Tortura praticada pelos EUA deixa legado de transtornos mentais

Matt Apuzzo, Sheri Fink e James Risen

  • Bryan Denton/The New York Times

    Younous Chekkouri, ex-preso de Guantánamo

    Younous Chekkouri, ex-preso de Guantánamo

Antes de os Estados Unidos autorizarem uma forma assustadora de interrogar prisioneiros, advogados e autoridades de inteligência do governo se asseguraram de um resultado crucial. Eles sabiam que os métodos infligidos aos suspeitos de terrorismo seriam dolorosos, chocantes e muito além do que o país consideraria aceitável. Mas nenhum deles, eles concluíram, causaria danos psicológicos duradouros.

Quinze anos depois, está claro que estavam errados.

Atualmente na Eslováquia, Hussein al-Marfadi descreve dores de cabeça permanentes e sono agitado, atormentado pelas lembranças dos cães dentro da uma cela escura. No Cazaquistão, Lutfi bin Ali é assombrado por pesadelos de estar sufocando no fundo de um poço. Na Líbia, o rádio de um carro de passagem provoca fúria em Majid Mokhtar Sasy al-Maghrebi, o fazendo recordar da prisão da CIA (Agência Central de Inteligência americana) onde música em alto volume era apenas uma das agressões aos seus sentidos.

Líbio relembra os 2 anos detido em prisão secreta da CIA

E há o desespero dos homens que dizem não serem mais os mesmos. "Vivo nesse tipo de depressão", disse Younous Chekkouri, um marroquino, que teme sair de casa por ver nos rostos na multidão os guardas da prisão de Guantánamo. "Não sou mais normal."

Após sofrerem tratamento agonizante nas prisões secretas da CIA por todo o mundo ou práticas coercitivas no campo de detenção militar de Guantánamo, dezenas de detidos desenvolveram problemas persistentes de saúde mental, segundo prontuários médicos antes não revelados, documentos do governo e entrevistas com ex-presos e médicos civis e militares. Alguns passaram a apresentar os mesmos sintomas que os prisioneiros de guerra americanos, que foram brutalizados décadas atrás por alguns dos regimes mais cruéis do mundo.

Entre os que foram submetidos às táticas estão vítimas de erro de identidade ou evidência inconsistente, que posteriormente foram rejeitadas pelos Estados Unidos. Outros eram soldados rasos do Taleban ou da Al Qaeda que posteriormente foram considerados de pouca ameaça. Alguns eram terroristas calejados, incluindo os acusados de tramar os ataques do 11 de Setembro ou o atentado a bomba de 2000 contra o destróier americano Cole. Em vários casos, a saúde mental deles complicou o longo esforço da nação de levá-los à Justiça.

Os americanos há muito debatem o legado dos métodos de interrogatório pós-11 de Setembro, se perguntando se representavam tortura ou se tiveram sucesso em extrair inteligência. Mas mesmo enquanto o presidente Barack Obama continua transferindo pessoas de Guantánamo e Donald Trump, o candidato presidencial republicano, promete trazer de volta técnicas agora proibidas, como a simulação de afogamento, o custo humano permanece em grande parte não calculado.

Pelo menos metade das 39 pessoas que foram submetidas ao programa de "interrogatório aprimorado" da CIA, que incluía privação de sono, serem encharcados de água gelada, serem jogados contra as paredes e trancados em caixas que pareciam caixões, de lá para cá passaram a exibir problemas psiquiátricos, como descobriu o "New York Times". Algumas foram diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático, paranoia, depressão e psicose.

Outras centenas de detidos que passaram pelos "buracos negros" da CIA ou por Guantánamo, onde os militares infringiram privação sensorial, isolamento, ameaça com cães e outras táticas a homens que agora exibem transtornos sérios. Quase todos foram soltos.

"Não há dúvida de que essas táticas foram totalmente inconsistentes com nossos valores como americanos, e suas consequências representam desafios duradouros para nós como país e para os indivíduos envolvidos", disse Ben Rhodes, o vice-conselheiro de segurança nacional.

O governo americano nunca estudou os efeitos psicológicos de longo prazo das práticas extraordinárias de interrogatório que adotou. Uma porta-voz do Departamento de Defesa, ao ser perguntada sobre os danos mentais de longo prazo, respondeu que os prisioneiros foram tratados de forma humana e que tiveram acesso a excelente atendimento de saúde. Um porta-voz da CIA se recusou a comentar.

Pesquisadores alertam que pode ser difícil determinar causa e efeito nos casos de doenças mentais. Alguns prisioneiros da CIA e das Forças Armadas já apresentavam problemas psicológicos que podem tê-los deixado mais suscetíveis a problemas de longo prazo; outros pareciam notavelmente resistentes. O encarceramento, em particular a detenção por tempo indeterminado sem acusações adotada pelos Estados Unidos, é inerentemente estressante. Mesmo assim, consultores médicos externos e ex-funcionários do governo disseram ter visto um padrão ligando às práticas duras a problemas psiquiátricos.

Aqueles que tratam os prisioneiros em Guantánamo por problemas de saúde mental geralmente não perguntam aos seus pacientes o que aconteceu durante seus interrogatórios. Alguns médicos, entretanto, viram evidência de dano mental quase imediatamente.

Após alguns prisioneiros serem soltos da custódia americana, alguns não tiveram nem ajuda e nem alívio. Mohammed Abdullah al-Asad, um empresário na Tanzânia, e outros foram detidos, interrogados e presos, e então foram enviados para casa sem explicação. Eles voltaram para suas famílias profundamente marcados pelos interrogatórios, isolamento e ameaças sexuais, nudez forçada, buscas agressivas em cavidades no corpo e por serem mantidos em fraldas.

Asad, que morreu em maio, ficou detido por mais de um ano em várias prisões secretas da CIA. "Às vezes, entre marido e mulher, ele admitia quão mal se sentia", escreveu sua viúva, Zahra Mohamed, em uma declaração preparada para a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. "Ele foi humilhado e aquele sentimento nunca desapareceu.

 

'Um esfregão humano'

Em uma sala fria antes usada para interrogatórios em Guantánamo, Stephen N. Xenakis, um ex-psiquiatra militar, se viu diante de uma ex-criança soldado da Al Qaeda, Omar Khadr. Era dezembro de 2008 e sua avaliação levou dois anos.

Khadr, um cidadão canadense, foi ferido e capturado em um tiroteio aos 15 anos em uma instalação de supostos terroristas no Afeganistão, para onde, ele disse, foi enviado pelo seu pai, um membro da Al Qaeda, como intérprete para os combatentes estrangeiros. Anos depois, ele se declarou culpado por crimes de guerra, incluindo atirar uma granada que matou um médico do Exército. Na época, entretanto, ele era o prisioneiro mais jovem em Guantánamo.

Ele disse aos seus advogados que soldados americanos o mantiveram sem dormir, cuspiram no seu rosto e ameaçaram estuprá-lo. Em um consulta com o psiquiatra, Khadr, na época com 22 anos, começou a transpirar e a se abanar, apesar do frio do ar-condicionado. Ele arrancou sua camisa e Xenakis percebeu que estava testemunhando um ataque de ansiedade.

Quando aconteceu de novo, Khadr explicou que certa vez urinou durante um interrogatório e os soldados o arrastaram pela urina. "Esta foi a sala onde me usaram como esfregão humano", ele disse.

Xenakis descobriu que Khadir tinha transtorno de estresse pós-traumático, uma conclusão que os militares contestaram. Muitos dos diagnósticos de Xenakis em outros casos permanecem confidenciais ou permanecem sob segredo de Justiça, mas ele disse que encontrou de forma consistente elos entre os duros métodos de interrogatório americanos e transtornos psiquiátricos.

De volta para casa na Virgínia, Xenakis passou a pesquisar os efeitos de práticas abusivas. Ele encontrou décadas de trabalhos sobre o assunto, ciência que não foi considerada quando o governo começou a elaborar as novas políticas de interrogatório após o 11 de Setembro.

No final da Guerra do Vietnã, médicos militares notaram que ex-prisioneiros de guerras desenvolveram muito mais transtornos psiquiátricos que outros soldados, uma observação também feita em relação a ex-prisioneiros de guerra da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Os dados não podiam ser explicados apenas pelo aprisionamento, apontaram os pesquisadores. Ex-soldados que sofreram tortura ou maus-tratos apresentavam maior probabilidade que outros de desenvolver problemas de longo prazo.

Em meados dos anos 80, a Administração dos Veteranos passou a associar esse tipo de tratamento a perda de memória, sobressaltos exagerados, pesadelos, dores de cabeça e incapacidade de concentração. Estudos notaram sintomas semelhantes entre os sobreviventes de tortura na África do Sul, Turquia e Chile. Essas pesquisas ajudaram a estabelecer a base para a forma como os médicos americanos agora tratam veteranos de combate.

"Olhando para trás, isso deveria ter vindo à tona" no debate dos interrogatórios pós-11 de Setembro, disse John Rizzo, o principal advogado da CIA na época. "Não acho que os efeitos de longo prazo foram explorados de modo profundo."

Em vez disso, o governo se apoiou em dados de um programa de treinamento para resistir a interrogatórios inimigos, chamado Sere, sigla em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga. Os militares concluíram que havia pouca evidência de que a privação de sono, quase fome, nudez e temperaturas extremas causaram mal aos militares que passaram pelo treinamento em cenários controlados.

Dois psicólogos veteranos do Sere, James Mitchell e Bruce Jessen, trabalharam com a CIA e com o Pentágono para desenvolvimento das táticas de interrogatório. Eles basearam em parte suas estratégias na teoria da "impotência aprendida", uma frase cunhada pelo psicólogo americano Martin E.P. Seligman no final dos anos 60. Ele dava choques elétricos em cães e descobriu que eles paravam de resistir assim que aprendiam que não podiam impedir os choques. Se os Estados Unidos pudessem deixar os homens impotentes, era o pensamento, eles entregariam seus segredos.

No final, os advogados do Departamento de Justiça concluíram que os métodos não representavam tortura, o que é ilegal segundo a lei americana e internacional. Em uma série de memorandos, eles escreveram que não existia evidência de que resultaria em "dano psicológico significativo de duração significativa, isto é, com duração de meses ou anos".

Com o temor de outro ataque terrorista, havia pouco incentivo ou tempo para encontrar evidência contrária, disse Rizzo. "O governo queria uma solução", ele lembrou. "Ele queria uma forma de fazer esses sujeitos falarem."

Pelo menos 119 homens passaram pelas prisões da CIA, onde os interrogatórios visavam provocar disrupção nos sentidos e aumentar a impotência, fatores que os pesquisadores disseram décadas antes que podiam deixar as pessoas mais suscetíveis a danos psicológicos. Nudez forçada, privação sensorial e luz ou escuridão intermináveis eram consideradas rotineiras.

Hoje em Guantánamo, a paisagem caribenha está retomando os vestígios do sistema de detenção americano. Trepadeiras tomaram as cercas das áreas abandonadas do complexo carcerário. As torres de guarda estão vazias. Tudo está sinistramente silencioso.

Obama proibiu o interrogatório coercitivo em seu segundo dia na presidência, e seu governo reduziu a população no presídio de quase 700, no seu auge, para 61. Os interrogatórios acabaram há muito tempo. Exceto pelos chamados detidos de alto valor, mantidos em um prédio escondido nas colinas, a maioria dos presos restante compartilha uma prisão de concreto chamada Campo 6.

Ao ser perguntado sobre o bem-estar psicológico deles, o contra-almirante Peter J. Clarke, o comandante de Guantánamo, disse em uma entrevista: "O que observo são detidos bem ajustados e não vejo indícios de efeitos adversos de qualquer coisa que possa ter acontecido no passado".

É difícil determinar a escala dos problemas de saúde mental em Guantánamo, muito menos quantos casos estão associados ao tratamento dado aos prisioneiros. A maioria dos prontuários médicos permanece confidencial. Mas relatos surgiram ao longo dos anos.

Um dos poucos vislumbres oficiais da população da prisão apareceu em um artigo para uma revista médica de 2006. Dois psicólogos militares e um psiquiatra em Guantánamo escreveram que cerca de 11% dos detidos estavam recebendo na época atendimento de saúde mental, uma taxa mais baixa do que nos presídios civis ou entre ex-prisioneiros de guerra americanos. Mas os autores reconheceram que os médicos em Guantánamo enfrentavam dificuldades significativas para o diagnóstico de doenças mentais, mais notadamente a dificuldade em desenvolver confiança. Muitos presos, incluindo alguns com quadros sérios de doença mental, recusavam avaliação e tratamento, notou o estudo, o que pode ter reduzido a contagem.

Cinco anos depois, Xenakis e Vincent Iacopino, o diretor médico da organização Médicos pelos Direitos Humanos, publicaram uma pesquisa envolvendo nove presos que passaram a exibir sintomas psicológicos após serem submetidos às táticas de interrogatório (uma mangueira enfiada à força na boca, a cabeça enfiada dentro do vaso sanitário, ameaças de morte) por seus carcereiros americanos.

Os dois basearam seu estudo em prontuários médicos e arquivos de interrogatório dos presos, todos eles chegando em Guantánamo em seu primeiro ano, nunca estiveram sob custódia da CIA e nunca foram acusados de crime algum. Em nenhum dos casos, disse o estudo, os médicos de Guantánamo perguntaram se os sintomas estavam associados às táticas de interrogatório.

Jawad Sukhanyar, em Cabul (Afeganistão); Rami Nazzal, em Jerusalém (Israel); Nour Youssef, no Cairo (Egito); Hwaida Saad, em Beirute (Líbano); Maher Samaan, em Paris (França); Suliman Ali Zway, em Berlim (Alemanha); e Karam Shoumali, em Istambul (Turquia), contribuíram com reportagem adicional. Kitty Bennett e Alain Delaquérière contribuíram com pesquisa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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