Em meio aos desastres naturais, quem falará em prol das árvores do Haiti?

Laurent Dubois*

Em Durham, Carolina do Norte (EUA)

  • Danilo Verpa/Folhapress

Sobrevoando as montanhas de Porto Príncipe, Haiti, há poucos anos, eu estava sentado ao lado de uma voluntária que fazia sua primeira viagem ao país. "Estou vendo árvores", ela disse, apontando para as encostas. "Eles nos disseram que não havia árvores."

As descrições do país por estrangeiros frequentemente dizem que é quase que completamente desmatado. As pessoas citam com frequência uma foto famosa da "National Geographic", de 1987, da fronteira entre a República Dominicana e o Haiti, coberta de floresta de um lado e deserta do outro, como prova. Na imaginação comum, os haitianos literalmente devoraram suas florestas. Na semana passada, um meteorologista na Flórida, descrevendo o impacto do furacão Matthew, disse: "Até mesmo as crianças dali, elas passam tanta fome que comem de fato as árvores".

Na verdade, um terço do Haiti é coberto de árvores e muitas áreas com pouca vegetação sempre foram dessa forma. Mas o país tem um problema de desmatamento. Ele é apenas mais complicado do que o mundo imagina. Após o furacão devastador, com as plantações destruídas por todo o país, os haitianos precisam urgentemente reconstruir suas casas e garantir acesso a água e comida. Mas este é um momento crucial para promover uma resposta séria de longo prazo ao desmatamento, que agrava as inundações causadas por furacões e tempestades. Um primeiro passo é parar de retratar o problema do desmatamento em termos simplistas e enganadores. As populações rurais do Haiti não são culpadas e nem vítimas, mas participantes fundamentais no projeto para reverter o desmatamento.

A destruição das florestas do Haiti ocorre há séculos. Quando os franceses colonizaram a ilha a partir do século 17, eles cortaram as árvores para madeira e combustível, assim como o mogno para móveis. No final do século 18, ele era a colônia agrícola mais lucrativa do mundo, habitada principalmente por escravos e produzindo açúcar e café para exportação. As encostas próximas das cidades já tinham sido desmatadas e as cidades coloniais frequentemente enfrentavam inundações.

Após a bem-sucedida guerra do Haiti pela independência em 1804. os ex-escravos tiveram acesso às terras do país, e o desmatamento prosseguiu rapidamente. Eles cultivavam pés de café, árvores frutíferas e extraíam madeira em suas fazendas, parte de uma economia em expansão, enraizada em uma rede de mercados e portos. Madeiras corantes foram colhidos e exportadas do Haiti ao longo de todo o século 19.

As primeiras fotos aéreas da ilha, tiradas durante a ocupação americana no início dos anos 30, ainda mostram uma cobertura de árvores relativamente grande. Mas nos anos 40 e 50, o desmatamento acelerou. Em seus romances, escritores haitianos como Jacques Roumain e Marie Vieux Chauvet retratam um país rural caindo na pobreza em um constante ciclo vicioso: o aumento da população colocava mais pressão sobre as florestas, cuja exploração excessiva e destruição tornavam as terras cada vez menos produtivas. Muitos partiram para as cidades, que cresceram exponencialmente, com suas populações dependentes do carvão produzido pelo corte de árvores no interior.

O governo haitiano fez pouco para ajudar, em vez disso cortejando interesses empresariais estrangeiros. No início dos anos 40, um projeto haitiano-americano desmatou mais de 20 mil hectares para plantio de seringueiras, em uma contribuição para o esforço de guerra americano. O plano fracassou e deixou a paisagem marcada. Apenas na área de Jérémie, até um milhão de árvores frutíferas foram destruídas. A indústria não foi a única culpada: em 1941, como parte de uma campanha "antissuperstição" liderada pela Igreja Católica, as árvores mapou sagradas foram cortadas.

A situação se agravou durante as três décadas das ditaduras Duvalier. François Duvalier ordenou que áreas da fronteira com a República Dominicana fossem desmatadas, para facilitar o policiamento. Quando seu filho foi derrubado em 1986, o país enfrentava uma crise ambiental. A nova Constituição incluiu um chamado à proteção das "reservas florestais" por meio do desenvolvimento de alternativas para o carvão, mas pouco foi feito para concretizar isso.

Alguns projetos, entretanto, tiveram sucesso, Nos anos 80, o antropólogo americano Gerald Murray desenvolveu um programa para ajudar os agricultores haitianos a plantarem árvores para extração de carvão e madeira. Mudas foram fornecidas por uma rede de viveiros, e ao longo de duas décadas cerca de 300 mil lares participaram do plantio, cultivo e colheita de milhões de árvores. Mais recentemente, o Fundo Lambi do Haiti tem trabalhado com uma rede de grupos comunitários para plantio de 3 milhões de árvores em diferentes partes do Haiti.
Ainda existem bloqueios para o reflorestamento, especialmente nas encostas. Os moradores das áreas rurais temem dedicar esforço ao cultivo de árvores longe de suas casas, onde é fácil para outros cortá-las. Mas nos últimos anos alguns tiveram sucesso em tratar desse problema, ao organizarem os esforços de reflorestamento ao longo das bacias hidrográficas. Onde há árvores em locais elevados, suas raízes e solos mais ricos absorvem a chuva, que diminuem o escoamento de água e inundações. Quando as organizações cuidam do problema de forma holística, conectando as comunidades de cima a baixo de uma bacia hidrográfica, o desmatamento pode ser revertido com sucesso notável.

Ao longo das últimas duas décadas, por exemplo, uma organização chamada Codep tem ajudado as comunidades haitianas na bacia de Cormier, no sul do país, a criar florestas nas encostas, onde frutas são colhidas para os mercados locais. Em Porto Príncipe, outra organização, a Fokal, desenvolveu um projeto notável em torno do verdejante Parque Martissant, antes uma propriedade da dançarina e antropóloga Katherine Dunham, combinando educação, trabalho com as comunidades rurais nas colinas acima da cidade, e uma reconstrução dos canais para canalizar a água durante as chuvas.

Essas iniciativas fornecem exemplos claros do que funciona. Essas estratégias devem ser ampliadas e compartilhadas nacionalmente, para que possam ser aplicadas nas diversas bacias hidrográficas do Haiti.

Os desafios são imensos, com certeza. Mas este é o momento para explorar o conhecimento já presente em muitas comunidades sobre como reflorestar o país. Temos que imaginar um Haiti coberto por árvores e começar a plantar esse futuro.

*Laurent Dubois, um professor de estudos literários e história da Universidade Duke, é autor de "Haiti: The Aftershocks of History", ou "Haiti: Os Tremores secundários da História", em tradução livre, não lançado no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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