Com cursos e licença obrigatória, engolidor de fogo vira "profissão" em Nova York

Ilise S. Carter

Em Nova York

  • John Taggart/The New York Times

    Ilise Carter, que realiza performances como engolidora de fogo em Nova York

    Ilise Carter, que realiza performances como engolidora de fogo em Nova York

Se você quiser fugir com o circo, hoje seria tão fácil quanto sempre foi. Mas você teria que apresentar muita papelada: identidade com foto, prova de contar com seguro profissional e uma licença para apresentações com fogo E29 do Departamento do Corpo de Bombeiros de Nova York.

Atualmente, ser uma engolidora de fogo profissional não é algo tão maluco quanto alguém poderia pensar. Desde 1º de janeiro, todos os artistas que trabalham com fogo dentro dos cinco distritos da cidade de Nova York devem ser treinados e contar com licença. Quero dizer que isso é ótimo, pois garante a segurança do público e dos espaços, mas também me deixa um pouco triste.

Eu comecei a engolir fogo, como a maioria dos artistas de apresentações circenses, como aprendiz. No passado, se quisesse aprender algo como engolir fogo ou engolir espadas, era preciso encontrar um praticante experiente e pedir que lhe ensinasse os segredos que lhe dariam ingresso a um círculo muito pequeno de artistas. Agora, à medida que cuspir fogo ao estilo do festival Burning Man se tornou tão comum quanto as coroas de flores de Coachella, há até mesmo escolas que ensinam essas artes sombrias, como a Floasis, no Brooklyn. Não estou dizendo que é ruim exigir que artistas de uma arte potencialmente mortal tenham um treinamento rigoroso; só estou dizendo que visto de dentro, provoca o mesmo desconforto de punk velha que tenho ao pensar em pedir uma salada no restaurante com tema do CBGB no Aeroporto Internacional Newark Liberty, em Nova Jersey.

O processo de obtenção da licença é tão sexy quanto fazer um pedido de hipoteca. Você precisa fazer um curso de segurança, preencher uma tonelada de formulários, conseguir uma recomendação e seguir para a sede do Departamento do Corpo de Bombeiros para se encontrar com um membro da Unidade de Explosivos para testes. Quando chegou meu horário agendado, ridiculamente cedo em uma manhã recente de sexta-feira, fui conduzida pelo sistema por Mark Rothman, que tem o título invejável de inspetor supervisor de dinamitações. E tive que caminhar um bocado, já que toda a manhã consistiu de ir e vir entre repartições em vários andares, passando por vários guichês e salas de teste. Rothman é um sujeito imensamente agradável que, apesar de seu trabalho exigir perícia em explosivos industriais, posso facilmente imaginá-lo entrando em um prédio em chamas para salvar um punhado de gatinhos.

John Taggart/The New York Times
Tochas utilizadas por Ilise Carter em suas apresentações

Ele é conversador, sociável e parece amigo de praticamente todas as pessoas no prédio. Eu estava visivelmente nervosa e ele se esforçou para me tranquilizar, trocando histórias sobre antigas lendas de shows circenses de Nova York do passado distante, como a grande engolidora de espadas Estelline Pike e Al Flosso, o Faquir de Coney Island.

Eu aprendi a engolir fogo com uma artista chamada A.V. Phibes (nascida Alia Madden) na sala de estar dela no Brooklyn, após sua decisão de aposentar sua personagem Vulnavia, Rainha dos Pregos, e passar informalmente suas habilidades para alguns amigos. Ela tinha um pé direito alto e muita paciência, e eu tinha um fascínio por tudo o que era estranho, de modo que foi uma combinação natural. Ela foi minha sensei circense e permanecemos amigas. (Ela ainda se refere a mim como Gafanhoto.)

Nunca imaginei um futuro usando esses conhecimentos excêntricos em clubes, festas ou bar mitzvahs, mas é aí onde o dinheiro está, de modo que é para onde vou atualmente. Mesmo assim, trabalho principalmente como engolidora de espadas, já que o equipamento é mais fácil de ser transportado no metrô e os espaços se preocupam menos com meu corpo e mais com o estofamento.

Nos últimos meses, tenho conversado muito com artistas veteranos sobre como chegamos aqui e se gostamos dessa nova regulamentação. O sentimento entre os veteranos parece ser uma mistura de resignação com o estado das coisas e nossa própria nostalgia tola pelos tempos do Velho Oeste.

Scott Grabell, que costumava trabalhar em Nova York como Scotty, o Coelho Azul, e eu com frequência compartilhamos histórias de horror sobre trabalhos que vimos e fizemos. Ele se recordou de certa noite quando foi o apresentador: "Uma garota me passou um balde de gelo com uma vela nele e um agitador de metal cheio de combustível, dizendo: 'Você poderia levar isso lá para cima para mim e acender a vela?' Eu disse, 'Não!'"

John Taggart/The New York Times
Engolidora de fogo Ilise Carter guarda instrumentos em mala

Até mesmo artistas "profissionais" não parecem entender que recipientes abertos de combustível e chamas no mesmo lugar são uma má ideia.

Entre os anais das más ideias está a história de me pedirem para engolir fogo na apresentação burlesca de alguém em um porão no East Village, em Nova York, com cortinas baratas e uma única saída de incêndio. Quando expliquei à produtora quão perigoso aquilo era, ela disse que outra pessoa tinha feito aquilo na semana anterior. Não que Scotty e eu éramos muito melhores quando começamos;  tínhamos acabado de aprender, mas podíamos desdenhar outros artistas com um ar de veteranos.

Alguns artistas abandonaram quase totalmente o fogo. Stephanie Monseau, que foi fundadora do inovador Bindlestiff Family Cirkus e trabalha com a alcunha de Mestre de Picadeiro Philomena, diz que raramente se dá ao trabalho de se apresentar com tochas na cidade.

"É um risco para a saúde e peço muito dinheiro para fazer isso agora", disse Monseau. "Diferente dos velhos tempos ruins, quando havia um bocado de nós ganhando US$ 50 para fazer isso em todo bar ou clube de striptease! Mas a escola dos erros nos ensinou muito sobre o que não fazer. Quase todo artista de fogo que conheço já se queimou seriamente."

Até mesmo eu faço parte desse grupo, comparecendo a um trabalho certo dia parecendo o Fantasma da Ópera, após um incidente que resultou em queimaduras.

Não que Monseau ache que todos têm que aprender dessa forma. Ela gosta da ideia da intervenção do departamento dos bombeiros. "Se tratar-se de fato de aprender segurança, prevenção de ferimentos e avaliação de risco, assim como o estudo dos produtos químicos usados nas apresentações com fogo", ela disse.

O que me traz de volta a como cheguei aqui.

Muito antes de me apelidar de a Queridinha do Circo à Prova de Fogo e Dor, eu era uma editora financeira que trabalhava no World Trade Center. Eu dormi demais e perdi a hora em 11 de setembro de 2001 e, quando acordei, vi que minha carreira lucrativa, mas maçante, tinha literalmente ruído. Nos meses que se seguiram ao ataque, eu me via ocasionalmente chorando e abraçando bombeiros que cruzavam meu caminho nos bares e estações de trem. Eu achava que nos entendíamos. À noite eu tinha sonhos recorrentes sobre ser perseguida por prédios abandonados, enquanto era encharcada por gasolina por forças sem rosto.

Nos anos que se seguiram, tive que me reinventar repetidas vezes. Então surgiu a personagem de Lady Aye após ter aprendido algumas habilidades circenses rudimentares e passei a acumular horas me virando por conta própria em qualquer palco que me aceitasse.

Passados onze anos de minha trepidante estreia como Lady Aye, agora tenho uma licença emitida pelo Departamento do Corpo de Bombeiros e estou oficialmente autorizada a engolir fogo (sob as circunstâncias apropriadas) dentro dos limites da cidade. É estranho, mas também faz com que me sinta um pouco como James Bond.

Eu me vi sentada diante de Rothman discutindo como lidar com quaisquer emergências que possam surgir. Ele disse que já caçou "artistas de fogo por toda a cidade por anos". Ele vê as licenças como uma colaboração; os espaços e o público estão protegidos, os artistas são obrigados a atuar como profissionais e o trabalho dele fica mais fácil. Ele me deu seu cartão e me disse como chamá-lo a qualquer hora do dia e me aconselhou a não aceitar tolices por parte de produtores ou donos de clubes. "Não se preocupe", ele disse. "Você está conosco agora."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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