Obama avalia desistir de deixar a cena política e liderar a oposição democrata a Trump

Michael D. Shear e Thomas Kaplan

Em Washington (EUA)

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

O presidente Barack Obama está revendo seus planos de se retirar do cenário político após deixar o cargo, insinuando a amigos e apoiadores que quer juntar sua voz à dos traumatizados ativistas democráticos e autoridades eleitas que agora prometem raivosamente se opor à presidência de Donald Trump.

Segundo assessores da Casa Branca, o presidente tentará se abster de críticas durante a transição, por acreditar na importância de uma transferência de poder cortês e digna. Entretanto, embora tenha esperança de poder influenciar Trump, o presidente deixou claro que assim que deixar o cargo não ficará em silêncio caso Trump se exceda no sentido de desfazer seu legado.

"Vou ficar limitado no que faço com todos vocês até que eu seja novamente um cidadão privado", disse Obama, que vai morar a poucos quilômetros da Casa Branca no próximo ano, em uma reunião na semana passada da Organizando para a Ação, grupo que mantém seu movimento político. "Mas isso não está tão distante."

Dezenas de grupos de defesa liberais, que têm recebido uma enxurrada de doações e de novos membros nesses dias caóticos desde que Trump derrotou Hillary Clinton, se preparam para anos de conflitos com o presidente. Após oito anos defendendo a agenda de Obama, eles estão com pressa de se recompor como baluartes contra o esperado ataque de Trump a uma série de políticas democráticas.

A mobilização contra Trump começou antes mesmo de sua vitória ser oficializada. Logo após as 24h do dia da eleição, ativistas por direitos de imigrantes em pânico se reuniram em uma videoconferência para montar estratégias. Poucos dias depois, mais de 80 representantes de 57 grupos progressistas se juntaram nos escritórios da Conferência da Liderança sobre Direitos Civis e Humanos em Washington.

O estado de espírito era tenso, irado e implacável, segundo pessoas que compareceram à sessão confidencial da organização, que incluiu representantes de sindicatos, grupos ambientalistas, ativistas de imigração e organizações de direitos civis e de gays. Jim Messina, que geriu a campanha de reeleição de Obama, fez comentários breves na reunião, advertindo contra quaisquer tentativas de se chegar a um meio termo e trabalhar com Trump.

"Rejeitem em todos os níveis", incitou Messina. Ninguém na sala fez objeções, relatou um participante.

Nan Aron, presidente da Aliança por Justiça, começou a telefonar para firmas de advocacia em Washington no dia seguinte à eleição, começando o processo de pesquisa da oposição sobre possíveis indicados por Trump para a Suprema Corte. Dezenas de advogados se alistaram avidamente para o que deverá ser uma batalha brutal pela direção da corte por uma geração.

"Eles querem se envolver, pois estão preocupados com a nova administração", disse ela.

Neera Tanden, conselheira de Hillary e presidente do Centro para o Progresso Americano, um instituto liberal de estudos e pesquisas, mencionou que sua organização começou a fazer reuniões e videoconferências diárias enquanto arquiteta a melhor maneira para resistir a Trump.

Ela chamou de radicais as primeiras indicações de Trump e disse que elas ajudaram a "dar uma sacudida" nos democratas. E acrescentou que a eleição desencadeou um despertar das bases, com protestos geralmente pacíficos por todo o país.

Duas manifestações planejadas em Washington --uma pela imigração e os direitos civis em 14 de janeiro e outra focada nas mulheres no dia seguinte à posse-- foram convocadas principalmente por campanhas nas redes sociais. Ativistas em Washington esperam a presença de centenas de milhares de pessoas na segunda manifestação.

Tanden, porém, advertiu sobre perigos apresentados pela administração Trump, os quais não devem ser tratados "em termos políticos normais de Washington".

"Acho que a grande questão é: estamos vendo os preparativos de uma administração que poderá causar mais danos às normas democráticas do que qualquer Presidência em toda a minha vida", declarou ela.

Alguns democratas dizem estar ansiosos para que Hillary ressurja após um período de recuperação só interrompido até agora por um discurso para o Fundo de Defesa das Crianças na quarta-feira (16).

Não está claro quando ou se ela poderá retornar à política, embora muitos democratas tenham dito que veriam isso com satisfação. "Ela é uma mulher durona, e o serviço público está em seu sangue", disse o deputado democrata Adam Schiff, da Califórnia. "Não esperem que ela sai discretamente de cena para descansar."

Mas a tarefa imediata de confrontar Trump caberá ao senador Chuck Schumer, de Nova York, o novo líder democrata.

Schumer já alarmou alguns progressistas em Washington com sua conversa de tentar fazer acordos com o novo presidente em questões nas quais seus interesses se alinhem. Todavia, ele disse na sexta-feira (18) que os senadores democratas não hesitariam em confrontar Trump.

Um desacordo quanto à estratégia ameaça semear discórdia entre os democratas, alguns dos quais defendem encontrar maneiras de trabalhar com Trump. Essa abordagem poderia ajudar os senadores a tentar se reeleger em 2018, sobretudo em Estados onde Trump derrotou Hillary Clinton.

O senador democrata Joe Manchin III, da Virgínia Ocidental, anunciou que apoiará a indicação feita por Trump do senador republicano Jeff Sessions, do Alabama, para procurador-geral (ministro da Justiça). Outros, como o senador democrata Richard Blumenthal, de Connecticut, dizem que os democratas deveriam trabalhar com Trump em áreas nas quais eles tenham metas semelhantes. Contudo, Blumenthal também advertiu contra ceder terreno em assuntos como direitos civis.

Por sua vez, a senadora democrata Elizabeth Warren, de Massachusetts, cujas críticas veementes a Trump sobre a condução da campanha muitas vezes beiraram o tom apocalíptico, rejeita acomodações com Trump. Ela diz que ele está montando uma iniciativa "para transformar este país em algo bem diferente do que é".

"Em questões básicas de humanidade, não cederemos um milímetro", insistiu ela em uma entrevista. "Sejam claros, muito claros sobre o que nós não iremos tolerar, e perfeitamente claros sobre pelo que estamos lutando. Se tivermos clareza, a população americana ficará conosco."

O senador democrata Christopher Murphy, de Connecticut, espelhou a incerteza entre democratas, que ainda estão tentando avaliar as implicações de um governo Trump e como reagir adequadamente.

"Ainda não sabemos se é uma ameaça a normas democráticas", disse ele, "ou a uma forma de fazer política."

Para Obama, um retorno à luta partidária nunca foi uma opção. Sua biblioteca e fundação lhe servirão de plataforma para viajar pelo mundo, enfrentar questões sistêmicas de relações raciais e pressionar por mudanças tecnológicas que visem melhorar a sociedade.

No entanto, essa visão pressupunha que seu legado presidencial seria protegido e acalentado por Hillary no Salão Oval.

Em seus comentários para ativistas, Obama incitou-os a parar de se lamentar e a intensificar sua oposição a Trump no Dia de Ação de Graças. Ele prometeu aderir à causa deles logo após isso, dizendo-lhes: "Vocês me verão logo no próximo ano, e estaremos em posição para começarmos a preparar todo tipo de coisas ótimas a ser feitas".

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos