Em corpos de jihadistas, autoridades buscam pistas para estratégia do EI no Iraque

Michael R. Gordon*

Em Kirkuk (Iraque)

  • Marwan Ibrahim/AFP

    Forças do governo iraquiano patrulham área de Kirkuk (Iraque) em busca de membros do Estado Islâmico

    Forças do governo iraquiano patrulham área de Kirkuk (Iraque) em busca de membros do Estado Islâmico

Oitenta e quatro corpos de combatentes do Estado Islâmico estavam empilhados no necrotério do hospital de Kirkuk, enquanto médicos-legistas realizavam o horrível trabalho de obter inteligência sobre o contra-ataque repentino do grupo na cidade.

Um por um, os cadáveres eram removidos dos sacos pretos de corpos para que impressões digitais e DNA pudessem ser preservados. Se nenhum parente se apresentar para requisitar a retirada dos restos mortais, os corpos serão cremados.

Enquanto isso, uma unidade local de contraterrorismo está analisando os celulares dos combatentes em busca de dados e tentando descobrir moradores que fizeram ou receberam chamadas. Ela está tentando descobrir se a cidade ainda corre risco de infiltração ou outro ataque.

"O que fizeram conosco dentro de Kirkuk foi disparadamente o pior que já vimos", disse Polad Talabani, o comandante da força curda de contraterrorismo, que foi chamada da cidade próxima de Sulaimaniya para ajudar a debelar o ataque à cidade antes do amanhecer de 21 de outubro.

Além dos militantes, 116 pessoas foram mortas no combate, incluindo 43 policiais, 33 peshmerga e outros seguranças, assim como 21 civis, entre eles vários técnicos iranianos que trabalhavam na usina elétrica próxima, disseram as autoridades. Cerca de 265 pessoas ficaram feridas.

Grande parte da atenção estava voltada para a cidade próxima de Mossul, para onde as forças iraquianas e curdas estavam avançando pelo norte, leste e sul para retomar a cidade controlada pelo Estado Islâmico.

Mas o ataque repentino dos militantes a Kirkuk, uma região rica em petróleo que esteve sob controle dos curdos nos últimos dois anos, fornece uma janela para a estratégia do Estado Islâmico de atacar outros lugares mesmo estando sob cerco em Mossul.

Como reconstituído por meio de entrevistas aqui e em Sulaimaniya, o ataque do Estado Islâmico foi ambicioso e cuidadosamente planejado. Desde o início, os combatentes buscaram ocupar a sede do governo de Kirkuk enquanto prendia as forças policiais da cidade em sua base, para que não pudessem intervir.

A coalizão apoiada pelos Estados Unidos que está combatendo o Estado Islâmico no Iraque pode ter perdido a chance de rechaçar o ataque ao ter adiado o plano de tomada de Hawija, um enclave próximo do Estado Islâmico. Hawija parece ter sido o ponto de partida de alguns dos militantes envolvidos no ataque a Kirkuk.

Autoridades disseram que alguns relatórios de inteligência no início da semana passada alertavam que a sede do governo poderia ser atacada. Mas o que acabou ocorrendo foi muito além do que as autoridades esperavam, disse o governador da província de Kirkuk, Najmiddin Karim, que é um neurocirurgião formado nos Estados Unidos e que tem dupla cidadania iraquiana e americana.

Kirkuk sob ataque

Cerca de 100 combatentes do Estado Islâmico partiram de cidades como Hawija para uma área próxima de Daquq, onde foram encontrados na madrugada de 21 de outubro por sete caminhões, aparentemente dirigidos por motoristas familiarizados com Kirkuk.

Os combatentes seguiram para vários pontos táticos na cidade, incluindo os prédios altos em torno do quartel-general da polícia, onde usaram atirados para impedir a saída das forças de segurança de Kirkuk, disseram as autoridades. Enquanto isso, outros militantes assumiram posições no Snowbar Hotel, o que lhes dava uma ampla visão das áreas do governo amplamente protegidas.

O governador chamou Lahur Talabani, o chefe do serviço de inteligência curdo, que juntamente com seu irmão, Polad, o oficial da força de contra-terrorismo, correram de Sulaimaniya para Kirkuk.

Mas o Estado Islâmico aparentemente previu que reforços viriam de Sulaimaniya e preparou uma emboscada, disparando granadas propelidas por foguete e outras armas contra a força de ajuda e a obrigando a usar uma rota mais tortuosa, disseram as autoridades.

 

O Estado Islâmico também começou a realizar ataques com carros-bomba suicidas contra as forças peshmerga na linha de frente, em um aparente esforço para impedir o avanço das tropas curdas para que não pudessem ser usadas na defesa de Kirkuk.

Nem todos os combatentes do Estado Islâmico eram árabes sunitas do Iraque. Os combatentes aparentemente incluíam alguns curdos e alguns combatentes estrangeiros do Iêmen, disse Polad Talabani.

Vários combatentes do Estado Islâmico mortos em Kirkuk estavam equipados com localizadores GPS.

A meta política maior parecia ser incitar uma rebelião dos árabes sunitas, que se refugiaram da guerra em Kirkuk, a tomarem a sede do governo, mesmo que o ganho fosse temporário.

Enfatizando a meta de propaganda do ataque, um vídeo foi postado no YouTube supostamente mostrando as pessoas em Mosul celebrando as vitórias que os combatentes do Estado Islâmico tinham conseguido em Kirkuk.

Em resposta, as forças de contraterrorismo curdas usaram helicópteros para disparar contra as posições que os atiradores do Estado Islâmico assumiram nos prédios altos ao longo das rotas principais.

As ruas também se encheram de voluntários locais, e alguns moradores curdos começaram a disparar contra os militantes do Estado Islâmico, às vezes colocando a si mesmos e a seus vizinhos em perigo, disseram as autoridades.

Quatorze alunas de uma escola cristã se viram repentinamente presas quando os combatentes do Estado Islâmico invadiram seu dormitório perto do Snowbar Hotel. Abu Durayd, um representante local da Igreja, disse que pediu às alunas que desligassem seus celulares e se escondessem o melhor que pudessem, o que significou apagarem as luzes e ficarem debaixo de suas camas, quando os militantes entraram no prédio.

"Nós ficamos apavoradas", disse uma aluna de 22 anos, que disse apenas seu primeiro nome, Marlin. Enquanto ela se esforçava para evitar qualquer som, um combatente invadiu a cozinha e então sentou-se na cama dela para comer, ela disse. "Tínhamos cuidado até para respirar. Tudo o que podíamos fazer era rezar."

Depois que os combatentes fugiram ou detonaram seus cintos suicidas nos pisos mais baixos, um funcionário da igreja conduziu as estudantes para um local seguro.

Os civis iraquianos em um funeral em Daquq não tiveram a mesma sorte. Mais de uma dúzia de pessoas foi morta ou ferida por um ataque aéreo aparentemente realizado por engano pelos militares iraquianos, disseram as autoridades.

"Foi como se tivéssemos tomado um choque", disse Mona, 28 anos, uma moradora de Daquq cuja cabeça estava envolta em bandagens. "Eu tente me rastejar um pouco e então me colocaram em um carro. Não sabíamos o que fazer."

Um alto comandante do Estado Islâmico, que usa o nome de guerra Abu Islam, teria sido capturado. Ele é conhecido pelas autoridades de segurança, que dizem que ele também é um veterano de ataques pela Al Qaeda no Iraque, a antecessora do Estado Islâmico, contra as forças curdas em batalhas anteriores.

As autoridades curdas disseram que ficaram satisfeitas por terem rechaçado o ataque, apesar do custo ter sido elevado.

Após o ataque, as tensões entre árabes e curdos, há muito um problema na cidade, se intensificaram. Representantes da ONU disseram que centenas de famílias árabes, que estavam se refugiando em Kirkuk, foram forçadas a partir e as autoridades curdas disseram acreditar que terroristas podiam estar escondidos entre elas. Najmiddin insistiu que os relatos eram falsos.

Mas o governo disse que as queixas sunitas que o Estado Islâmico tenta explorar e fomentar não foram tratadas.

"Se não houver uma solução para os problemas políticos, eles simplesmente voltarão e se tornarão a Al Qaeda, Ansar al-Sunna ou o Naqshbandi", disse o governador sobre o futuro pós-Estado Islâmico, referindo-se a grupos terroristas.

"Não acho que vá terminar. É preciso que haja uma reconciliação política e isso não aconteceu."

*Kamil Kakol e um funcionário do "The New York Times" contribuíram com reportagem

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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