As pessoas comuns que se tornaram heróis nos atentados terroristas

Alissa J. Rubin*

Em Nice (França)

  • Valery Hache/ AFP

    18.jul.2016 - Pessoas observam homenagens às vítimas do atentado terrorista em Nice

    18.jul.2016 - Pessoas observam homenagens às vítimas do atentado terrorista em Nice

Os ataques terroristas na França ocorrem com tal frequência que podem parecer variações de um padrão doloroso: chacina seguida de descrença, depois condenações, condolências e santuários com flores, velas e cartas aos mortos.

Mas ver os ataques só dessa maneira é não valorizar o único elemento que poderia animar o espírito nacional: em quase todos os episódios terroristas aqui, indivíduos comuns arriscaram a própria segurança para tentar conter o ataque ou ajudar os feridos, em vez de saírem correndo. Alguns desses heróis locais são reconhecidos imediatamente, mas outros nunca recebem reconhecimento e alguns, só muito tempo depois.

"O que eu vi era horrível, pessoas esmagadas --aquilo tinha de ser contido", disse um homem de 48 anos chamado Franck, que não quis dar seu sobrenome mesmo depois que foi condecorado pela cidade de Nice por seu esforço para deter o motorista do caminhão que atropelou dezenas de pessoas em 14 de julho, quando se comemorava o Dia da Bastilha.

Funcionário do aeroporto de Nice, Franck, que estava em uma motoneta, decidiu em uma fração de segundo perseguir o caminhão, e quando o alcançou investiu contra ele --sem sucesso-- e foi derrubado. Ele se levantou e correu atrás do caminhão, conseguiu subir no estribo e começou a socar o motorista pela janela aberta. Quando o motorista, Mohamed Lahouaiej Bouhlel, tentou atirar em Franck, sua arma falhou, e ao mesmo tempo Franck tentou abrir a porta do caminhão, depois quis entrar pela janela, mas o motorista o golpeou com a arma na cabeça e ele caiu, quebrando uma costela e ferindo gravemente as costas.

Franck disse que ficou satisfeito porque enquanto o motorista lutava com ele não atropelava mais pessoas. "Ele se concentrou em mim; naquele momento não pôde matar pessoas", afirmou.

Atentado em Nice: veja como aconteceu o ataque com caminhão

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Pelo menos dois outros homens fizeram esforços semelhantes, embora menos prolongados, e também receberam medalhas da cidade: Alexander Migues perseguiu o caminhão numa bicicleta e Gwenael Leriche, um entregador de 26 anos, correu atrás do veículo armado de um canivete e tentou saltar no estribo quando o caminhão parou.

Eles não foram os únicos. Quase todo ataque ou tentativa de ataque na França, desde o assalto à revista humorística "Charlie Hebdo", em 7 de janeiro de 2015, produziu heróis locais.

Lassana Bathily, um imigrante muçulmano do Mali, escondeu clientes no porão de uma loja de alimentos kosher perto de Paris dois dias após o ataque à revista; depois os retirou às escondidas enquanto o terrorista Amedy Coulibaly mantinha reféns no andar de cima.

Em Villejuif, em abril do ano passado, uma instrutora de ginástica e mãe, Aurélie Châtelain, 32, recusou-se a entregar seu carro a Sid Ahmed Ghlam, que, segundo as autoridades, pretendia atirar contra um grupo de pessoas em uma igreja de subúrbio. A recusa fez que ambos lutassem e fossem feridos a tiros, mas ela morreu. Quando Ghlam chamou a polícia e pediu socorro, foi preso; continua na cadeia e afirma que não atirou em Châtelain.

Ela recebeu a condecoração Légion d'Honneur postumamente, pois sua família e amigos indicaram que se os que detiveram um homem que pretendia atacar no trem de alta velocidade Thalys, que ia de Amsterdã a Paris, receberam a maior honraria da França, Châtelain também a merecia.

A tentativa de ataque ao trem ocorreu há quase exatamente um ano, quando um homem sem camisa saiu do banheiro de um trem com um rifle de assalto Kalashnikov e uma pistola Luger. Três americanos que o detiveram foram condecorados pelo presidente francês, juntamente com um britânico e um franco-americano, Mark Moogalian, que foi o primeiro a agarrar o atirador, Ayoub El Khazzani; Moogalian levou um tiro, mas sobreviveu. A intervenção dos três impediu o que poderia ter sido uma chacina.

Em 13 de novembro, quando extremistas ligados ao Estado Islâmico atacaram um teatro, um estádio e restaurantes em Paris e arredores, diversas pessoas fizeram esforços extraordinários para ajudar-se mutuamente. Uma delas foi Ludovic Boumbas, 40, de ascendência congolesa, morador de Lille e que comemorava o aniversário de uma garçonete no bar-café La Belle Equipe, quando homens armados começaram a disparar contra os convivas. Ele saltou na frente de uma jovem que estava na festa e foi ferido fatalmente; ela se feriu, mas sobreviveu.

Atentados em Paris em novembro de 2015

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Mais recentemente, em julho, a freira Danielle Delafosse superou seu medo depois que terroristas entraram em uma pequena igreja em St.-Étienne-du-Rouvray, em Rouen, França, com a intenção de matar os fiéis. Ela saiu correndo da igreja, encontrou alguém com um telefone e pediu que chamasse a polícia, que chegou tarde demais para salvar o padre Jacques Hamel, 85, que foi morto, mas talvez a tempo de evitar uma chacina maior.

Enquanto o heroísmo que chama a atenção muitas vezes é do tipo que põe em risco a vida ou a saúde do próprio herói, muitos que agiram de formas menos visíveis também transcendem o momento. Eles reagiram com uma extraordinária dedicação para ajudar os feridos em circunstâncias que muitos considerariam avassaladoras. Em Nice, estes incluíram médicos, técnicos de raios-X, enfermeiros e bombeiros que trabalharam horas e horas tratando os feridos ou tentando reunir crianças perdidas a suas famílias.

Houve também Gilles Thévenet, dono do High Club, uma discoteca popular em Nice que dá frente para a Promenade des Anglais, que rapidamente transformou sua boate em um centro de triagem para os profissionais de emergência.

Thévenet estava em seu escritório nos fundos do prédio, alheio à carnificina causada pelo caminhão, quando seus seguranças entraram correndo e ele foi até a porta. "Ouvimos o choro e os gritos, vimos a multidão", disse ele.

"Eu compreendi que precisava escolher. Não podia abrir a porta para a multidão de pessoas e para os que davam primeiros socorros, então decidi que a prioridade era para os feridos, fazer o máximo pelos socorristas que tentavam salvar quem fosse possível", explicou.

Em minutos, os bombeiros e os socorristas começaram a carregar os feridos --e os mortos-- para a boate, para tirá-los do passeio, onde havia uma confusão de pessoas correndo, gritando e caindo. Logo dois helicópteros médicos pousaram na frente da discoteca, onde os profissionais de socorro faziam a triagem, e os feridos mais graves foram levados de helicóptero para hospitais próximos.

Alguns seguranças de Thévenet, que tinham treinamento em primeiros socorros, trabalharam junto com os socorristas. Uma sala da boate foi reservada aos mortos.

Thévenet não tem certeza de quando --ou mesmo se-- os negócios vão melhorar, especialmente porque muitos em Nice sabem que os mortos e feridos ficaram deitados em fileiras no mesmo piso onde eles estariam dançando. Mas ele acredita que sim.

"Teremos de redescobrir o clima de festa que foi nossa proteína durante 11 anos", disse. "Está fora de questão ceder aos terroristas."

O ataque ao "Charlie Hebdo"

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*Lilia Blaise colaborou na reportagem, de Nice.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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