Casa Branca confirma alerta à Rússia por hackeamento antes de eleição

David E. Sanger

Em Washington (EUA)

  • Alexei Druzhinin/Sputnik, Kremlin via AP

Ao longo do mês passado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, recebeu duas mensagens muito diferentes sobre hackeamento de redes de computadores americanas do atual e do futuro presidente dos Estados Unidos: não ouse e não se preocupe, nem sabemos ao certo se foi você.

Na última quarta-feira (16), a Casa Branca confirmou em uma declaração que oito dias antes da eleição presidencial, os Estados Unidos "contataram diretamente o governo russo a respeito de ciberatividade maliciosa" visando "os sistemas ligados às eleições americanas". Ele enviou a mensagem por um sistema raramente usado: uma linha direta ligando os Centros de Redução de Risco Nuclear de ambos os países, que os países concordaram há três anos que também poderia ser usada para lidar com grandes ciberincidentes.

O alerta antes da eleição, apenas o mais recente após alertas verbais por parte do presidente Barack Obama, seu secretário de Defesa e pelo diretor nacional de inteligência, foi noticiado pelo jornal "The Washington Post".

Os alertas à Rússia contra hackeamentos adicionais a sistemas de votação e registro, ou quaisquer esforços adicionais para afetar o resultado da eleição, estão sendo saudados pelo governo Obama como um sucesso em dissuasão. Afinal, eles argumentam, um ano e meio de atividade russa de hackeamento parece ter diminuído ou parado, e não há evidência de que a votação ou a apuração tenham sido afetadas no dia da eleição.

Entretanto, mais do que alguns poucos especialistas em dissuasão de ciberataques mantêm uma posição mais cética. Eles dizem que os russos já atingiram sua meta principal: demonstrar como podem perturbar o processo eleitoral americano com o vazamento de e-mails hackeados, incluindo os do Comitê Nacional Democrata e os do diretor de campanha de Hillary Clinton, John Podesta.

Putin não sofreu nada mais do que um alerta, eles notam; não ocorreram sanções, ciberataques retaliatórios, nenhuma revelação embaraçosa provocada pelos Estados Unidos. E ele agora tem a satisfação de lidar com o presidente eleito Donald Trump, que durante a campanha o elogiou, prometeu promover um relacionamento mais produtivo com a Rússia e disse que não há evidência de que os russos estiveram por trás do hackeamento.

"Toda vez que algo errado acontece eles gostam de culpar os russos", disse Trump no debate de 10 de outubro com Hillary. "Ela não sabe se os russos estão por trás do hackeamento. Talvez nem tenha ocorrido hackeamento."

Trump argumentou que as alegações de atividade russa visavam "manchá-lo" por defender um novo relacionamento com Moscou. Ele repetiu com frequência sentimentos semelhantes nas últimas semanas de campanha, sugerindo que o hackeamento foi inventado. Os vazamentos de e-mails funcionaram em grande parte a seu favor, embaraçando líderes democratas como a deputada Debbie Wasserman Schultz da Flórida, que foi forçada a renunciar como presidente do Comitê Nacional Democrata.

A mensagem estratégica maior de Trump é que os Estados Unidos e a Rússia precisam cooperar em diversos assuntos.

Mas, por ora, a situação ressalta a incerteza por todo o mundo a respeito da direção da política externa americana e dá a Putin a oportunidade de explorar as diferenças entre o atual presidente e seu sucessor até que Trump tome posse em 20 de janeiro. Também levanta a dúvida sobre se a Casa Branca de Obama respondeu com firmeza suficiente quando as agências de inteligência americanas concluíram, em 7 de outubro, que "apenas importantes autoridades da Rússia poderiam ter autorizado essas atividades".

James A. Lewis, um especialista em computadores do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, rejeitou a alegação do governo de que dissuadiu a atividade de hackeamento russa.

"Parece ousado alegar que trata-se de um sucesso em dissuasão, já que os russos não foram dissuadidos em nada", ele disse. "O trabalho de hackeamento deles foi em grande parte concluído. A questão agora é se serão dissuadidos no futuro, e acredito que não. Fortes alertas privados não bastam para constituir dissuasão."

De fato, os russos parecem ter pago um preço muito menor por seu hackeamento ligado às eleições do que a Coreia do Norte pagou por seu ataque à Sony Pictures Entertainment em 2014. Aquele ataque atingiu 70% dos computadores e servidores da Sony em seus estúdios, provocando danos consideráveis e embaraçando muitos executivos da empresa. Ele ocorreu em resposta ao lançamento de um filme, "A Entrevista", que imaginava uma trama da CIA (a agência central de inteligência americana) para matar Kim Jong Un, o líder norte-coreano.

Após o episódio da Sony, os Estados Unidos impuseram mais sanções contra a Coreia do Norte e encorajaram a China a limitar o acesso dos norte-coreanos à internet, que passa por centros de comutação chineses. Muitos especialistas esperavam que a Casa Branca faria o mesmo com a Rússia.

Em vez disso, a Casa Branca concluiu que os alertas, e a sugestão implícita de que os Estados Unidos tinham poder para penetrar nas redes russas e ver a origem dos ataques, bastaria. Não está claro se o governo planeja qualquer outra ação contra a Rússia antes que Obama deixe o cargo, mas isso parece cada vez menos provável.

O alerta de 31 de outubro não lidou com o hackeamento do Comitê Nacional Democrata ou da conta de Podesta, que James R. Clapper Jr., o diretor nacional de inteligência, disse previamente que foi realizado com conhecimento da liderança russa. Em vez disso, referia-se apenas às preocupações com hackeamento do próprio processo eleitoral e o temor de partiu de território russo, apesar de não ter chegado a declarar ter sido um ataque patrocinado pelo Estado.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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