Esquecidas, vítimas do Boko Haram seguem enfrentando a violência, os estupros e a fome

Dionne Searcey

Em Maiduguri (Nigéria)

  • Ashley Gilbertson/The New York Times

A crise provocada pelo Boko Haram trouxe centenas de milhares de pessoas a uma cidade relativamente pouco conhecida na Nigéria, que finalmente se tornou segura o bastante para que aguardem ali pelo término da guerra terrível e mortal.

Com o afluxo dos aldeões do interior, é quase como se toda a cidade de Maiduguri tivesse se transformado em um vasto campo de refugiados.

Acampamentos de tendas do governo pontilham os arredores da cidade, onde pessoas esperam pela chegada das sacas de comida. Bairros antes pitorescos agora estão repletos de cabanas feitas de papelão, cheias de crianças pequenas que têm sorte se puderem comer três refeições por dia.

Os prédios da velha universidade foram ocupados pelos refugiados, que também lotam as casas de parentes ou estranhos gentis. Velhos ficam sentados ao longo de ruas movimentadas pedindo esmola. No imenso mercado de segunda-feira, mulheres vendem frutas ou joias, na esperança de ganhar o suficiente para pagar por uma refeição.

E esses são os afortunados. Outras pessoas estão longe do centro da cidade (e da ajuda), em áreas remotas do Estado de Borno, que apenas recentemente foi retirado do controle do Boko Haram. As notícias que chegam dessas áreas são terríveis: trabalhadores de ajuda humanitária dizem que muitos moradores podem morrer de fome.

A crise do Boko Haram prossegue, mas não conseguiu manter o nível de ultraje global que chegou ao ápice quando quase 300 alunas foram sequestradas no vilarejo de Chibok, em 2014.

O conflito de 7 anos produz incessantemente novos capítulos horríveis. Aldeias incendiadas. Decapitações. Estupros de mulheres e meninas pequenas. Corrupção militar e morte de inocentes. Crianças-bomba. Vítimas resgatadas, até mesmo crianças pequenas, que são presas pelos militares por semanas ou meses. E agora uma ampla crise de alimentos e desnutrição.

Os horrores têm sido relatados pelo "The New York Times" e outros veículos de notícias. A assistência humanitária está presente, mas a Organização das Nações Unidas não consegue levantar nem mesmo um quarto do dinheiro que diz ser necessário para ajudar a combater os problemas.

Apesar da continuidade da tragédia, o mundo parece ter voltado sua atenção para outros eventos terríveis. As câmeras de televisão registram os médicos tratando de crianças sírias ensanguentadas, feridas pelos bombardeios, assim como mães americanas que perderam filhos mortos a tiros pela polícia.

No Ocidente, é fácil ignorar as vítimas do Boko Haram. Os militantes atacam algumas das pessoas mais pobres do planeta. No Estado rural de Borno, não existem prontos-socorros apropriados para tratar dos feridos. Aqui, mães lamentam filhos que foram mortos pelos insurgentes ou, por falta de opção, se juntaram a eles.

A maioria das vítimas vive em tamanha pobreza que, mesmo sem os desafios da insurreição, estariam à margem, lutando pela sobrevivência.

No mês passado, Bono, o músico irlandês e vocalista da banda U2, veio a Maiduguri na esperança de chamar a atenção internacional aos problemas causados pelo Boko Haram, que, segundo todas as avaliações, estão piorando.

Esta cidade no nordeste da Nigéria já foi lar do fundador do Boko Haram, Mohammed Yusuf, um imã dinâmico cujos ensinamentos posteriormente geraram o movimento extremista islâmico que matou milhares e deslocou mais de 2,6 milhões de pessoas de seus lares em quatro países. Até o momento.

Em Maiduguri, Bono se encontrou com autoridades locais de governo e percorreu os acampamentos para pessoas que fugiram de suas aldeias à medida que o Boko Haram se aproximava. Ele visitou um grupo de mulheres jovens e crianças que antes viveram entre os comandantes do grupo radical islâmico.

"Essas meninas são apenas um rosto humano inesperado do conflito", disse Bono em uma entrevista por telefone após sua viagem. "Quando penso no Boko Haram, eu não penso nisso, ou nas crianças desnutridas, que vimos nos campos."

Nesta semana, em reuniões na ONU, Bono tem feito lobby junto aos líderes mundiais para aumentarem a ajuda às vítimas do Boko Haram. O Estado de Borno serve como pano de fundo em um vídeo, no qual ele pede por políticas econômicas de longo prazo para remover o apelo do terrorismo.

Fazer o mundo voltar sua atenção à crise do Boko Haram não será fácil.

A maioria das pessoas conhece o grupo por seu ataque mais chamativo, a uma escola em Chibok, onde quase 300 meninas estavam reunidas para provas em 2014. Os militantes incendiaram a escola e levaram as meninas, com apenas cerca de 50 conseguindo escapar nos dias que se seguiram ao ataque.

O episódio provocou ultraje global. Mas os meninos que foram massacrados quase ao mesmo tempo não ficaram registrados na consciência mundial. Após a abdução das meninas de Chibok, uma campanha pelas redes sociais se tornou viral, com até mesmo Michelle Obama fotografada segurando um cartaz com o hashtag #BringBackOurGirls (tragam nossas meninas de volta).

De lá para cá, grande parte da atenção do mundo se voltou para outro grupo terrorista, o Estado Islâmico, e seus ataques contra ocidentais na França, Bélgica e outros lugares. Esses atos provocaram vigílias e manifestações em cidades por todo o mundo, assim como repúdio e retaliação por parte dos líderes mundiais.

O punhado de campanhas para ajudar as vítimas do Boko Haram em grande parte minguou, apesar do Boko Haram ter jurado fidelidade ao Estado Islâmico e, segundo algumas medidas, o Boko Haram ser muito mais mortífero que o Estado Islâmico.

Cerca de 200 das meninas de Chibok ainda permanecem em cativeiro. Uma foi encontrada em maio perambulando pela floresta, faminta e com um bebê. Mas mesmo essa campanha em grande parte se tornou apenas local, atraindo algumas poucas dezenas de ativistas a pequenos encontros em Abuja, a capital da Nigéria, na esperança de pressionar o presidente Muhammadu Buhari a encontrar as meninas.

Recentemente, Buhari divulgou detalhes das negociações fracassadas para libertação das meninas. Na quarta-feira, ele pediu a intermediários da ONU que ajudem na retomada das negociações.

Mas o acesso a alimentos e atendimento de saúde também estão em risco em áreas onde o Boko Haram é ativo ou foi recentemente. A ONG humanitária Mercy Corps disse no mês passado que estimadas 800 mil pessoas estão vivendo em aldeias incendiadas e em campos sem estrutura em 15 locais espalhados pelo Estado de Borno, muitos longe de Maiduguri, com pouca ou nenhuma ajuda alimentar, sem mercados funcionando e sem formas de ganhar a vida.

A visita de Bono à Nigéria faz parte de um apelo global de seu grupo, a campanha One, e da ONU por mais atenção (e mais dinheiro) em ajuda às populações deslocadas, assim como maior ajuda para impedir a crescente crise de desnutrição na região, onde estimadas 3,8 milhões de pessoas enfrentam severa insegurança alimentar. Apenas no Estado de Borno, 49 mil crianças morrerão se não receberem tratamento, segundo um recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Cerca de 200 mil outras sofrem de desnutrição severa aguda, disse o relatório.

O escritório das Nações Unidas para coordenação de assuntos humanitários disse que precisa de US$ 739 milhões para cuidar das milhões de pessoas afetadas pelo Boko Haram na Nigéria, uma das maiores economias da África, assim como Camarões, Chade e Níger. Em meados de setembro, ele tinha recebido apenas um quarto do valor total.

"Há muita importância estratégica na Nigéria, por isso é estranho não haver um maior foco no que está acontecendo", disse Bono.

"É patético", ele acrescentou. "Se a Nigéria cair, a África cai. Se a África cai, a Europa cai. Se a Europa cai, a América deixa de ser a América."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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