tropas de combate, intérpretes e coletores de informação.

Alguns dizem que a vida entre os militares ficou mais dura depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

"Depois do 11 de Setembro realmente comecei a notar uma mudança", disse Mansoor Shams, que nasceu no Paquistão e serviu nos fuzileiros navais de 2000 a 2004. "Alguns caras fizeram comentários negativos, às vezes meio brincando, chamando-me de talibã. Eu decidi cortar pela raiz e a maioria deles compreendeu."

Embora seja fácil não perceber, a cultura muçulmana tem uma firme pegada nos militares, disse o comandante Abuhena Saifulislam, um capelão que serve como imã na Marinha e nos Fuzileiros Navais, emprego que tem há 20 anos. Toda sexta-feira, disse ele, um imã faz orações no Pentágono, e ele puxa as rezas diariamente em Camp Lejeune, na Carolina do Norte, onde está estacionado.

Saifulislam foi convidado para conduzir orações na Casa Branca pelos presidentes George W. Bush e Barack Obama. Em sua última visita, durante o feriado muçulmano de Eid al-Fitr, ele entrou na Casa Branca com um muçulmano de 95 anos que havia lutado na Segunda Guerra Mundial.

"Estive no Afeganistão muitas vezes", disse. "Eu conto para eles como nós muçulmanos vivemos nos EUA. E fiz ótimos relacionamentos."

Saifulislam supervisionou a construção de uma mesquita em Camp Lejeune, com entradas separadas para homens e mulheres. E em sua longa carreira nos militares ministrou para muito mais cristãos que muçulmanos, sem nunca encontrar uma reação negativa.

"Quando eu era jovem, vim para cá de Bangladesh sem família", disse ele. "E de muitas maneiras os militares se tornaram minha família. Eu não teria ficado 20 anos se não me sentisse aceito."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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