Depoimento: na peregrinação a Meca, mulheres se sentem acolhidas e excluídas pelo islã

Diaa Hadid*

Em Meca (Arábia Saudita)

  • Diaa Hadid/The New York Times

    Mulheres que participaram do hajj. Na foto abaixo, à direita, a jornalista Diaa Hadid

    Mulheres que participaram do hajj. Na foto abaixo, à direita, a jornalista Diaa Hadid

"Irmã, onde estão suas meias?", perguntou uma das mulheres com quem eu estava sentada. "Não sabe que precisa cobrir os pés?"

Estávamos na Grande Mesquita que cerca a Caaba, o lugar mais sagrado do islã, durante o hajj, a peregrinação de cinco dias de ritos e rituais que terminou na quarta-feira (14). Eu não sabia dizer qual das quatro mulheres sauditas que usavam túnicas pretas e luvas pretas idênticas estava falando comigo, porque seus rostos estavam cobertos não com um, mas dois véus, algo que eu nunca tinha visto antes.

Elas abriram espaço para mim. Discretamente, cobri meus pés ofensivos com minha longa túnica preta, que comprei especialmente para o hajj, o meu primeiro. Essas mulheres, que pareciam corvos pretos, me serviram café árabe de suas térmicas e me deram tâmaras amarelas crocantes para comer enquanto esperávamos pelo início da oração de sexta-feira.

E lá estava novamente. Eu me sentia ao mesmo tempo frustrada com as restrições mesquinhas sobre as vestimentas das mulheres e acolhida pela carinhosa sororidade delas. Por tantas vezes durante essa jornada física e pessoal, me deparei com meus sentimentos conflitantes sobre como a fé pela qual fui criada lida com gênero, a razão exata que me fez tirar o hijab na faculdade.

Quando foi fundado, 1.400 anos atrás, o islamismo era revolucionário para sua época por ver as mulheres como seres iguais do ponto de vista espiritual. Mas em sua concepção contemporânea, os papéis de gêneros no cotidiano me incomodam.

Como é a experiência de estar na multidão durante a peregrinação

Meu testemunho em alguns tribunais islâmicos valeria metade que o de uma testemunha masculina. Os homens podem ter quatro mulheres, mas as mulheres só podem ter um marido cada.

Mas as mulheres muçulmanas têm direito a uma educação, a serem acadêmicas e, em alguns casos, juristas. Temos como eterno modelo a primeira e adorada mulher do profeta Maomé, Khadija, uma bem-sucedida comerciante que pediu um homem 15 anos mais novo em casamento.

"Trate bem suas mulheres e seja bom para elas", o próprio Maomé pediu em seu último sermão, durante sua última peregrinação a Meca. "É verdade que vocês têm certos direitos em relação às suas mulheres, mas elas também têm direitos sobre vocês."

Bondade e direitos, portanto, mas também mulheres como algo inferior aos homens. Pode parecer algo paternalista e que diminui nossa humanidade. Foi por isso que comecei a perder a fé após uma infância passada em uma família devota, e é com isso que ainda preciso lidar, aos 38 anos de idade, vivendo uma vida que é secular, mas guiada por valores islâmicos.

Cada um dos dias em Meca me forneceu poderosos lembretes de uma religião que parece ao mesmo tempo acolher as mulheres e repeli-las.

Em outro dia na Grande Mesquita, conheci Saraya, uma mulher de meia-idade que é da África do Sul, mas vive na Austrália, onde cresci. Há anos que ela queria fazer o hajj, mas não podia por não ter um mahram, um guardião masculino --geralmente um marido, um irmão ou o pai-- para acompanhá-la; peregrinos homens podem vir sozinhos.

"Nunca pensei que fosse chegar aqui", diz Saraya, radiante.

Ela só chegou até aqui porque o governo saudita permite que algumas mulheres com mais de 45 anos venham acompanhadas por uma mulher mais velha. (Eu consegui a dispensa do requerimento de um mahram porque vim com um visto de jornalista, que incluía um tipo diferente de guardião, um guarda-costas saudita chamado Abdul Rahman que me acompanhou durante toda a reportagem.)

Saraya, cujo sobrenome e idade nunca tive a chance de perguntar, disse que houve "alguns incidentes" que desviavam da experiência positiva de sua peregrinação, como quando alguém em sua delegação "recebeu uma proposta sexual em um táxi" e o fato de que homens muitas vezes a empurravam, passando na sua frente.

"Mas sou meio bicho-grilo, então confio nas energias ao meu redor", ela acrescentou. "Eu só deixo fluir; qualquer coisa que vier é um aprendizado."

Uma vez que as mulheres conseguem superar os obstáculos até chegar aqui, elas devem realizar todos os rituais como homens. A única real diferença de gênero no hajj é que homens devem usar dois lençóis brancos sem nada por baixo (as mulheres não têm uma regra específica de vestimenta além do recato), e, no final, os homens raspam suas barbas e as mulheres simplesmente cortam uma mecha do cabelo.

Diferentemente dos espaços de reza segregados das mesquitas e das celebrações separadas de casamento de muçulmanos conservadores, homens e mulheres se misturam livremente durante os ritos do hajj: andam juntos sete vezes ao redor da Caaba; escalam juntos o topo do Monte Arafat, onde as súplicas a Deus supostamente são atendidas; jogam pedras juntos contra o Jamarat, os três pilares que simbolizam o diabo. Havia algo de belo em observar isso, em fazer isso.

Mas a segregação --um tratamento desigual-- volta cinco vezes por dia com o chamado à oração.

Em uma noite no complexo onde minha delegação VIP de 500 pessoas estava ficando em Arafat, eu estava trabalhando quando homens de repente começaram a se ajoelhar em uma grande sala acarpetada e com ar condicionado. Perguntei onde as mulheres deveriam rezar, e vários oficiais ficavam me direcionando de volta para um estacionamento repleto de ônibus até que percebi que não havia um espaço separado; nós deveríamos nos prostrar sozinhas em nossos quartos.

Outra noite, enquanto eu tentava encontrar um espaço entre os fiéis, um segurança gritou que eu estava atrapalhando a passagem onde os homens precisavam andar.

As primeiras impressões da jornalista do New York Times

Entre outras regras especiais em torno do hajj, está o relaxamento de algumas das restrições de recato do islã: as mulheres não devem cobrir o rosto. Mas conheci várias peregrinas mulheres que ainda assim se cobriam, seja com uma gaze fina ou com um tecido pendurado em uma viseira. Um passo para a frente, dois para trás.

No entanto, por baixo dos véus, não havia nenhuma escrava oprimida. Uma mulher que conheci, Mervat, trabalha como cardiologista no Iêmen, país devastado pela guerra, arriscando sua vida para salvar vidas.

E também Raghdah Hakeem, 27, uma saudita enviada pelo Ministério da Cultura e da Informação para cuidar das mulheres em nossa delegação, que incluía 100 jornalistas (com cerca de 10 mulheres, que veteranos dizem ser o maior número que já viram cobrindo o hajj).

Quando em uma noite mandaram que Hakeem se sentasse no fundo do ônibus, ela se recusou e permaneceu em seu assento, como uma Rosa Parks muçulmana. "Posso me sentar onde eu quiser", ela lembra de ter dito ao oficial mais velho e barbado. Ela sorria enquanto contava o resto: "Todos os homens ao meu redor disseram: 'Fico feliz por você não ter saído'. Me mantive firme no que eu acreditava, e eles me apoiaram."

Apesar de alertas pessimistas de minha mãe e de minha irmã, que fizeram o hajj antes de mim, eu não sofri nenhuma forma de assédio sexual --não fui agarrada, nem fui alvo de gestos ou comentários inapropriados ou indesejados. Eu me senti segura. Mas também me senti inferior, muitas vezes.

Quando nossa delegação chegou à planície rochosa de Muzdalifa, fomos levadas a um complexo só de mulheres parecido com trailers. Era nitidamente diferente das acomodações do resto dos peregrinos, que tradicionalmente dormem ao céu aberto sobre pedaços de papelão e lençóis, com homens e mulheres em espaços separados, mas próximos.

Em Muzdalifa, os peregrinos devem juntar pedras para jogar contra os três pilares de Jamarat. Em vez disso, alguém deixou pedras perto da entrada de nosso complexo para não termos de ir para a planície.

Foi um gesto gentil para algumas das mulheres em nosso grupo, que corriam para se cobrir sempre que algum homem se aproximava de nossa seção, geralmente para trazer comidas ou bebidas. Uma vez, uma de minhas colegas de quarto, usando uma túnica colorida com estampa de morangos, só teve tempo de estender um véu na frente do rosto. Parecia que ela estava tentando se apagar de uma foto.

Mas para mim e algumas outras jornalistas muçulmanas, o gesto pareceu uma afronta. Nós queríamos coletar nossas próprias pedras, para ter a experiência completa do hajj.

Fomos andar pelo prado, e me abaixei para pegar pedras e colocá-las dentro de uma garrafa de água vazia. Quando me levantei, uma dessas mulheres de véu me ofereceu uma bebida de iogurte para me reidratar.

* Diaa Hadid, correspondente em Jerusalém para o "The New York Times", está fazendo um relato de sua peregrinação a Meca.

Tradutor: UOL

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