Resgatadas do Boko Haram, mulheres são presas com seus filhos pelo Exército da Nigéria

Dionne Searcey

Em Maiduguri (Nigéria)

  • Jane Hahn/The New York Times

Já se passou mais de um mês e Dije Ali ainda está trancada em uma prisão militar com seus sete filhos.

Ela achou que estava sendo levada para um lugar seguro. Sua família e outros aldeões contavam com pouca comida e temiam a chegada do Boko Haram. Eles correram na direção dos soldados nigerianos em busca de proteção.

"Entrem no veículo", Ali lembrou dos soldados lhes dizerem.

Mas em vez de serem levados para liberdade, ela disse, sua família foi parar em um centro de detenção militar com 130 outras mulheres e seus filhos, sem saber quando serão soltas ou por que estão lá.

"Não sei o que fiz de errado", ela disse. "Apenas rezo a Deus para que nos tire daqui."

No nordeste da Nigéria, os soldados estão travando uma batalha brutal contra o Boko Haram, o grupo extremista islâmico que aterroriza a região há anos com sua campanha de assassinato, sequestro, estupro e pilhagem.

Mas em sua caçada agressiva aos combatentes do Boko Haram, os militares nigerianos prenderam e mantêm detidos um grande número de civis, incluindo bebês e crianças pequenas, por semanas ou meses. E às vezes, dizem ativistas, nunca mais se tem notícias de pessoas inocentes.

Quase 150 pessoas morreram neste ano em apenas um dos centros de detenção, o quartel Giwa, onde Ali estava detida com sua família, segundo a Anistia Internacional.

Onze dos mortos eram crianças com menos de 6 anos, incluindo quatro bebês, ela disse. A prisão contava há poucos meses com 1.200 pessoas detidas, com pelo menos 120 delas crianças, relatou a Anistia.

"Muitas foram arbitrariamente detidas durante detenções em massa", disse o grupo, "com frequência sem nenhuma evidência contra elas".

A Nigéria, que nega as alegações, não é o único país na região criticado por ir longe demais na luta contra o Boko Haram. Camarões é acusado de deter 1.000 suspeitos de apoiarem o Boko Haram, muitos presos arbitrariamente, em condições terríveis que fizeram com que alguns morressem de doenças e desnutrição.

Os militares nigerianos dizem que detêm pessoas que suspeitam ser simpatizantes do Boko Haram, incluindo pessoas que foram sequestradas, para eliminar qualquer um que possa ser perigoso.

As autoridades têm motivo para suspeitar: o Boko Haram consegue transformar prisioneiros em homens-bomba, inclusive crianças de apenas 8 anos. Mães, meninos, meninas e outros terroristas suicidas mataram centenas de pessoas, atacando multidões em mercados, escolas e até mesmo em campos para pessoas que abandonaram seus lares para fugir da violência do Boko Haram.

"Interrogar suspeitos é um processo longo", disse o coronel Sani Kukasheka Usman, um porta-voz do Exército, explicando as detenções. "É melhor demorar para avaliá-los do que permitir ue um único terrorista saia livre e execute um atentado suicida."

Usman disse que as Forças Armadas seguem "as melhores práticas internacionais" e tem farejado os terroristas do Boko Haram durante as avaliações.

"Não há ninguém, nenhum Exército no mundo que esteja respeitando a lei da forma como estamos fazendo", disse Usman.

Mas especialistas acusam os militares nigerianos de violarem as leis domésticas e internacionais no processo. Os militares não têm autoridade para deter civis segundo a lei nigeriana, argumentou Femi Falana, um advogado de direitos humanos em Lagos. Outros críticos citaram um longo padrão de abuso por parte dos militares.

"Não importa como o governo nigeriano busque justificar o tratamento abusivo aos detidos que foram libertados do controle do Boko Haram, seus direitos individuais parecem ser grosseiramente violados", disse David Scheffer, um ex-embaixador americano para assuntos de crimes de guerra. "Esse fracasso de prestação de contas, que persiste há anos, paira sobre o governo nigeriano como uma espada de Dâmocles."

Mas o novo presidente do país, Muhammadu Buhari, um ex-general do norte, foi eleito há mais de um ano após prometer limpar as Forças Armadas. De lá para cá, as forças nigerianas conseguiram avanços na remoção do Boko Haram de seus redutos nas aldeias remotas.

No mês passado, os militares resgataram 80 mulheres e crianças prisioneiras do Boko Haram, e as autoridades adotaram uma crescente bravata a respeito de suas vitórias contra o grupo. O general de Exército Abdulrahman Dambazau, ministro do Interior, disse recentemente que a guerra contra o Boko Haram, no nordeste do país, "está sendo travada e vencida".

"As vítimas estão aos poucos voltando para seus lares, e o governo está reconstruindo, reconciliando e reabilitando as vítimas", ele disse.

Mas o Boko Haram mantém controle sobre muitos bolsões na região, até mesmo algumas áreas que já tinham sido livradas de combatentes. As mais de 200 alunas escolares sequestradas da aldeia de Chibok, cuja abdução inspirou a campanha #BringBackOurGirls (Tragam de volta nossas meninas), ainda continuam reféns após mais de dois anos. O Boko Haram as exibiu em um vídeo recente, dizendo que algumas das meninas foram mortas nos ataques aéreos dos militares nigerianos, uma alegação que as autoridades negaram.

Na guerra caótica contra o Boko Haram, determinar quem é vítima e quem é simpatizante pode ser complicado.

O Boko Haram com frequência mata os homens jovens e meninos que se recusam a se juntar à insurreição, o que leva os soldados a acreditarem que os homens em idade de combate encontrados vivos possam ser militantes.

Algumas das mulheres e meninas capturadas pelo Boko Haram enfrentam a morte a menos que concordem em se "casar" com os combatentes, um termo usado com frequência aqui para descrever o estupro que suportam. Muitas das meninas são adolescentes. Algumas não chegam nem mesmo a 10 anos de idade. Algumas das mulheres capturadas ficam grávidas dos combatentes.

Muitas pessoas no nordeste da Nigéria, não apenas soldados, veem qualquer um que tenha sido capturado pelo Boko Haram com profunda suspeita, temendo que possam ter se deixado convencer pela interpretação violenta do Islã do grupo.

Assim, em áreas como Maiduguri, local de nascimento do Boko Haram, onde os moradores testemunharam os horrores causados pelos militantes, as detenções contam com alguns apoiadores inesperados.

"Essas mulheres podem matar", disse Ann Darman, diretora do Centro para Paz e Desenvolvimento da Igualdade de Gênero, em Maiduguri. "Elas estão acostumadas a matar pessoas. As comunidades não podem acolher essas pessoas antes de serem afastadas do radicalismo."

Zainab Muhammed disse que viajou recentemente até sua aldeia natal achando que estava segura do Boko Haram. Não estava, e ela e 30 outras mulheres e seus filhos acabaram sendo capturados pelos combatentes do grupo.

Três meses depois, os militares nigerianos invadiram: "Eu achei que estava sendo libertada", disse Muhammed, que tem sete filhos.

Mas em vez disso, os soldados levaram o grupo para uma prisão federal. "Foi minha primeira vez na prisão", ela disse. "Nunca estive em uma cadeia."

Por cinco noites, as mulheres e crianças dormiram em uma única cela trancada. Por cerca de duas horas por dia, os militares interrogavam as mulheres uma a uma. Você conhece os meninos do Boko Haram? Qual é seu relacionamento com eles? É mulher de um combatente?

"Eu lhes disse que não e eles acreditaram em mim", disse Muhammed.

No sexto dia, ela e seu grupo foram soltos e levados a um campo de refugiados. Ela está lá desde o início de junho. Mas outras mulheres que conheceu na prisão foram deixadas para trás, ela disse, juntamente com seus filhos.

"Talvez não tenham acreditado nelas", ela disse.

Entrevistas com detidos e funcionários do centro de detenção revelam um padrão de confinamento prolongado, intercalado por horas de interrogatório.

As pessoas consideradas como sendo militantes costumam permanecer presas, ou podem se render a um programa dos militares de "desradicalização", que conta com cerca de 900 participantes.

Geralmente, as mulheres são interrogadas, mas homens e meninos são interrogados mais intensamente. Se demonstram alguma resistência, suas pernas e mãos são acorrentadas diante deles, segundo um funcionário que não estava autorizado a falar publicamente.

O funcionário disse que não viu ninguém ser seriamente ferido no processo e que os detidos recebem comida, água e acesso a atendimento médico.

Ali, a mãe que descreveu sua detenção no quartel Giwa com seus sete filhos, disse que foi tirada da cela apenas duas vezes, uma vez no dia em que ela chegou e a outra no dia em que foi solta.

Ela foi levada até a sombra de uma árvore para perguntas para determinar sua ligação com o Boko Haram. Toda vez, ela disse, ela falou aos soldados que era contrária aos militantes que tomaram a região. Após cinco semanas, ela disse, eles a soltaram com seus filhos, sendo que o mais novo ainda está mamando no peito.

O marido dela é mantido em outra parte da instalação, longe de sua família. Durante sua detenção, Ali disse que o vislumbrou por uma pequena janela da cela enquanto ele era levado para interrogatório. Ela não tem notícias dele desde então.

"Estou deixando nas mãos de Deus", Ali disse em um campo para 8.000 outros deslocados, todos aguardando até que suas aldeias estejam seguras o bastante para voltarem para casa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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