Após terremoto, Itália corre para salvar seu tesouro histórico

Elisabetta Povoledo

Em Amatrice (Itália)

  • Vigili del Fuoco via Reuters

    Escombros formam paisagem de Amatrice, na Itália, após terremoto de agosto

    Escombros formam paisagem de Amatrice, na Itália, após terremoto de agosto

Os socorristas trabalharam incansavelmente sob o sol escaldante, usando máscaras brancas para repelir a poeira. Eles formaram uma corrente humana, passando de mão em mão tudo o que puderam salvar da terrível destruição do terremoto que atingiu esta região em agosto. Eles tiveram de trabalhar rapidamente, temendo a precariedade de prédios vizinhos cheios de rachaduras.

Não eram vidas que estavam salvando nesse dia, nem recuperavam cadáveres das montanhas de ruínas, mas a história da própria Amatrice. Trabalhando ao lado de bombeiros, a equipe incluía um esquadrão de carabinieri da polícia italiana especializado em arte para esvaziar os arquivos municipais, que contavam 300 anos.

Pelo menos 296 pessoas morreram no violento abalo de 24 de agosto. Muitas outras ficaram desabrigadas e feridas. Mas aqueles poucos minutos devastadores também colocaram em risco milhares de livros, dossiês e pastas reunidos desde que outros terremotos destruíram essa cidade, em 1639 e 1703. Havia também incontáveis obras de arte e artesanato em igrejas e museus em toda a área do terremoto, que afetou cidades em quatro regiões do país.

"Por enquanto garantimos um vestígio do passado de Amatrice --isso é o principal, que a comunidade preserve sua história", disse Maria Letizia Sebastiani, membro do Ministério da Cultura que supervisionava a recuperação naquela tarde.

A unidade de crise do Ministério da Cultura foi criada depois que um terremoto atingiu a região central da Itália em 1997, danificando gravemente diversos monumentos, inclusive a Basílica de São Francisco, em Assis. Desde então ela foi usada em dezenas de desastres, naturais e causados pelo homem, na Itália e no exterior, e no ano passado foi formalmente instituída por meio de um decreto ministerial.

Este ano, o ministério chegou a criar uma força-tarefa que trabalha com a Unesco para realizar perícias de restauração em vários lugares do mundo dilacerados pela guerra. Autoridades da ONU esperavam enviá-la à Síria, onde as monumentais ruínas de Palmira foram severamente danificadas depois que o Estado Islâmico entrou na antiga cidade em 2015. Mas o conflito sírio continuou intenso demais para que a equipe entrasse em cena.

"Estamos prontos para ir assim que formos avisados", disse o capitão Michelange Stefàno, membro do esquadrão de arte da polícia e da força-tarefa treinada pela Unesco.

Há muito trabalho a fazer na Itália.

A unidade de crise foi enviada nas primeiras horas após o abalo sísmico. Conforme as operações de emergência se desenrolavam, especialistas treinados começaram a inspecionar os edifícios para avaliar os danos ao patrimônio cultural da área.

Desde então, esquadrões de socorristas e autoridades do Ministério da Cultura entraram em igrejas, museus e prefeituras visando salvar o legado do território e sua memória do passado.

Pinturas, estátuas e objetos sacros, como crucifixos e cruzes, foram empacotados e enviados para verdadeiros hospitais de campo para arte e artesanato, para preservação e uma primeira avaliação dos danos.

O trabalho foi arriscado e cansativo. Muitos prédios de Amatrice e outros lugares ainda correm o risco de desmoronar, e semanas depois do terremoto choques secundários continuaram forçando as estruturas já abaladas.

As equipes fotografam e documentam artefatos e recuperam o que pode ser facilmente retirado dos locais --"aqueles onde conseguimos entrar; muitos ainda estão em má situação", disse Stefàno--, com a ajuda dos bombeiros e socorristas da defesa civil.

A tarefa imediata da unidade de crise foi proteger os monumentos o melhor possível, "para impedir maior deterioração", disse o prefeito Fabio Carapezza Guttuso, líder da unidade, que atua como ligação entre especialistas em arte e bombeiros e autoridades da defesa civil.

Ele a descreveu como uma complexa mas harmoniosa sinergia de expertises individuais. A experiência adquirida em cada desastre com que a unidade lidou "aperfeiçoou nossa capacidade de intervir", disse ele.

Drone revela estragos em Amatrice após terremoto

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Nas semanas após o terremoto, a unidade de crise esvaziou o museu municipal de Amatrice, assim como algumas igrejas aqui e nas cidades próximas, como Accumoli e Arquata del Tronto, que também foram seriamente atingidas.

Mas milhares de artefatos ainda precisam ser resgatados de igrejas e palácios abalados, muitos em áreas distantes. "Um a um, vamos chegar a todos", disse o prefeito.

Muitas obras de arte de Amatrice estão sendo levadas para um enorme armazém que pertence ao Corpo Florestal do Estado, um órgão da Polícia Nacional, na cidade próxima de Cittaducale.

Lá são realizadas restaurações de emergência, disse Antonia Pasqua Recchia, secretária-geral do Ministério da Cultura, que viajou a Amatrice este mês para coordenar as autoridades locais do ministério. É um modelo que se mostrou eficiente durante o último grande terremoto na Itália, que atingiu a região de Emilia-Romagna em 2012, disse ela.

As operações de salvamento ocorrem juntamente com esforços iniciais de restauração. Em Amatrice e outros lugares, os bombeiros começaram a reforçar fachadas de igrejas em estado precário. Eles enrolaram faixas de aço em torno de torres instáveis, trabalhando sob o olhar atento de arquitetos e historiadores do Ministério da Cultura. Autoridades policiais também fazem rondas regulares entre as ruínas para protegê-las de furtos.

Embora cada operação seja realizada com toda a precaução possível, predomina um elemento de urgência. "Estamos a mil metros de altitude", disse Guttuso. "Começará a nevar dentro de um mês."

Algumas prioridades foram identificadas, disse o prefeito, como uma réplica do século 18 do Sudário de Turim, o tecido que os católicos acreditam ter envolvido o corpo de Jesus. Ele foi retirado de uma igreja em Arquata del Tronto e colocado na catedral de Ascoli Piceno.

"Era importante para a população", disse ele. "Tinha o valor de uma relíquia."

Um pequeno camafeu da Virgem Maria, conhecido como Madonna de Filetta, a santa padroeira de Amatrice, também foi recuperado do entulho da Igreja de Sant'Agostino e exibida durante o funeral comunitário da cidade.

Diante das perdas devastadoras, "o que restou ganha ainda mais significado", disse Luca Cari, um porta-voz dos bombeiros, órgão que realizou a maioria das recuperações. "São eles que arriscam a pele."

Os restauradores da unidade de crise também começaram a recolher pedras e tijolos antigos dos destroços, que serão reutilizados quando possível em uma reconstrução.

"A ideia é construir como era, no mesmo lugar", disse o prefeito. "Queremos passar a ideia de que estamos salvando artefatos e materiais de construção" para que as cidades sejam o mais autênticas possível, acrescentou ele. "Esse é o sentido profundo do que estamos fazendo."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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