Na guerra das Filipinas às drogas, quem se rende fica desamparado

Richard C. Paddock*

Em Manila (Filipinas)

  • Nacho Hernandez/The New York Times

Rayzabell Bongol, uma mãe de 18 anos e usuária de metanfetamina, tinha medo de morrer na guerra às drogas do presidente filipino, Rodrigo Duterte. Então ela se entregou à polícia. Eles a fizeram assinar um documento prometendo que nunca mais usaria drogas ilegais e a enviaram para casa.

Agora, uma vez por semana, Bongol tem de frequentar uma aula de dança zumba patrocinada pela polícia, onde recebe um exame de saúde e uma refeição. Duterte "prometeu mudanças", disse ela em uma aula recente, em que outras três dúzias de dependentes em recuperação saltavam e rebolavam ao som forte da música latina. "Como você pode ver, estou mudando."

Em todas as Filipinas, a morte de cerca de 1.300 suspeitos de uso de drogas nos últimos dois meses assustou centenas de milhares de pessoas como Bongol, que se entregaram. As autoridades citam as 687 mil pessoas que se renderam, o que superou enormemente as expectativas, como prova de que a campanha fatal de Duterte está dando certo.

Mas o governo se mostra totalmente despreparado para ajudar a enxurrada de usuários que prometem abandonar o vício, deixando quase todos a combater a dependência principalmente por conta própria. As poucas instalações para tratamento de drogas do país estão lotadas, criando uma nova crise para Duterte enquanto ele avança com sua campanha violenta para livrar o país dos traficantes de drogas.

No sábado, depois que uma explosão em um mercado lotado matou 14 pessoas, ele declarou um "estado de ilegalidade" nacional, dando aos militares poderes adicionais para realizar operações policiais, que incluem a patrulha de áreas urbanas, buscas, toques de recolher e o estabelecimento de postos de controle.

Mas o governo está demorando para expandir os serviços de reabilitação para cumprir as medidas de segurança. Há menos de 50 instalações de reabilitação credenciadas em todo o país, e a maioria já está cheia. As Filipinas também carecem de médicos capazes de avaliar as necessidades dos pacientes e de conselheiros qualificados sobre o uso de drogas.

Entre outras medidas, o governo está construindo centros de reabilitação em bases militares e organizando seminários para ensinar aos pacientes técnicas para superar o vício, disse o doutor Bernardino Vicente, psiquiatra que dirige uma recém-nomeada força-tarefa encarregada de desenvolver um plano.

"De repente ficamos atolados", disse Vicente, que também chefia o Centro Nacional de Saúde Mental, uma das maiores instalações psiquiátricas das Filipinas. "É uma crise, mas ao mesmo tempo podemos tirar vantagem desta crise para ajudar essas pessoas."

Oferecer tratamento aos que se apresentaram poderá custar bilhões de dólares, disse ele.

Os que se entregam esperam que, ao fazê-lo, gozarão de imunidade, mas nem sempre é o caso. A polícia disse que cerca de 15 mil pessoas foram detidas e enviadas para as prisões, notoriamente lotadas, a maioria depois de se entregar.

A rendição tampouco impede que as pessoas sejam alvo de tiros nas ruas. Um acusado de chefiar o tráfico, Melvin Odicta, conhecido como Dragão, entregou-se à polícia no final do mês passado e foi libertado. Três dias depois ele e sua mulher, Meriam, foram mortos a tiros em um porto por um atacante desconhecido. A polícia negou seu envolvimento nas mortes.

Para a maioria dos viciados, porém, a guerra às drogas é um programa de prender e libertar.

As autoridades locais e a polícia tentaram compensar a ausência de programas de recuperação organizando atividades como aulas de dança. Meia dúzia de policiais entusiásticos aderiram à fila da zumba na aula de Bongol no bairro Ususan, em Manila, a capital filipina.

Embora o exercício possa ser uma boa diversão, peritos em dependência de drogas dizem que não basta para ajudar muitos usuários que precisam superar o vício. Esses peritos temem que as pessoas que querem abandonar a metanfetamina estejam destinadas a falhar.

"O mais importante é quando elas começam a se render: algumas têm a esperança de que farão algo por elas, e não há nada", disse Vicente. "Elas apenas ficam esperando."

A maioria dos usuários de drogas nas Filipinas fuma shabu, uma forma barata de metanfetamina que é facilmente encontrada e altamente viciante.

Duterte diz que há 3,7 milhões de usuários e os culpa por uma epidemia de crimes, incluindo estupro, roubos e furtos. Vicente situa o número em 1,8 milhão, com base em uma pesquisa realizada no ano passado. As Filipinas têm uma população de aproximadamente 100 milhões.

Duterte iniciou sua guerra em 30 de junho, dia em que assumiu o cargo. Ele tinha prometido matar 100 mil criminosos nos primeiros seis meses e despejar tantos corpos na baía de Manila que "os peixes vão engordar".

"Se vocês têm amigos ou parentes, digam-lhes: 'Não entrem nas drogas'", disse ele na quarta-feira. "Vocês serão mortos."

Mas o governo Duterte parece ter exagerado o número de mortes na guerra às drogas.

O chefe da Polícia Nacional, Ronald de la Rosa, disse a uma comissão do Senado duas semanas atrás que 1.900 pessoas tinham morrido na campanha. No entanto, Dionardo Carlos, o porta-voz da polícia, disse mais tarde que o número do chefe incluía todas as mortes não solucionadas. A polícia hoje situa o número de mortes em cerca de 1.300, incluindo mil que, segundo ela, foram mortos ao resistir à prisão.

As outras 300, disse Carlos, foram mortes relacionadas a drogas praticadas por atacantes desconhecidos.

O banho de sangue provocou condenações da ONU e de grupos internacionais de direitos humanos, e provavelmente aumentaria se Duterte e o presidente Barack Obama se reunissem nesta semana, como fora planejado, em uma conferência de líderes do Sudeste Asiático no Laos.

Mas na segunda-feira (5) Duterte advertiu Obama para não lhe perguntar sobre as mortes extrajudiciais, dizendo que ele "não tem senhor além do povo filipino" e chamando Obama de "f. da p.". Então Obama cancelou o encontro.

Martin Andanar, secretário de Comunicações de Duterte, disse que os críticos no Ocidente devem reconhecer que o processo judicial nas Filipinas se tornou disfuncional. Até hoje, os barões da droga prosperaram sob um sistema corrupto, tornando-se intocáveis com a ajuda de policiais e autoridades do governo, disse ele.

"Temos um sistema que está podre no cerne, e vemos um novo presidente que deseja reformar e revolucionar todo o país", afirmou Andanar. "Votamos em Duterte para presidente porque precisamos de um recomeço. Sempre haverá uma perturbação inicial. Mas isso não quer dizer que vai ficar assim."

Ele lamentou a morte recente de uma menina de 5 anos, Danica May, uma das vítimas mais jovens da guerra às drogas. Ela levou um tiro na cabeça de um pistoleiro não identificado que procurava seu avô. Este tinha se entregado à polícia três dias antes e fora enviado para casa.

"O governo está triste com isso, e não pode ser racionalizado", disse Andanar. "Mas vocês têm de olhar de uma perspectiva mais ampla. Imagine quantas crianças seriam mortas se permitíssemos a proliferação das drogas na sociedade."

Autoridades dizem que estão travando a guerra às drogas em duas frentes. Algumas unidades da polícia procuram "alvos de alto valor" suspeitos de traficar grandes quantidades de drogas. Muitas batidas levaram à morte a tiros de suspeitos.

A segunda frente, segundo as autoridades, se destina a fazer que usuários e traficantes se entreguem.

Por todo o país, a polícia vem trabalhando com capitães de distrito --as autoridades eleitas em cada bairro-- para apresentarem listas de suspeitos. Então eles batem nas portas, pedindo que usuários e vendedores se entreguem às autoridades. Em alguns bairros, policiais entoam seu pedido como um canto, disse o porta-voz da polícia. Em outros, usam alto-falantes e distribuem panfletos.

A campanha conquistou o apoio de grande parcela de filipinos, incluindo usuários de drogas que se entregaram.

Entre os que participam do programa de zumba em Ususan estava Alma Maaliao, 47, mãe de 11 filhos e em recuperação do vício em shabu. Ela disse que sua dependência durante dois anos a ajudou a se concentrar no trabalho de lavadeira, mas a fez esquecer completamente dos filhos. Ela está mais feliz agora que abandonou a droga, segundo disse.

"É bom para pessoas como eu", afirmou ela. "Queremos mudar."

Foi preciso uma ameaça de morte, mas para ela está bem.

"Conheço as regras de Duterte", disse. "Sei que quando ele diz algo ele faz. Por isso me entreguei."

*Colaboraram Felipe Villamor e Raul Alibutud.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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