Deserto na China se expande e ameaça criar grande mar de areia no norte do país

Josh Haner, Edward Wong, Derek Watkins e Jeremy White

No deserto de Tengger (China)

  • Josh Haner/The New York Times

O deserto de Tengger fica na margem sul do imenso deserto de Gobi, não longe de grandes cidades como Pequim. E o Tengger está crescendo.

Há anos, os desertos da China estão se expandindo a uma taxa anual de mais de 3.500 quilômetros quadrados. Muitos vilarejos se perderam. A mudança climática e as atividades humanas aceleraram essa desertificação. A China diz que os esforços do governo para reassentar moradores, plantar árvores e limitar o pastoreio desaceleraram ou reverteram a desertificação em algumas áreas. Mas a utilidade dessas políticas é debatida por cientistas e os desertos estão expandindo em regiões críticas.

Quase 20% da China hoje são áreas desérticas, e a seca no norte do país está piorando. Uma estimativa recente diz que a China está com 54 mil quilômetros quadrados a mais de deserto do que em 1975, cerca do tamanho da Croácia. À medida que Tengger expande, ele está se fundindo a dois outros desertos para formar um vasto mar de areia que pode vir a se tornar inabitável.

Por todo o norte da China, gerações de famílias ganharam a vista pastoreando animais na beira do deserto. As autoridades dizem que juntamente com a mudança climática, o pastoreio excessivo contribui para o crescimento do deserto. Mas alguns experimentos sugerem que o pastoreio moderado pode atenuar os efeitos da mudança climática sobre as pastagens e as políticas chinesas de reassentamento de pastores podem minar isso.

Em uma área chamada Alxa League, o governo realocou cerca de 30 mil pessoas, que são chamadas de "migrantes ecológicos", por causa da desertificação.

As autoridades deram a Liu Jiali, 4 anos, e sua família uma casa em um vilarejo a cerca de 10 quilômetros do Lago do Cisne, um oásis onde há um parque turístico. Para obrigá-los a se mudarem e vender seu rebanho de mais de 70 ovelhas, 30 vacas e oito camelos, as autoridades ofereceram um subsídio equivalente a US$ 1.500 (ou cerca de R$ 4.680) para cada um de seus pais e US$ 1.200 (cerca de R$ 3.740) para a avó que vive com eles.

A mãe de Jiali, Du Jinping, 45 anos, disse que a família viveria no novo vilarejo no inverno, mas voltaria ao Lago do Cisne no verão.

Os governos locais nas regiões de deserto começaram a realocar as pessoas para longe do avanço da areia décadas atrás. Mas as áreas densamente povoadas estão avançando na direção dos desertos, à medida que os desertos crescem na direção das cidades.

As tempestades de areia estão se tornando cada vez mais frequentes e intensas, chegando a Pequim e outras cidades grandes. "Nós tememos as tempestades de areia", disse Du.

Aqueles que vivem à beira dos desertos tentam limitar o avanço constante da areia. Juntamente com os governos locais, eles plantam árvores em um esforço para bloquear o vento e estabilizar o solo.

Muitas pessoas nesta área são famílias que fugiram de Minqin, na margem oeste do deserto de Tengger, durante a Grande Fome da China de 1958-1962, quando dezenas de milhões morreram.

Guo Kaiming, 40, um agricultor que também dirige um parque turístico à beira do deserto de Tengger, plantou em junho fileiras de árvores à margem de uma nova estrada que cruza o deserto.

Guo pegou mudas que o governo deixou para trás após completar uma operação de plantio de árvores. Ele disse que ainda não está pronto a se juntar aos refugiados climáticos. Ele tem plantações de milho e trigo, mais a renda do parque.

No ano passado, a empresa que administra o parque pagou estudantes para fazerem sete esculturas gigantes de areia como atração. Mas os fortes ventos do deserto as estragaram.

"Todas elas foram estragadas", disse Guo. "O vento é forte."

O governo incentiva agricultores como Guo porque, na sua visão, a agricultura pode ajudar a retomar terras do deserto. As autoridades oferecem subsídios: Guo recebe US$ 600 (cerca de R$ 1.870) por "terra produtiva de proteção ecológica".

Mas a agricultura está se tornando cada vez mais difícil. Huang Chunmei, que cresceu na cidade de Tonggunao'er e agora tem plantação ali, disse que o lençol freático ficava a cerca de 2 metros abaixo do solo durante sua infância, "mas agora é preciso cavar 4 ou 5 metros".

Huang plantou mais de 200 árvores por conta própria neste ano, na esperança de que ajudariam a bloquear as tempestades de areia e conter o avanço do deserto.

"O solo não é tão macio ou tão bom quanto antes", ela disse. "Temos que usar mais fertilizante agora."

Huang e seu marido enviaram sua filha de 14 anos para um internato em uma cidade próxima.

"Não quero que minha menina volte", ela disse. "A areia e o vento tornam a vida difícil aqui."

Cerca de 17% da população em Alxa League são de etnia mongol, cujas vidas e modo de viver há muito estão ligados ao pastoreio de rebanhos que o governo está tentando parar.

Mengkebuyin, 42, e sua mulher, Mandula, 41, cultivam milho e girassóis, mas suas 200 ovelhas fornecem grande parte de sua renda. Eles vendem a carne para um restaurante de hotel em uma cidade próxima.

As ovelhas pastam no deserto, onde a relva está se tornando escassa. Elas perambulam perto da velha casa de sua família, perto das margens de um lago que secou anos atrás. Ele gostaria de se mudar para pastagens melhores, mas o governo não permite. Mengkebuyin e sua mulher mantêm a velha casa, mas não ficam por longos períodos. Eles se mudaram para um vilarejo a oito quilômetros de distância.

Mengkebuyin e Mandula decidiram que querem que a filha deles de 16 anos more e trabalhe em uma cidade.

Quatro gerações da família de Mengkebuyin viveram às margens do lago em uma comunidade próspera. Mas gradualmente, todos partiram.

O deserto tomou conta de tudo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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