A sete semanas das eleições, Trump parece ser um candidato impossível de afundar

Declan Walsh

  • Michelle McLoughlin/Reuters

A eleição presidencial dos Estados Unidos tem se mostrado um fenômeno desnorteante: uma torrente de ofensas, gafes e dramas novelísticos, onde uma história se emenda à próxima, a maior parte provocada pelo candidato republicano, Donald Trump.

Com um ritmo tão intenso quanto esse, é difícil acompanhar os detalhes, especialmente no que diz respeito a Trump. Então fizemos um resumo do que os eleitores descobriram nas últimas semanas.

  • O procurador-geral de Nova York iniciou uma investigação sobre a Fundação Donald J. Trump. O problema seria uma doação de US$ 25 mil, feita três anos atrás, para um oficial da Flórida que estava avaliando possíveis acusações de fraude contra Trump. Nenhuma acusação foi feita, e o oficial se tornou apoiador de Trump.
  • Repórteres descobriram provas de que Trump teria gasto US$ 20 mil do dinheiro de sua instituição de caridade em uma pintura de 1,80m de si mesmo, que foi enviada para um de seus clubes particulares de golfe.
  • Surgiram novos relatos de discriminação generalizada contra negros em imóveis de Trump em Nova York, durante os anos 1970.
  • Na sexta-feira, ele finalmente admitiu que o "birtherism", a difamação marcada por racismo contra o presidente Barack Obama que ele repetiu por cinco anos, era na verdade uma mentira. Em vez de pedir desculpas, Trump disse que quem começou essa teoria da conspiração infundada foi sua adversária Hillary Clinton, o que em si era mentira.

Em uma corrida convencional, qualquer uma dessas revelações, calúnias ou gafes poderiam ser o suficiente para afundar um candidato. Mas não Trump.

Uma pesquisa do New York Times/CBS News divulgada na semana passada revelou que ele tem o apoio de 44% possíveis eleitores, pouco menos que os 46% que apoiam Hillary.

Ela continua sendo a favorita absoluta, graças a um sistema eleitoral com base em resultados por Estado. No entanto, seus eleitores têm motivo para se preocuparem. De acordo com meus colegas do "The Upshot", o blog do "New York Times" com base em dados, as chances de vitória de Trump saltaram de 10% em agosto para 26% na noite de segunda-feira. Outro respeitado website, o FiveThirtyEight, apontou suas chances em 40,6% na manhã de segunda-feira.

O calcanhar de Aquiles de Hillary é bem conhecido: a maioria dos americanos não gosta nem confia nela. Se Trump é como Teflon, pode-se dizer que Hillary seria como Velcro. Toda transgressão, real ou não, de sua carreira de décadas na política, gruda nela e não solta mais.

No entanto, no que diz respeito a Trump, sua inabalável popularidade é um mistério.

Trump esteve entre os primeiros a observarem sua habilidade em desafiar as leis da gravidade política. "Eu poderia ficar parado no meio da 5ª Avenida e atirar em alguém, e ainda assim eu não perderia eleitores", ele disse em janeiro.

O que chama a atenção hoje é como, após meses de um escrutínio devastador —incluindo acusações de suborno, má conduta e racismo— ele aparentemente continua imune aos efeitos das notícias negativas.

Este é um enigma que deixou perplexos muitos leitores do "New York Times" que vivem no exterior. "Trump é obviamente sórdido em seu comportamento", escreveu Neil Douglas, um professor aposentado do Canadá, em um e-mail que ecoa um sentimento comum. "Por que os americanos não conseguem enxergar como realmente é esse fanfarrão?"

Em outros países, e outras campanhas, políticos afundaram por muito menos. Em 2014, a secretária de cultura britânica, Maria Miller, renunciou por uma discrepância de US$ 10 mil em seu relatório de gastos. Em 2012, a candidatura de Mitt Romney contra Obama sofreu um grande baque depois que ele fez um comentário que criticava 47% do eleitorado.

Candidatos ao Congresso americano também naufragaram por comentários insensatos: em 2012, Todd Akin, um concorrente de Missouri líder nas pesquisas, abandonou a corrida pelo Senado logo depois que ele deu uma declaração infeliz sobre "estupro legítimo".

No entanto, na escolha de seu presidente, muitos eleitores americanos parecem dispostos a aceitar praticamente qualquer coisa que Trump diga ou faça. Ele elogiou o líder russo, Vladimir Putin, e convidou hackers estrangeiros a invadirem servidores americanos.

Ele levantou teorias da conspiração malucas, como uma que liga o pai do senador Ted Cruz, seu principal rival republicano, ao assassinato do presidente John F. Kennedy. (Sua fonte: o "The National Enquirer", mais conhecido por publicar fofocas de celebridades e histórias sobre óvnis.)

Ele defendeu o tamanho de seu pênis, e sugeriu que proprietários de armas de fogo possam resolver as coisas "com suas próprias mãos" caso Hillary ascenda ao poder.

As coisas podem dar errado para Trump, um egocêntrico ex-astro de reality shows, como demonstrado por sua indecorosa briga com a família do capitão Humayun Khan, um soldado americano muçulmano morto em campo —uma confrontação que parecia demarcar o limite de sua política presunçosa e indisciplinada. Os críticos dizem que é somente uma questão de tempo até que ele dê mais um tiro no pé, desencadeando uma nova queda em sua popularidade.

Por enquanto, Trump parece estar desgastando a capacidade de revolta de seus críticos. Ainda há protestos em seus comícios de campanha, como o da Carolina do Norte na semana passada, quando uma mulher de 69 anos levou um soco na cara. Mas os tumultuosos conflitos da última primavera, quando grupos rivais se enfrentavam após seus discursos, se tornaram mais raros.

Em parte, a resistência de Trump é puramente um produto do excesso de agitação, o fluxo interminável de suas próprias provocações. "Houve tantos escândalos, tantas ofensas, que é difícil focar em qualquer uma delas", diz Charlie Sykes, apresentador de um programa de entrevistas conservador e crítico de Trump.

Sykes passou a atacar Trump porque ele disse que o candidato estava prejudicando o verdadeiro conservadorismo. Ultimamente isso tem feito com que ele entre em conflito com pessoas que ligam para seu programa e se recusam a permitir qualquer tipo de crítica a Trump. "Elas não querem ouvir", ele disse. "Elas querem ter seus preconceitos confirmados."

Isso aponta para outro tema subjacente desta eleição: a virulenta polarização da mídia americana. Há cada vez mais eleitores se informando a partir de plataformas fechadas como o Facebook e outros sites de mídia social, onde visões parecidas muitas vezes reforçam umas às outras. E em canais da grande mídia como Fox News, teorias da conspiração que antigamente se limitavam às margens da internet agora estão ganhando exposição. Como resultado, a confiança da população na mídia desabou.

Uma pesquisa do Gallup publicada na semana passada revelou que 32% dos americanos confiam na capacidade da mídia de "relatar as notícias de forma completa, precisa e justa" —o número mais baixo desde que o Gallup começou a fazer pesquisas em 1972. O colapso da confiança partidária é ainda mais nítido, com 14% dos republicanos dizendo que eles confiam na mídia, em comparação com 51% dos democratas.

Na noite de domingo, Obama culpou a "desinformação" da mídia pela disputa apertada que ele prevê para novembro.

Será que alguma história ou revelação poderia prejudicar as qualidades de Teflon de Trump a esta altura? Sykes, o apresentador de rádio, disse acreditar que Trump criou um "culto da personalidade" entre conservadores que possuem poucos paralelos na história da política americana, "exceto talvez na ficção."

"Não importa o que ele diga ou quais sejam suas ideias", diz Sykes. "Tem a ver com a persona. Ele é o homem forte. E aparentemente ele descobriu um jeito de criar um vínculo com milhões de americanos."

Com sete semanas até a votação, Hillary precisa encontrar um meio de romper esse vínculo. Sua próxima oportunidade poderá vir no primeiro debate presidencial, no dia 26 de setembro, na Universidade de Hofstra em Long Island, Nova York.

Trump pode acabar fazendo o serviço para ela: suas bravatas, mentiras e insultos podem acabar o afundando. Mas, para garantir a vitória, Hillary também precisará superar suas deficiências. Os altos níveis de desconfiança entre os eleitores, singulares para uma candidata presidencial moderna líder nas pesquisas, a deixam vulnerável.

Tradutor: UOL

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