Fascínio e medo dominaram a cobertura do NYT sobre os Panteras Negras

Giovanni Russonello

  • AP

    Huey Newton e Bobby Seale (armado), cofundadores do Partido dos Panteras Negras

    Huey Newton e Bobby Seale (armado), cofundadores do Partido dos Panteras Negras

O Partido dos Panteras Negras foi fundado há 50 anos em Oakland, na Califórnia, em 15 de outubro de 1966. Em dois anos, tinha diretórios em todos os EUA. Para marcar a ocasião, o "New York Times" está explorando o legado dos Panteras Negras através de sua iconografia e da cobertura que eles tiveram em nossas páginas.

Cinquenta anos depois, imagens da época áurea dos Black Panthers ainda tremulam na memória nacional. Com suas jaquetas de couro, boinas pretas e marchas em formação cerrada, esses jovens revolucionários estavam preparados para a cobertura na mídia e para a posteridade.

Com a era heroica do movimento pelos direitos civis chegando ao fim em 1966, os Panteras Negras mostraram que uma luta mais radical pela justiça racial podia ser fotogênica, mesmo que fosse menos palatável para a corrente dominante.

Uma tensão irônica surgiu no modo como a imprensa tratou os Panteras Negras: os jornalistas ficaram ao mesmo tempo fascinados e assustados por eles. E "The New York Times" não foi exceção.

"Ao mesmo tempo que o jornal era dúbio e cético sobre eles, dava-lhes um enorme volume de cobertura", disse Jane Rhodes, professora de estudos afro-americanos na Universidade de Illinois, em Chicago, e autora de "Framing the Black Panthers: The Spectacular Rise of a Black Power Icon" [Emoldurando os Panteras Negras: a ascensão espetacular de um ícone do poder negro, em tradução livre].

"A mídia, assim como a maioria da América branca, estava profundamente assustada com seu estilo de protesto agressivo e assertivo", disse Rhodes. "E eles ficaram ofendidos com isso."

Quando Huey Newton e Bobby Seale fundaram o Partido dos Panteras Negras (BPP na sigla em inglês), seu primeiro objetivo era confrontar o que consideravam uma epidemia de brutalidade policial. Eles foram às ruas com rifles, vigiando os policiais em patrulha. A Assembleia da Califórnia reagiu rapidamente, propondo uma lei que proibia o porte de armas de fogo.

Então, os Panteras, totalmente armados, marcharam em protesto rumo ao Capitólio da Califórnia. A mídia nacional tomou nota.

A primeira reportagem no "Times" sobre os Panteras foi um material enviado por agência, "Negros armados protestam contra lei de armas", publicada em 3 de maio de 1967. A matéria começava assim: "Com rifles e pistolas carregados nas mãos, membros do Partido Panteras Negras, anti-brancos, marcharam em direção ao Capitólio estadual hoje".

O que o artigo não disse explicitamente, embora fosse relatado mais tarde por outros, foi que os Panteras tinham lido um comunicado naquela tarde pedindo que "o povo americano em geral" --não apenas afro-americanos-- os ajudasse em seu movimento por direitos.

O "Times" enviou seu próprio repórter alguns dias depois para escrever um perfil de Huey Newton, o jovem cofundador do partido. Esse artigo foi tão comedido quanto o primeiro. Mal mencionou a brutalidade policial, preferindo dar toda a atenção ao fato de que os Panteras tinham armas. "O poder político vem por meio do cano de uma arma", teria dito Newton.

Até certo ponto, os Panteras eram responsáveis por se apresentarem como uma legião pronta para a luta. "Era assim que o Partido Panteras Negras queria ser visto", disse Todd Gitlin, um professor de jornalismo e sociologia na Universidade Columbia. "Os Panteras e o 'Times' estavam participando de uma coprodução."

E em artigos subsequentes, o jornal investigou mais de perto os objetivos amplos dos Panteras. Um artigo na "Times Magazine", de Sol Stern, afirmou que "descartar os Panteras como um grupo marginal de pequena influência é não ver o ponto principal. As raízes do grupo estão no desespero e na raiva que nenhuma lei de direitos civis ou programa contra a pobreza abordou no gueto".

Conforme a tensão com a polícia escalava para choques cada vez mais violentos, porém, a imprensa se concentrava com crescente intensidade na violência entre os Panteras e a polícia --especialmente o choque entre Newton e um policial em outubro de 1967, que levou a um julgamento por assassinato no ano seguinte. Deu-se muito menos atenção às críticas do partido à polícia.

O que não foi relatado, de modo geral, é que esses conflitos derivavam não apenas dos Panteras Negras, mas também do governo federal.

Com diretórios do BPP surgindo em dezenas de cidades, o então diretor do FBI, J. Edgar Hoover, montou uma operação encoberta para desacreditar o grupo e criar rachas em seu interior. Ele declarou os Panteras Negras "a maior ameaça à segurança interna do país".

Foi somente anos depois que a Comissão Church do Senado revelou o modo pervasivo como o FBI agiu contra os Panteras Negras e o quanto influenciou sua cobertura na imprensa. Ele incentivou as forças policiais urbanas a confrontar os Panteras Negras, plantou informantes e agentes provocadores e intimidou membros de comunidades locais que eram simpáticos ao grupo.

O conflito entre os Panteras Negras e a polícia, que, inevitavelmente, se seguiu, favoreceu a narrativa que havia sido definida: que o partido era uma organização provocativa e perigosa.

Isso nunca ficou mais claro que em 1969, quando a campanha do FBI para minar o partido atingiu o auge. Vinte e um Panteras Negras de Nova York, conhecidos como Panteras 21, foram acusados de tramar a explosão de bombas por toda a cidade. Seguiu-se um surto de cobertura na mídia, com o "Times" entre os veículos que abriram caminho.

Quase dois anos depois, todos os réus foram absolvidos, quando ficou claro que as acusações derivavam quase totalmente das provocações de três agentes do FBI que se haviam inserido na organização.

Documentos internos divulgados durante um processo movido por Dhoruba al-Mujahid bin Wahad, um dos réus, mostram que o FBI tinha usado a imprensa --especialmente a mídia de Nova York-- para gerar dissensão no partido e transmitir a impressão de que era um grupo instável.

Agentes escreveram sobre "um esforço para obter publicidade na mídia salientando o atrito entre pessoal da liderança do partido nas costas leste e oeste", segundo um memorando do FBI apresentado nos anos 1980 pela equipe jurídica de Wahad. Outro discute "distribuir cópias de um artigo crítico sobre o partido que foi publicado em 'The New York Times'".

Enquanto o "Times" se concentrava no julgamento e em outros conflitos entre os Panteras e a polícia, o partido organizava uma série de programas para afro-americanos em Nova York. Mas eles passaram quase despercebidos.

"Não recebíamos nenhuma cobertura da mídia quando fazíamos essas coisas, na verdade. Só quando algum de nós era preso", disse Wahad em uma entrevista.

A partir do final de 1968, cansados do conflito constante e do que consideravam cobertura sensacionalista, os Panteras redirigiram seus esforços para longe da polícia e na direção de fornecer atendimento de saúde e outros serviços aos pobres urbanos. Começaram na Área da Baía de San Francisco, na Califórnia, com um programa de café da manhã para escolares e depois desenvolveram iniciativas em torno da educação e habitação.

O "Times" chegou a relatar alguns desses programas, mas geralmente em tom de ceticismo. Um artigo em 7 de dezembro de 1968 mencionou o programa de alimentação gratuita do partido, mas sugerindo que fazia parte de uma trama para doutrinar afro-americanos. O artigo, "Panteras Negras crescem, mas seus problemas aumentam", sugeria que conforme o partido crescia intimidava os moradores e lutava para formular uma direção coerente. Quando mencionou o programa alimentar, chamou-o meramente de "um meio de melhorar sua imagem".

O "Times" pintou uma imagem ligeiramente diferente em junho seguinte, quando publicou uma reportagem especial sobre o programa, quase nove meses depois que o jornal oficial do partido, "The Black Panther", anunciou a iniciativa.

Mas principalmente os programas eram tratados como golpes de publicidade, ou pior.

O fato de o "Times" ter reagido, até certo ponto, à mudança de foco da organização foi sobretudo por causa do quadro crescente de repórteres afro-americanos. Em julho de 1969, Earl Caldwell, que é negro, escreveu um artigo, "Reunião dos Panteras muda metas do confronto racial para luta de classes", e o fez seguir de um artigo na seção "A Semana em Revista", "Panteras não são mais a mesma organização".

"Uma coisa que o 'Times' descobriu foi que os Panteras vendiam jornal", disse Rhodes. "A cobertura dos Panteras estava atraindo um público mais jovem, talvez mais negro."

"Os repórteres negros podiam fazer um trabalho muito melhor porque tinham maior credibilidade e acesso", disse ela.

Mas isso estava se tornando um ponto discutível: em 1969, o partido havia, de modo geral, se dividido e suas facções das costas leste e oeste estavam marcadas pela desconfiança, principalmente por causa do FBI. E no tribunal da opinião pública os Panteras já tinham perdido.

Uma pesquisa Harris mostrou que em abril de 1970 apenas 10% dos americanos pensavam que "um número considerável de Panteras Negras foi morto a tiros pela polícia" porque os policiais estavam tentando eliminar os Panteras --exatamente o que Hoover disse, em particular, que era sua missão. Três quartos do país disseram que os tiros da polícia contra os Panteras se deviam à violência iniciada pelos próprios Panteras.

Apenas 16% achavam que os Panteras faziam um bom trabalho para jovens de baixa renda.

Examinando a cobertura da imprensa na época, Rhodes disse que houve progressos no que se refere à cobertura de raça e ativismo. "Vejo organizações como o 'Times' fazendo um esforço muito mais firme para uma cobertura mais profunda", disse ela. Mas os artigos ainda tendem a enfatizar o conflito entre a polícia e os manifestantes, explicou, sem abordar os princípios centrais que conduzem movimentos sociais como o Vidas Negras Importam: maior investimento em educação pública, controle comunitário da polícia e justiça econômica.

"Há muitos exemplos a se aprender com os Panteras Negras, em termos de examinar não apenas a retórica e os estilos de protesto, mas também buscar certo entendimento do que significa o protesto e do que ele pretende", disse ela.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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