Rússia espalha falsas histórias para influenciar opinião pública

Neil MacFarquhar*

Em Estocolmo (Suécia)

  • Juan Pablo González/ iStock

Com um vigoroso debate nacional em curso sobre se a Suécia deve entrar em uma parceria militar com a Otan, as autoridades em Estocolmo de repente encontraram um problema perturbador: uma enxurrada de informação totalmente falsa e distorcida em redes sociais, confundindo as percepções do público sobre a questão.

As alegações eram alarmantes: se a Suécia, um país não membro da Otan, assinasse o acordo, a aliança estocaria armas nucleares secretas em solo sueco; a Otan poderia atacar a Rússia a partir da Suécia sem aprovação do governo; soldados da Otan, imunes a processo judicial, poderiam violentar mulheres suecas sem medo de acusações criminais.

Elas eram todas falsas, mas a desinformação tinha começado a se derramar pela mídia tradicional, e enquanto o ministro da Defesa, Peter Hultqvist, percorria o país para promover o pacto em discursos e reuniões com políticos, foi interrogado diversas vezes sobre as histórias inventadas.

"As pessoas não estavam habituadas a isso e ficaram assustadas, perguntando em que deveriam acreditar", disse Marinette Nyh Radebo, porta-voz de Hultqvist.

Como acontece com frequência nesses casos, autoridades suecas nunca conseguiram localizar a fonte dos relatos falsos. Mas diversos analistas e especialistas da inteligência dos EUA e da Europa apontam a Rússia como principal suspeito, notando que impedir a expansão da Otan é uma peça central da política externa do presidente Vladimir Putin, que invadiu a Geórgia em 2008 principalmente para afastar essa possibilidade.

Na Crimeia, no leste da Ucrânia e hoje na Síria, Putin ostentou uma força militar mais moderna e poderosa. Mas ele não tem a força econômica e o poderio geral para confrontar abertamente a Otan, a UE ou os EUA. Em vez disso, ele investiu fortemente em um programa de informação "armada", usando diversos meios para semear dúvida e divisão. O objetivo é enfraquecer a coesão entre os países membros, instigar a discórdia em suas políticas internas e diluir a oposição à Rússia.

"Moscou vê os assuntos mundiais como um sistema de operações especiais, e muito sinceramente acredita que ela mesma é objeto das operações especiais do Ocidente", disse Gleb Pavlovsky, que ajudou a estabelecer a máquina de informação do Kremlin antes de 2008. "Tenho certeza de que há muitos centros, alguns ligados ao Estado, que estão envolvidos em inventar esse tipo de histórias falsas."

O "plantio" de falsas histórias não é novidade; a União Soviética dedicou recursos consideráveis a isso durante as batalhas ideológicas da Guerra Fria. Hoje, porém, a desinformação é considerada um aspecto importante da doutrina militar russa, e está sendo dirigida a debates políticos em países-alvos com muito mais sofisticação e volume do que no passado.

O fluxo de histórias enganosas e imprecisas é tão forte que a Otan e a UE montaram agências especiais para identificar e refutar a desinformação, particularmente afirmações que emanam da Rússia.

Os métodos clandestinos do Kremlin vieram à tona nos EUA também, segundo autoridades locais, identificando a inteligência russa como a provável fonte de e-mails vazados do Comitê Nacional Democrata que incomodaram a campanha presidencial de Hillary Clinton.

O Kremlin usa a mídia convencional -- Sputnik, uma agência de notícias, e RT, um canal de televisão -- e canais encobertos, como na Suécia, que quase nunca podem ser identificados.

A Rússia explora ambas as abordagens em um ataque abrangente, disse este ano Wilhelm Urme, um porta-voz do serviço de segurança sueco, quando apresentava o relatório anual da agência. "Queremos dizer tudo, de iscas na internet a propaganda e desinformação disseminada por companhias de mídia como RT e Sputnik", disse ele.

O objeto fundamental da desinformação russa é, segundo especialistas, minar a versão oficial dos fatos -- até a própria ideia de que há uma versão real dos fatos -- e promover uma espécie de paralisia política.

A desinformação ocorreu de forma mais veemente no início de 2014, com o encobrimento inicial sobre a mobilização de forças russas para ocupar a Crimeia. Naquele verão, a Rússia emitiu uma série atordoante de teorias sobre a destruição do voo MH17 da Malaysia Airlines sobre a Ucrânia, culpando a CIA, e, de modo mais absurdo, pilotos de caças ucranianos que confundiram o avião comercial com a aeronave presidencial russa.

A nuvem de histórias ajudou a ocultar a simples verdade de que insurgentes mal treinados tinham acidentalmente derrubado o avião com um míssil fornecido pela Rússia.

Moscou nega absolutamente o uso de desinformação para influenciar a opinião pública ocidental e tende a rotular as acusações de ameaças declaradas ou encobertas como "russofobia".

"Há uma impressão de que, como em uma boa orquestra, muitos países ocidentais acusam diariamente a Rússia de ameaçar alguém", disse Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, em um comunicado interno recente.

É difícil localizar linhas individuais de desinformação, mas na Suécia e em outros lugares especialistas detectaram um padrão característico que eles ligam a campanhas de desinformação geradas pelo Kremlin.

"A dinâmica é sempre a mesma: ela começa em algum lugar na Rússia, ou em sites da mídia estatal russa, ou em sites diferentes ou em algum lugar nesse tipo de contexto", disse Anders Lindberg, um jornalista e advogado sueco.

"Então o documento falso torna-se a fonte de uma reportagem distribuída em sites de extrema-esquerda ou extrema-direita", disse ele. "Os que confiam nesses sites para obter notícias publicam links para a reportagem, e ela se espalha. Ninguém pode dizer de onde elas vieram, mas acabam sendo questões chaves em uma decisão de política de segurança."

Embora os temas possam variar, o objeto é o mesmo, sugeriram Lindberg e outros. "O que os russos estão fazendo é construir narrativas; eles não estão construindo fatos", disse ele. "A narrativa subjacente é: 'Não confie em ninguém'."

A tentativa de usar a informação como "arma" não é um projeto criado por um especialista em política do Kremlin, mas é parte integral da doutrina militar russa -- o que algumas importantes figuras militares chamam de frente de batalha "decisiva".

"O papel dos meios não militares de se alcançar metas políticas e estratégicas cresceu e, em muitos casos, superou o poder da força das armas em sua eficácia", escreveu em 2013 o general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia.

Um dos principais alvos do Kremlin é a Europa, onde a ascensão da direita populista e o declínio do apoio à UE criam um público cada vez mais receptivo para a abordagem conservadora, nacionalista e autoritária de Putin. No ano passado, o Parlamento europeu acusou a Rússia de "financiar partidos radicais e extremistas" em seus países membros, e em 2014 o Kremlin estendeu um empréstimo de US$ 11,7 milhões à Frente Nacional, partido de extrema-direita da França.

"Os russos são muito bons em cortejar todo mundo que tem um problema com a democracia liberal, e isso vai da extrema-direita à extrema-esquerda", disse Patrik Oksanen, autor de editoriais para o grupo de jornais sueco MittMedia. A ideia central, disse ele, é que "a democracia liberal é corrupta, ineficiente, caótica e, em última instância, antidemocrática".

Outra mensagem, em geral não declarada, é que os governos europeus não têm competência para lidar com as crises que enfrentam, particularmente a imigração e o terrorismo, e que suas autoridades são todas fantoches dos EUA.

Na Alemanha, as preocupações sobre a violência dos imigrantes cresceram depois que uma menina russo-alemã de 13 anos disse que foi violentada por migrantes. Uma reportagem na televisão estatal russa ampliou a história. Mesmo depois que a polícia desbancou a afirmação, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey V. Lavrov, continuou culpando a Alemanha.

No Reino Unido, segundo analistas, os canais de mídia em língua inglesa no Kremlin defenderam fortemente a campanha para que o país deixasse a UE, apesar de suas alegações de objetividade.

Na República Tcheca, reportagens alarmantes, sensacionalistas, retratando os EUA, a UE e os imigrantes como vilões aparecem diariamente em um grupo de cerca de 40 sites pró-Rússia.

Durante os exercícios militares da Otan no início de junho, artigos sobre os sites sugeriam que Washington controlava a Europa por meio da aliança, sendo a Alemanha seu xerife local. Ecoando a desinformação que apareceu na Suécia, as reportagens disseram que a Otan planejava armazenar armas nucleares no leste europeu e atacaria a Rússia de lá sem pedir a aprovação das capitais locais.

Uma pesquisa feita neste verão pela European Values, um grupo de pensadores de Praga, descobriu que 51% dos tchecos viam de modo negativo o papel dos EUA na Europa, somente 32% viam a Europa de forma positiva e pelo menos 25% acreditavam em alguns elementos de desinformação.

O "RT" muitas vezes parece obcecado pelos EUA, pintando a vida lá como infernal. Sua cobertura da convenção nacional democrata, por exemplo, abandonou os discursos e se concentrou nas manifestações espalhadas. Ela defende o candidato presidencial republicano, Donald Trump, como um azarão perseguido pela mídia noticiosa estabelecida.

Margarita Simonyan, editora-chefe do RT, disse que o canal está sendo destacado como a única ameaça porque oferece uma narrativa diferente da do "establishment da mídia-política anglo-americana". O RT, segundo ela, quer oferecer "uma perspectiva em geral ausente da câmara de eco da mídia da corrente dominante".

O ataque de desinformação de Moscou ao Ocidente data de um programa da Guerra Fria que os soviéticos chamaram de "medidas ativas". O esforço envolvia vazar ou mesmo escrever reportagens para jornais simpáticos na Índia, esperando que elas fossem captadas no Ocidente, disse o professor Mark Kramer, um especialista em Guerra Fria em Harvard.

A história de que a Aids foi um projeto da CIA que perdeu o controle se espalhou dessa forma, e ela envenena a discussão da doença décadas depois. Na época, antes do colapso da União Soviética em 1991, o Kremlin vendia o comunismo como uma alternativa ideológica. Hoje, dizem especialistas, o componente ideológico se evaporou, mas permanece o objetivo de enfraquecer os adversários.

Seja qual for o método ou a mensagem, a Rússia claramente quer ganhar uma guerra de desinformação, como declarou recentemente Dmitry Kiselyev, o mais famoso âncora de televisão da Rússia e diretor da organização que dirige o Sputnik.

Falando neste verão no 75º aniversário do Birô Soviético de Informação, Kiselyev disse que a era do jornalismo neutro terminou. "Se nós fazemos propaganda, então vocês também fazem propaganda", disse ele a jornalistas ocidentais.

"Hoje, é muito mais caro matar um soldado inimigo do que na Segunda Guerra Mundial, na Primeira Guerra ou na Idade Média", disse ele em uma entrevista à rede estatal Rossiya 24. Embora o negócio da "persuasão" seja mais caro hoje, também, disse ele, "se você conseguir convencer uma pessoa, não precisa matá-la".

* Colaboraram Eva Sohlman, de Estocolmo, e Lincoln Pigman, de Moscou.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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