Avalanche de votos para Hillary contra Trump? Não será tão fácil assim

Jeremy W. Peters e Giovanni Russonello

  • Aaron P. Bernstein/Getty Images/AFP

    27.jul.2016 - Hillary discursa em vídeo durante a convenção nacional democrata

    27.jul.2016 - Hillary discursa em vídeo durante a convenção nacional democrata

Depois de se autoinfligir danos durante semanas, Donald Trump viu o apoio a sua candidatura nas pesquisas nacionais cair para a faixa dos 30% --território de Barry Goldwater e Walter Mondale--, enquanto Hillary Clinton expandia sua liderança para dois dígitos em vários dos cruciais Estados "oscilantes".

É hora de declarar uma avalanche, certo? Não tenha pressa.

A votação poderá ser mais favorável a Trump do que sugerem os prognósticos de pior cenário, por um motivo muito simples: na verdade, não acontecem mais avalanches nas eleições presidenciais.

Faz 32 anos que um presidente ganhou o voto popular por uma porcentagem de dois dígitos. Foi em 1984, quando Mondale sofreu uma derrota de 18 pontos percentuais para Ronald Reagan. Foi também a última vez que houve uma 'avalanche' entre os Estados, com Mondale ganhando apenas em Minnesota e no Distrito de Colúmbia.

Há diversos fatores hoje que podem impedir um candidato de obter as enormes maiorias de 60 pontos ou mais que levaram Franklin D. Roosevelt ao cargo em 1936, Lyndon B. Johnson em 1964 e Richard M. Nixon em 1972.

O país está fragmentado demais e sua temperatura política aquecida demais para que uma pessoa surja como opção de consenso para algo que se aproxime de dois terços do eleitorado. E esse clima levou os partidos políticos a se tornarem muito mais uniformes ideologicamente do que costumavam ser.

"A maior diferença entre hoje e, por exemplo, 1936 ou 1964 é a composição dos dois partidos", disse Jonathan Darman, autor do livro "Landslide: LBJ and Ronald Reagan at the Dawn of a New America" [Avalanche: Lyndon Johnson e Ronald Reagan na aurora de uma nova América]. A identificação partidária costumava ser mais fluida, tornando menos difícil para os eleitores partidários aceitarem apoiar alguém de afiliação oposta.

"Os partidos Republicano e Democrata eram muito mais heterogêneos que os partidos que temos hoje", acrescentou Darman. "A identificação partidária tinha muito mais a ver com laços regionais e tradições familiaresdo que ideologia."

De comum, só a faixa etária; veja diferenças entre Hillary e Trump

  •  

Dados mostram que a votação cruzada é muito menos provável hoje. Noventa por cento dos republicanos e dois terços (66%) dos independentes veem Hillary de modo desfavorável, segundo a mais recente pesquisa McClatchy/Marist.

E muitos desertores de Trump estão preferindo votar em candidatos de outros partidos, o que também contribuiu para a incapacidade de Hillary romper a barreira dos 50% na maioria das pesquisas nacionais. (Em suma, os candidatos de outros partidos se aproximam de 15% dos votos, indicando uma firme insatisfação pelos candidatos dos dois partidos principais.)

Segundo Amy Mitchell, diretora de pesquisa jornalística no Centro de Pesquisas Pew, cerca de 20% dos eleitores hoje têmcrenças políticas que os situam nos polos ideológicos de seus respectivos partidos --número que duplicou de 2004 a 2014. E essas pessoas tendem a reforçar mutuamente suas opiniões.

"Os que estão nas extremidades do espectro político têmmaior probabilidade de se cercarem de pessoas que pensam como elas", disse Mitchell.

Esse alto nível de polarização poderia contribuir para um curioso fenômeno eleitoral, que poderá custar apoio a Hillary: se as pessoas começarem a acreditar que ela vai ganhar disparado, poderão dar um voto de protesto contra ela, simplesmente para não lhe conceder uma vitóriaarrasadora.

"Se se tornar um 'voto livre', acho que poderá ser um de seus problemas", disse Peter Hart, um pesquisador democrata. "Se tudo parecer fácil e confortável demais, alguns eleitores poderão dizer: 'Eu não quero que ela vença com uma avalanche de votos'."

A vitória do presidente Barack Obama no primeiro mandato foi considerada uma avalanche tão grande quanto possível, pois o país estava dividido. Mas, quando comparada com as avalanches de Johnson, Roosevelt e Reagan, foi moderada: apenas 53%. As eleições recentes foram mais apertadas. George W. Bush teve 48% em 2000 --depois de perder no voto popular, mas ganhar no Colégio Eleitoral-- e 51% em 2004.

A margem de vitória, porém, vai além do simples direito de se vangloriar. Se a indecisão do eleitor não diminuir, uma vitória menor poderá limitar a capacidade de Hillary reivindicar o tipo de mandato popular de que ela e os democratas no Capitólio gostariam.

"Um mandato é uma espécie de plataforma de temas que você defendeu e é a base para sua vitória", disse Lee M. Miringoff, diretor do Instituto Marista de Opinião Pública. "Não o medo da pessoa que foi derrotada, que eu acho que é a principal motivação do pessoal de Hillary: o medo de Trump. A mesma coisa se pode dizer dos eleitores de Trump: o medo de Hillary."

Delegados são quem elege presidente dos EUA; entenda o processo

  •  

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos