Disputa por Banco Central entre rebeldes e governo pode provocar fome no Iêmen

Louis Imbert

  • Khaled Abdullah/Reuters

    19.abr.2016 - Simpatizantes houthi protestam contra ataques liderados pela Arábia Saudita

    19.abr.2016 - Simpatizantes houthi protestam contra ataques liderados pela Arábia Saudita

Não seria possível definir de forma mais clara um mandato. O traficante internacional de armas Fares Manaa foi cogitado até o fim para comandar o Ministério do Comércio no governo de "salvação nacional" iemenita, cuja formação foi anunciada pelos rebeldes houthi e seu aliado, o ex-presidente Ali Abdallah Saleh, na terça-feira (4) em Sanaa, que eles vêm ocupando há dois anos.

Manaa foi alvo de sanções da ONU em 2010 por ter violado um embargo sobre a venda de armas na Somália. Ainda ativo em sua província natal de Saada, bastião houthi do qual ele foi governador, ele afinal não foi escolhido pelo governo rebelde. Mas, com ou sem ele, a formação desse novo órgão soa como uma provocação contra o governo reconhecido internacionalmente e instalado em exílio em Riad.

Esta veio após a proclamação de um "Conselho político supremo" pelos rebeldes, em julho, que havia assinalado o fracasso de um terceiro ciclo de negociações de paz no Kuait. E ela reforça a lógica de guerra, ou até de divisão, na qual os dois lados estão mergulhados.

Através desse comunicado, os rebeldes pretendiam responder ao anúncio feito no dia 19 de setembro pelo governo de Abd Rabbo Mansur Hadi, a respeito da transferência do Banco Central da capital para Aden, o grande porto do sul controlado pelos lealistas, que expulsaram os rebeldes de lá em julho de 2015. Essa instituição, uma das poucas do país que ainda funcionam e são relativamente imparciais, distribui os salários dos funcionários públicos.

O governo de Hadi o acusa de financiar os rebeldes. Muitos de seus combatentes estão de fato empregados pelo Ministério da Defesa, que todo mês recebe cerca de US$ 100 milhões (R$ 320 milhões). No entanto, a transferência do Banco Central poderia constituir uma "declaração de guerra econômica" aos rebeldes, correndo o risco de precipitar uma epidemia de fome que ameace as populações civis sob controle deles, observa o think tank International Crisis Group em um alerta recente.

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Diretor destituído

O diretor do Banco Central, Mohamed Awad Ben Humam, respeitado tecnocrata, foi destituído no dia 19 de setembro. Ele vinha se esforçando há dois anos para garantir a importação de bens de necessidade básica, para gerenciar a dívida e manter o valor do rial. O Iêmen sofreu uma rápida inflação por efeito do bloqueio imposto pela coalizão internacional liderada pela Arábia Saudita, que apoia o governo no exílio e conduz a guerra contra os rebeldes.

Esse bloqueio foi em parte aliviado desde maio, graças a um mecanismo de verificação da ONU. Mas de 7 a 10 milhões de pessoas (de uma população de 24 milhões de antes da guerra) têm lutado para suprir suas necessidades alimentares básicas, segundo o Famine Early Warning Systems Network.

O Banco Central já está à beira da insolvabilidade: faltam divisas, com o fim da exportação de petróleo, que antes da guerra representava cerca de 70% do orçamento. A maior parte dos funcionários públicos não recebe desde julho.

O Banco Central, criticado pelo governo desde o verão, foi proibido de imprimir cédulas. O governo precisaria de pelo menos três meses para receber essas cédulas de uma empresa russa em Aden, e recriar do nada a instituição do outro lado da linha de frente, observa Peter Salisbury, pesquisador associado da Chatham House, um think tank de Londres.

O governo Hadi, que espera pela ajuda de fundos da Arábia Saudita e dos Emirados, ainda não conseguiu se estabelecer em Aden, estando sujeito a uma insegurança crônica e a ataques regulares dos braços locais da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. "O governo está em seu direito. Mas essa transferência parece ter sido decidida de forma impulsiva", observa Salisbury. "Existe um risco verdadeiro de colapso total do sistema monetário."

Bombardeios sauditas

Desde o caos das negociações no Kuait, os bombardeios sauditas voltaram com uma intensidade renovada, sobretudo em Sanaa. E ainda que os combates sejam violentos em Taëz, em Marib e nos arredores da província de Sanaa, as linhas de frente não se movem há mais de um ano, em um conflito que vem desde março de 2015 e já fez mais de 10 mil mortos.

Na fronteira saudita, não somente os rebeldes destruíram diversos postos-fronteiriços desde o verão, como combatentes se estabeleceram de forma permanente em território saudita, em vilarejos das províncias de Jizan, Asir e Najran, segundo uma fonte militar.

É no mínimo constrangedor para o reino, que entrou em guerra para proteger sua fronteira diante de uma rebelião apoiada de longe e sem grande esforço pelo Irã, seu grande rival regional. A aviação saudita teria bombardeado algumas de suas posições em seu próprio solo.

Tradutor: UOL

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