Cidades pequenas da Toscana discutem fusão, e comunidades temem perda de identidade

Gaia Pianigiani

Em San Giovanni d'Asso (Itália)

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

    7.ago.2016 - Forte na cidade italiana de Montalcino, na Toscana

    7.ago.2016 - Forte na cidade italiana de Montalcino, na Toscana

Duas pequenas cidades no sudeste da Toscana, uma famosa pelo vinho tinto, outra pelas trufas e grãos orgânicos, estão considerando um casamento municipal de conveniência que mesclaria suas prezadas identidades, formadas de forma separada ao longo de séculos. 

Com uma população de apenas 853, San Giovanni d'Asso não consegue mais fornecer serviços básicos diariamente aos seus cidadãos. Com apenas três funcionários para realizar o trabalho, algo tão simples como tirar uma carteira de identidade exige um agendamento com dias de antecedência. 

Assim o prefeito da cidade, Fabio Braconi, pegou o telefone em 2014 e pediu ajuda de uma cidade vizinha, Montalcino, a 16 quilômetros ao sul, cruzando plantações de trigo. 

Lar do famoso vinho tinto Brunello, Montalcino é mais próspera e consideravelmente maior. Mas com sua população de 5.070 em declínio, ela também poderá ter dificuldades para fornecer os serviços municipais. 

Assim, San Giovanni d'Asso e Montalcino estão considerando a opção de ambas desaparecerem legalmente, ao se fundirem em uma nova cidade. 

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Prefeitos Fabio Braconi (San Giovanni d'Asso) e Silvio Franceschelli (Montalcino)

É uma escolha que cidades por todo o país estão enfrentando. Por anos, a Itália, composta de 8.000 cidades minúsculas, médias e grandes, está pressionando suas comunidades menores a juntarem forças. 

Para conter as despesas, cidades com menos de 5.000 habitantes há anos são obrigadas a compartilhar serviços com comunidades vizinhas ou se fundirem em uma cidade maior, e estão limitadas na contratação de novos funcionários até que o façam.

Para encorajar ainda mais as cidades a se fundirem ou compartilharem serviços, o governo do primeiro-ministro Matteo Renzi aprovou uma legislação em 2014 oferecendo incentivos econômicos e procedimentos simplificados de contratação para as cidades que o fizerem.

Apesar dessas fusões trazerem a perspectiva de serviços melhores, muitas comunidades também as veem como uma perda da identidade local, um sentimento que é crucial para muitos italianos, especialmente na Toscana rural, onde a paisagem às vezes ainda lembra a da Idade Média.

"Estou ligado ao meu brasão, não me entenda mal", disse Braconi, referindo-se ao brasão da cidade, enquanto estava sentado em seu gabinete, que fica em um castelo do século 12 com vista para as colinas amarelas de trigo. 

"Mas sabia que precisávamos de um projeto mais radical", ele disse, um que permitiria à cidade oferecer serviços administrativos todos os dias da semana. 

San Giovanni d'Asso tentou antes compartilhar a força policial e transporte público com outras cidades. Quando esses arranjos deixaram de ser interessantes para as cidades parceiras e terminaram em 2014, a cidade se viu isolada, disse Braconi, com população em declínio e menos funcionários públicos. 

Por décadas, a comunidade rural tem perdido moradores, escolas e serviços de saúde e transportes à medida que as pessoas se mudam para as grandes cidades. 

Mas a cidade conta com ativos consideráveis. Ela ainda possui recursos agrícolas invejáveis (trufas, uvas, azeite de oliva e uma grande produção de grãos orgânicos) e o turismo cresceu, com 38.900 visitantes em 2015. 

"Precisamos construir o futuro aqui, ou até mesmo nossos filhos nos deixarão", disse Braconi, que tem uma filha na faixa dos 20 anos. "Não podemos continuar olhando para o passado." 

Para discutir a possível fusão, Braconi realizou várias reuniões com o prefeito de Montalcino, Silvio Franceschelli. Os dois também se reuniram com o governo regional da Toscana e com os moradores. 

As comunidades votarão em outubro em um referendo sobre se desejam a fusão. Montalcino conseguiu manter duas exigências na mesa: a nova cidade usaria seu brasão e manteria seu nome, associado ao famoso vinho. 

Franceschelli, o prefeito de Montalcino, descreveu a fusão potencial como um ato de autodeterminação. 

"Alguns cidadãos me perguntam se perderemos a independência", disse Franceschelli. "Mas para mim, a independência está na ação. Podemos tomar decisões e fazer investimentos ou não? Devemos esperar pelo governo algum dia nos forçar a nos fundir com outra cidade ou escolher com quem queremos nos unir?" 

Mas nem todos concordam com a ideia. 

"O risco é de que San Giovanni d'Asso reste apenas como um subúrbio de Montalcino", disse Michele Boscagli, um ex-prefeito da cidade e atual presidente da Associação Nacional das Cidades de Trufas. "Isto é, ela perderá poder na tomada de decisões, investimentos e futuros projetos, o que não é pouco para uma comunidade pequena como a nossa." 

Apesar de 2.489 cidades agora compartilharem serviços na Itália, apenas 202 decidiram formalmente se fundir em novas municipalidades. Algumas regiões, como a ilha da Sardenha, criaram grandes áreas administrativas, reunindo vários vilarejos. Outras, como Piemonte, no norte, que conta com muitas cidadezinhas espalhadas por suas colinas e montanhas, mantiveram suas divisas tradicionais. 

A questão é significativa em um país onde mais de 10 milhões de italianos vivem em cidades pequenas, e mais da metade do território é controlado por administradores locais, segundo um estudo recente pela Associação Nacional das Municipalidades Italianas. 

"O problema não é o número de municipalidades", disse Daniele Formiconi, que dirige o departamento de cidades pequenas da associação. "O desafio é como organizar a governança de uma administração local moderna e funcional, para compartilhar recursos de modo a economizar o dinheiro do contribuinte e ir além da mentalidade de cidade pequena." 

Os moradores de Montalcino e San Giovanni d'Asso terão que decidir em breve se é melhor continuarem por conta própria ou unir forças. 

"Eu ouço algumas pessoas mais velhas que não gostam da ideia da fusão com Montalcino, de perder alguns poderes, mas vejo esta mudança como algo bom", disse Paola Cerretani, 60 anos, uma moradora de San Giovanni d'Asso que costumava dirigir cerca de 50 quilômetros por dia para ir ao trabalho, por não querer se mudar de sua cidade natal. 

"Montalcino nos dará mais visibilidade", ela disse. "Temo mais a alternativa de eventualmente desaparecermos."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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