O que os muçulmanos fazem no hajj, e por quê

Diaa Hadid*

Em Jidda (Arábia Saudita)

É obrigação de todo muçulmano fisicamente capaz  e que tem condições financeiras de fazê-lo viajar para Meca, Arábia Saudita, o local mais sagrado do Islã, ao menos uma vez em sua vida. A peregrinação anual é conhecida como hajj e é um dos cinco pilares do Islã, como prescrito no Alcorão: "Exorta todos os homens a fazerem a peregrinação: virão a ti a pé ou montados em todo magro camelo, vindo de cada desfiladeiro distante..." 

Neste ano, 1437 segundo o calendário islâmico, farei meu primeiro hajj. Eu me juntarei a 2 milhões de muçulmanos de todo o mundo, apesar de o escritor Abu Muneer Ismail Davids ter brincado que mais parecerão 10 milhões de pessoas. Durante o hajj, não devemos discutir, cortar o cabelo ou unhas, fazer sexo ou cortar qualquer planta. 

Narrarei minha jornada para o "New York Times" e pelas redes sociais. Para poder acompanhar melhor, aqui está um glossário de termos, nomes e lugares que ajudam a explicar os rituais dos quais os muçulmanos participarão durante os seis dias do hajj, que começarão neste sábado. 

REUTERS/Ahmed Jadallah
Maré humana se forma na Grande Mesquita em Meca, um dia antes do início do hajj

Profetas e antepassados 

Abraão: O profeta que, por ordem de Deus, abandonou sua esposa, Agar, e seu filho Ismael no deserto árabe. (Esses personagens, também presentes na Bíblia judaico-cristã, são conhecidos em árabe como Ibrahim, Hajar e Ismail.) É com Abraão que uma das histórias da origem do Islã começa. Para os muçulmanos, assim como para os judeus, ele é considerado um patriarca de nossa fé. 
 

Agar: A segunda esposa de Abraão. Depois que ela e Ismael foram abandonados no deserto, Agar correu sete vezes entre duas colinas, Safá (Safa) e Maruá (Marwa), à procura de água para seu filho com sede. Ismael teria batido sua perna na areia, fazendo com que água brotasse. Ela se tornou o poço de Zamzam, do qual beberemos durante o hajj. 

Ismael: Considerado o ancestral dos árabes. Ele se reencontrou com seu pai após muitos anos, quando Abraão voltou ao deserto. Ismael teria ajudado seu pai a construir um templo, chamado Caaba, ou cubo, em honra ao seu Deus único. 

Para testar a fé de Abraão, Deus o ordenou a sacrificar Ismael. Três vezes o diabo tentou tentar Abraão a abandonar sua missão e em todas as vezes Abraão atirou sete pedras contra o diabo para afugentá-lo. Nós reencenaremos o atirar de pedras durante o hajj. 

Como conta a história bíblica, Deus substituiu Ismael por um carneiro, que foi sacrificado em seu lugar. 

Maomé (Muhammad): O Profeta do Islã fez o hajj com seus seguidores e esposas em 632 d.C. Os peregrinos muçulmanos imitam o que o Profeta Maomé fez em sua jornada, que também é chamada de "peregrinação do adeus". 

Locais sagrados 

AP Photo/Nariman El-Mofty
Peregrinos se preparam para orar em frente à Caaba, na Grande Mesquita

A Caaba: Também conhecida como Bait Allah, ou Casa de Deus, ela fica na Grande Mesquita de Meca. Ela abriga a el-hajar al-aswad, ou pedra negra, que acredita-se ter descido do paraíso mais branca que o leite, mas posteriormente escureceu devido aos pecados dos seres humanos. No início do hajj, os peregrinos vestidos de branco circungiram a Caaba sete vezes, tentando beijar a pedra negra. Essa é uma das imagens mais famosas do hajj e é conhecida como tawaf. 

Safá e Meruá: Os dois pequenos montes onde Agar procurou por água agora fazem parte da Grande Mesquita que inclui a Caaba. No primeiro dia do hajj, os peregrinos homenagearão Agar ao caminharem sete vezes entre os dois montículos, apesar de que nossa jornada será bem mais confortável do que a dela: o trajeto é revestido de mármore e conta com ar condicionado. Os peregrinos também beberão água do poço de Zamzam de torneiras instaladas na mesquita e dormirão em uma enorme cidade de tendas armada a 5 quilômetros a leste de Meca, em Mina, onde Abraão teria sacrificado Ismael. 

Monte de Arafat: Ao sudeste de Mina, é o local onde Maomé fez seu último sermão no primeiro hajj muçulmano e é a comemoração desse evento, no oitavo dia do mês islâmico de Dhul-Hijjah (o Dia de Arafat), que é a parte indispensável do hajj. Todos os 2 milhões de muçulmanos devem visitar Arafat no segundo dia do hajj, antes de viajarem para Muzdalifah, a caminho de Mina, para rezar e dormir. 

Meqaat: Toda a área em Meca e arredores que inclui os locais sagrados do hajj. Os muçulmanos que entram na meqaat são obrigados a anunciar sua intenção de participar da peregrinação. Os aviões que levam os muçulmanos à Arábia Saudita para o hajj anunciam quando o avião está se aproximando da meqaat, para que os passageiros possam declarar suas intenções. Os homens cantam em voz alta, "Aqui estou eu, Senhor, aqui estou eu", enquanto as mulheres repetem essa frase de forma audível, porém em voz mais baixa. 

Rituais 

Jamarat: O ritual que comemora a rejeição por Abraão da tentação do diabo. No terceiro dia do hajj, os peregrinos atiram pedras contra três pilares próximos da Ponte de Jamarat, que simbolizam os esforços do diabo para desviar Abraão de seu caminho a Mina para sacrificar Ismael. O ritual de apedrejamento é repetido diariamente por três dias, antes dos peregrinos voltarem a Meca para circungirar a Caaba uma última vez. Jamarat é um notório ponto de estrangulamento para as multidões no hajj. Foi durante o ritual do Jamarat no ano passado que centenas, talvez milhares, de peregrinos morreram pisoteados. 

Hadi: O abate ritualístico de uma ovelha, vaca, cabra ou camelo para celebrar o sacrifício de um carneiro por Abraão. Os muçulmanos são proibidos de abater animais durante o hajj até depois do Dia de Arafat, quando é seu dever fazê-lo. Os peregrinos modernos geralmente nomeiam um matadouro perto de Meca para fazer isso por eles. 

Iharam: A roupa tradicional que os homens vestem durante o hajj. Ela consiste de duas peças de tecido brancas não cosidas. As mulheres se vestem modestamente e devem cobrir seu cabelo e corpo. Assim que o hajj termina, os homens devem raspar sua cabeça e as mulheres devem cortar um pedaço de cabelo. 

*(Diaa Hadid, correspondente do "Times" em Jerusalém, narrará sua peregrinação a Meca ao longo da próxima semana.) 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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