Campo de futebol em assentamento israelense na Cisjordânia vira impasse na Fifa

Peter Baker

Em Maale Adumim, Cisjordânia

  • Uriel Sinai/The New York Times

O mais recente campo de batalha na antiga disputa entre israelenses e palestinos é um pedaço remoto de grama artificial cercado por colinas desoladas no deserto, em um local onde a poeira acumula na boca antes que sol comece a se por.

O time da casa está perdendo por 2 a 0 na partida de futebol do dia, com dificuldade de armar o ataque. Mas ele deveria estar jogando aqui? A pergunta logo será tratada a milhares de quilômetros de distância pela federação que rege os clubes de futebol, como o com base nesta comunidade judaica na Cisjordânia.

Ben Hadad, 25 anos, dirige a organização de futebol em Maale Adumim, no deserto da Judeia, ao leste de Jerusalém. Entre gritos de incentivo aos jogadores e o lamento por seus revezes no outro dia, ele se queixou da interferência da política nos esportes.

"Isso perturba o processo de paz?" ele disse, gesticulando para os adolescentes correndo em campo. "As crianças?"

Mas os palestinos também têm filhos e os deles são proibidos de jogar no campo em Maale Adumim e em outros construídos em terras que consideram como sendo deles. E assim, o conflito em torno de onde Israel oficialmente começa e termina atingiu um nervo em ambos os lados da linha borrada, intensificada pelo fervor esportivo e pelo orgulho da comunidade. Afinal, se existe uma coisa que israelenses e palestinos compartilham é a paixão pelo futebol.

A entidade internacional que rege o esporte, a Fifa, deverá considerar no próximo mês se proibirá meia dúzia de clubes de futebol israelenses de jogarem na Cisjordânia ocupada. Um relatório divulgado na segunda-feira pela entidade de direitos humanos Human Rights Watch conclui que as equipes de futebol violam as políticas da Fifa, que proíbem a realização de partidas em território de outro membro sem permissão.

"Está sendo roubada de milhares de crianças palestinas a chance de praticar o esporte que amam em suas terras", disse Fadi Quran, um ativista da Avaaz, uma organização de defesa que reuniu 150 mil assinaturas para uma petição sobre o assunto.

Dados os recentes escândalos na Fifa, esse é uma oportunidade para seu novo presidente, Gianni Infantino, fazer uma declaração.

"Se Infantino realmente for sério sobre devolver o fair play à Fifa, ele deve começar mostrando o cartão vermelho para as equipes de colonos ilegais israelenses na Cisjordânia", disse Quran.

Rotem Kamer, o presidente da Associação Israelense de Futebol, disse que não deseja se envolver na discussão.

"Estamos tentando nos afastar o máximo possível disso e lembrar a todos que isto é apenas um esporte, e os esportes deveriam servir como plataforma para construção de pontes, certamente não dividir as pessoas", ele disse à rádio do Exército de Israel. "Certamente não há lugar para conflito e o futebol não é o lugar onde as fronteiras de país devem ser determinadas."

A questão persiste há vários anos e deverá ser tratada na próxima reunião da Fifa, de 13 a 14 de outubro na Suíça. No passado, os palestinos pediram a suspensão de Israel por vários motivos, incluindo restringir a liberdade de movimento dos jogadores palestinos. Mas a discussão tem se voltado cada vez mais para os clubes israelenses.

Tokyo Sexwale, um ex-líder anti-apartheid que foi preso na África do Sul, lidera o comitê da Fifa que investiga a situação. Ele disse que planeja apresentar as recomendações na reunião da entidade em outubro, mas não disse quais serão.

Israel tem feito lobby junta à Fifa para adiamento da decisão, para que não ocorra na mesma semana do feriado do Yom Kippur (Dia do Perdão).

Em uma declaração recente, a Fifa não deu indicação do que fará no mês que vem. "A Fifa continuará em seus esforços para promover relações amistosas entre as associações filiadas de acordo com seus estatutos, e para identificar soluções viáveis em prol do esporte e de todos os envolvidos", disse a declaração.

Os seis clubes identificados pela Human Rights Watch jogam em comunidades como Maale Adumim, que foram construídas em território ocupado por Israel desde sua guerra de 1967 com os países árabes. Os assentamentos são considerados ilegais por grande parte do mundo.

Os clubes jogam nas três mais baixas das cinco divisões do futebol israelense e tendem a incluir múltiplas equipes, desde semiprofissionais para adultos até categorias de base para crianças. O clube em Ariel, por exemplo, tem cinco equipes com cerca de 200 jogadores.

"Não somos diferentes de outros clubes em Israel", disse Shay Bernthal, presidente do Ariel Football Club.

Ele notou que cidadãos árabes de Israel jogam em suas equipes. "Somos contra o racismo, somos contra a violência, somos contra a interferência política", ele disse. 

Aqueles que apresentaram a queixa contra os clubes de futebol disseram não se tratar de um assunto pessoal. "Os organizadores desses clubes estão realizando um trabalho comunitário muito bom", disse Sari Bashi, a diretora do Human Rights Watch para Israel e Palestina. "Mas estão fazendo no lugar errado. Estão fazendo em terras roubadas sob condições de discriminação, e não podem consertar isso."

Jibril Rajoub, presidente da Associação Palestina de Futebol, tem pressionado a Fifa há vários anos para que tome uma medida contra Israel, notando que a associação de futebol europeia proibiu a Rússia de se apossar dos clubes da Crimeia após anexar a península.

"Queremos jogar futebol", ele disse por telefone de Zurique, onde estava se encontrando com dirigentes da Fifa. "Não se trata de uma questão política. Trata-se de um direito fundamental de todos os povos."

Para Salah al-Din al-Qurt, a questão é pessoal. Sua família é uma das duas que reivindicam os terrenos nos quais o clube Givat Zeev atualmente joga. Seu pai e seus tios são donos das terras, ele disse, mas as perderam há mais de 35 anos quando foram  tomadas pelos israelenses.

"Essa terra é nossa", ele disse. "Era terra que usávamos para cultivo e ganhar a vida. Eles a tomaram e não podemos usá-la, e em vez disso os colonos estão jogando futebol nela."

Em Maale Adumim, a temporada teve início em meio a incerteza. O campo, com apenas três anos, e novo e bem cuidado, com iluminação para partidas noturnas, mas fica em uma área industrial um tanto erma, perto de fábricas de cerâmica. Muitos dos aproximadamente 40 mil colonos que vivem aqui trabalham nas fábricas locais ou em Jerusalém.

A expectativa pelo governo israelense é de que Maale Adumim, uma das maiores comunidades e mais estabelecidas, seja incluída dentro das fronteiras de Israel em caso de um acordo com os palestinos. Mas se for, sua localização tornará mais difícil a criação de um Estado palestino coerente e contíguo.

Hadad, o dirigente do clube, disse que cerca de 400 jogadores usam o campo, de crianças a adultos. Duas de suas 10 equipes, ele disse, são para mulheres e meninas. Árabes também jogam nelas, mas não do território palestino.

Seus avôs ajudaram a construir a comunidade. "Isto é o deserto", ele disse. "Meu avô, quando chegou aqui, encontrou deserto e nada mais. Não sentimos que tiramos algo de alguém."

Enquanto Hadad falava, ele repentinamente se voltou para o campo. Sua equipe tinha chance de marcar. Um jogador chutou, mas errou o gol. Hadad bateu suas mãos em frustração.

"Klum!" ele gritou. "Klum!" ("Nada! Nada!")

A equipe acabou perdendo por 6 a 0.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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