Equipes de Hillary e Trump já discutem quem ocupará os ministérios do próximo governo dos EUA

Mark Landler

Em Washington (EUA)

  • AFP - 14.jan.2016 e 4.fev.2016

Hillary Clinton e Donald Trump ainda têm de se enfrentar em seu primeiro debate, mas os dois candidatos já levaram suas equipes para um luxuoso edifício de escritórios de mármore e vidro a uma quadra da Casa Branca, onde estão selecionando currículos, esboçando organogramas e planejando a transição para um governo Trump ou Clinton.

A corrida por cargos que geralmente consome os dois meses e meio entre o dia da eleição e o da posse está acelerada em Washington, com pessoas trocando suas listas especulativas sobre ministros e quem poderia ocupar os cobiçados cargos de seus vices.

A especulação no lado republicano tem sido um pouco discreta, em parte porque as preferências pessoais de Trump são um tanto misteriosas. Mas no lado democrata a liderança persistente de Hillary nas pesquisas tornou difícil para seus seguidores resistirem ao desejo de medir forças. E nenhuma área é mais fértil em disputas que a Segurança Nacional, com Hillary, uma ex-secretária de Estado, na rara posição de ter trabalhado com dezenas de pessoas que ela poderá empregar novamente.

"Houve muita conversa, e agora que parece que ela vai vencer há ainda mais", disse Vali R. Nasr, um ex-assessor de Hillary no Departamento de Estado que hoje é reitor na Escola de Estudos Internacionais Avançados na Universidade Johns Hopkins.

A escolha pela campanha de Hillary de Thomas E. Donilon, um ex-assessor de segurança nacional do presidente Barack Obama, para supervisionar essa parte da transição reflete a continuidade com o governo Obama e salienta as diferenças entre 2008 e 2016. Quando Obama se tornou presidente eleito, ele enfrentou um meio de política externa democrata que estava dividido entre os que apoiavam a ele e os que apoiavam Clinton, mas estava ávido voltar ao poder depois de oito anos de domínio republicano.

Desta vez, Hillary teria de escolher entre um Partido Democrata amplamente unido, com uma forte bancada de políticos na diplomacia, defesa e inteligência que serviram no governo Obama. E ela teria a opção de utilizar republicanos que rejeitaram publicamente Trump, como Michael Hayden, ex-diretor da CIA e da Agência de Segurança Nacional, e Robert B. Zoellick, um ex-representante comercial dos EUA.

"Como houve uma deserção maciça da bancada de política externa republicana", disse Nasr. "De certa maneira ela herdou três quartos do establishment de política externa."

Há outros motivos para esse início precoce na transição, principalmente uma nova lei que pretende tornar a transmissão da Casa Branca para o próximo governo mais formal e menos frenético que no passado. Na quinta-feira (25), ambas as campanhas se reuniram com o chefe de Gabinete da Casa Branca, Denis McDonough, e outras autoridades graduadas para discutir como o governo Obama pretende efetuar a transição.

O governador Chris Christie, de Nova Jersey, chefe da equipe de transição de Trump, representou a campanha do republicano, enquanto Ken Salazar, um ex-secretário do Interior de Obama, representou a campanha de Hillary Clinton. Salazar é o presidente do que a campanha chama de projeto de transição Clinton-Kaine.

Nenhuma campanha está ávida para discutir o processo em detalhe, por medo de parecer presunçosa. Brian Fallon, porta-voz da campanha de Hillary, disse que menos de dez pessoas estavam trabalhando nos escritórios na 1717 Pennsylvania Avenue, número que não cresceria além de duas dúzias até depois de 8 de novembro --se Hillary ganhar.

Nenhum dos candidatos a emprego está ansioso para falar, tampouco, pelo menos abertamente, mas eles tentam mostrar sua utilidade de outras maneiras. A campanha de Clinton já designou 35 pessoas para servir de coordenadores ou parceiros sênior para seu comitê assessor de política externa. Eles supervisionam grupos que produzem trabalhos sobre contraterrorismo, cibersegurança, democracia e direitos humanos e desenvolvimento global.

A natureza peculiar desta campanha, segundo vários membros, tornou o cargo de assessor menos relevante, de certa maneira. Enquanto os assessores esperavam escrever trabalhos defendendo a política de restabelecimento com a Rússia de Obama-Clinton, por exemplo, Hillary está enfrentando um candidato cuja intimidade com o presidente Vladimir Putin se tornou um problema.

Outra grande diferença entre 2008 e 2016 é que Hillary não é novata em Washington, como era Obama. Até certo ponto, ela não precisa de ninguém que lhe diga quem deve contratar.

"O que torna Hillary diferente de quase qualquer outro candidato é que ela conhece muita gente na área de segurança nacional", disse Dennis B. Ross, que serviu como enviado especial dela no Departamento de Estado antes de passar à Casa Branca para coordenar a política para o Oriente Médio. "Há uma combinação de familiaridade e pessoas que ela conheceu e respeita em diferentes situações."

Além da própria Hillary --e talvez seu marido, Bill Clinton--, a pessoa mais influente para preencher os cargos na Segurança Nacional provavelmente será Jake Sullivan, seu principal assessor político, que teve o mesmo papel sob o comando de Hillary no Departamento de Estado. Sullivan há muito tempo é visto como o melhor candidato a assessor de Segurança Nacional, embora seu amplo portfólio na campanha sugira que também poderá acabar como chefe de Gabinete.

Em qualquer cargo, pessoas próximas à campanha disseram que Sullivan teria muita influência sobre quem ocupará os principais cargos na segurança nacional: secretário de Estado, secretário da Defesa e diretor da CIA. Michèle A. Flournoy, uma ex-subsecretária da Defesa no governo Obama, é considerada uma clara favorita para a Defesa, porque, entre outras coisas, permitiria que Hillary fizesse história ao colocar uma mulher no comando do Pentágono.

A previsão para secretário de Estado é mais obscura, em parte porque Hillary deteve o cargo e supostamente tem opiniões definidas sobre o tipo de pessoa que deseja. Ao contrário de Obama, que buscou figuras públicas importantes como Hillary e John Kerry para chefiar a diplomacia do país, Hillary, segundo assessores, preferiria um facilitador confiável de sua política.

Isto levou a especulações sobre William J. Burns, um discreto ex-vice secretário de Estado que dirige a Fundação Carnegie para a Paz Internacional. Burns é da confiança de Hillary e próximo a Sullivan, que trabalhou com ele nas negociações secretas em Omã que levaram ao acordo nuclear com o Irã. O nome de Donilon também aparece em especulações sobre secretário de Estado, assim como diretor da CIA.

Para o cargo da CIA, Hillary também poderia escolher Michael Morell, que conheceu quando ele era diretor em exercício da CIA no governo Obama, ou Michael G. Vickers, um ex-diretor da CIA e subsecretário da Defesa para Inteligência. Ambos escreveram recentemente editoriais com críticas ácidas a Trump e favoráveis a Hillary.

Morell também trabalha como conselheiro sênior na Beacon Global Strategies, firma de consultoria fundada por Philippe Reines e Andrew Shapiro, dois ex-aliados de Hillary que poderão voltar à Casa Branca. Entre os outros fundadores da firma está Jeremy Bash, ex-chefe de gabinete de Leon Panetta quando foi secretário da Defesa. Bash está assessorando a campanha de Hillary sobre cibersegurança e também está na caçada por um cargo.

Enquanto as fofocas sobre cargos são um jogo de salão em Washington, alguns veteranos advertem que os primeiros favoritos geralmente são errados. Em novembro de 2008, James B. Steinberg e Gregory B. Craig, dois ex-membros do governo de Bill Clinton que apoiaram Obama na campanha, foram considerados os principais candidatos a assessor de Segurança Nacional.

Nenhum deles conseguiu o emprego, que foi para um azarão, James L. Jones, um general aposentado dos Fuzileiros Navais. E, é claro, Obama tinha uma surpresa ainda maior na manga: Hillary Clinton como secretária da Estado. 

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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