Voos do avião presidencial dão pistas sobre a saúde do líder do Zimbábue

Hopewell Chin'ono e Norimitsu Onishi

Em Harare, Zimbábue

  • Philimon Bulawayo/ Reuters

    8.ago.2016 - O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, gesticula durante discurso para marcar o Dia dos Heróis Nacionais, em Harare

    8.ago.2016 - O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, gesticula durante discurso para marcar o Dia dos Heróis Nacionais, em Harare

É na melhor das hipóteses uma pista indireta, mas muitas vezes é tudo que eles conseguem: muitos zimbabuanos começaram a tentar adivinhar o estado de saúde cada vez mais frágil de seu líder de 92 anos a partir das movimentações de seu avião presidencial.

Na manhã de sábado, qualquer um com um smartphone conseguia ver que o Air Zimbabwe Flight 1, como o avião é conhecido, estava se aproximando da costa leste da África a caminho de Harare, a capital, após quatro dias em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A designação do voo, UM1, significa que o presidente Robert Mugabe, o mais velho chefe de Estado do mundo, estava a bordo.

A viagem de Mugabe para o Oriente Médio foi feita de repente, sem nenhuma explicação do hermético governo zimbabuano, alimentando rumores de que o presidente estaria à beira da morte e procurando desesperadamente tratamento médico no exterior.

A principal oposição política ajudou a alimentar esses rumores, com um de seus líderes postando online, em um tom de grande autoridade, que Mugabe havia sofrido um derrame e que era improvável que "ele pudesse se recuperar disso."

Mas zimbabuanos comuns e jornalistas ficaram praticamente sem nenhum fato verificável, além do que aplicativos de rastreamento de voos podiam lhes informar. E não foi a primeira vez.

Em março, quando Mugabe estava viajando pela Ásia, ele cancelou de última hora uma visita para a Índia, e o governo se negou a revelar seu paradeiro. Os aplicativos mostravam que seu avião estava em Cingapura, um dos lugares onde ele havia recebido tratamento médico nos últimos anos. (O governo disse que ele passou por uma cirurgia de catarata no local e fora isso estava saudável, mas um telegrama diplomático americano de 2008 revelado pelo WikiLeaks disse que ele havia recebido tratamento para câncer de próstata em Cingapura).

A saúde do presidente tem sido um assunto de muito interesse este ano para zimbabuanos de todas as classes, à medida que os efeitos da idade e da doença se tornaram mais difíceis de esconder para Mugabe. Muitos zimbabuanos, que só conheceram um líder desde que conquistaram a independência 36 anos atrás, estão se preparando para o impacto do futuro com a mesma trepidação que muitos chineses sentiram perto do fim do longo governo de Mao Tsé-Tung, ou que os congoleses com Mobutu Sese Seko. Eles falam sobre "quando o velho se for" ou "quando a natureza seguir seu curso."

A incerteza de uma ordem política pós-Mugabe intensifica a ansiedade das pessoas. A classe política está imersa em uma disputa acirrada pela sucessão, e há dúvidas sobre o posicionamento das forças de segurança, os tradicionais garantidores do poder de Mugabe.

Na capital, políticos e diplomatas relatam que Mugabe diminuiu o ritmo consideravelmente no último ano. Ele trabalha somente algumas horas por dia e fala pouco nas reuniões. Por várias vezes ele foi pego em vídeo tropeçando ou dormindo em eventos públicos.

Mugabe tropeça e cai em público

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Assim como a maior parte dos zimbabuanos ricos, Mugabe vai para fora buscar tratamentos médicos melhores do que consegue obter em casa. Isso reduz o círculo de zimbabuanos que estão verdadeiramente informados a respeito de sua saúde, e isso significa que cada vez que ele toma um voo, especialmente para viagens longas ou não anunciadas fora da África, os rumores se espalham, muitas vezes afirmando que ele morreu ou que está à beira da morte.

Desta vez, a especulação sobre Mugabe parecia ter mais fundamento do que de costume. Ele estava programado para ir a Gana em meados de agosto para receber um prêmio do Millennium Excellence Foundation por ajudar a libertar o Zimbábue, mas cancelou a viagem de última hora.

Quando ele ressurgiu vários dias depois em uma exposição agrícola, sua aparição só tornou a situação pior. Ele pareceu tropeçar em um momento e aparentemente estava usando chinelos em vez de sapatos com seu terno.

Mugabe parecia estar se recuperando, ao voar para o Quênia no dia 26 de agosto para uma conferência, seguida por uma reunião na Suíça. No entanto, depois disso, as movimentações do UM1 começaram a despertar preocupação em certos círculos. O avião deixou Suazilândia um dia depois do fim da conferência, passou três horas em Harare e decolou novamente rumo a Dubai, aterrissando na manhã de 31 de agosto.

Seguiram-se dias de silêncio. O governo disse somente que Mugabe estava no Oriente Médio para assuntos oficiais. A manchete do dia 1º de setembro do jornal independente "News Day" trazia: "Mistério em torno da viagem de Mugabe".

"Toda vez que vocês não sabem o objetivo da visita do presidente, sempre há uma explicação padrão de que ele está doente", disse George Charamba, o porta-voz de Mugabe, citado no artigo.

Eddie Cross, um parlamentar do principal partido de oposição, o Movimento pela Mudança Democrática, escreveu em seu blog no dia seguinte: "Ouvimos que o velho teve um derrame". "Seria muito mais digno se ele tivesse reconhecido que sua data de validade havia vencido e que ele havia se aposentado e passado o bastão para um sucessor escolhido."

O UM1 voltou a decolar à meia-noite de sábado, e às 6h da manhã os aplicativos de rastreamento o apontaram sobre as águas entre Moçambique e Madagascar, na direção sudoeste. Jornalistas e oficiais começaram a se juntar no aeroporto de Harare, onde o Sol brilhava em um céu limpo de uma agradável manhã de primavera.

Quando o avião aterrissou às 7h58, repórteres da imprensa estatal foram conduzidos até a pista.

"Sim, é verdade", disse-lhes Mugabe sorrindo. "Eu morri e ressuscitei, como sempre faço."

Ele disse que havia ido para Dubai para visitar seu filho mais velho, Robert Jr., um estudante de arquitetura.

Tradutor: UOL

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